O Dogma de Cristo -

    Erich Fromm

    Zahar
    1974
    159 páginas
    5h 18m
    ISBN-10: 8527700158
    Português Brasileiro

    Erich Fromm em sua obra analisa a situação sócio-econômica dos grupos sociais que aceitaram e difundiram os ensinamentos cristãos, sobre essa base ele propõe uma interpretação psicanalítica. Delimita sua investigação a análise da evolução dos conceitos sobre a relação de Deus Pai com Jesus até a formulação do credo Niceno, no século lV. Fromm procura deixar claro que as transformações dos conceitos religiosos estão intimamente ligadas à experiência das várias relações infantis possíveis com o pai ou a mãe. Estuda as pessoas a fim de entender o dogma das pessoas. Ao trabalhar a função sócio-psicológica da religião diferencia impulsos do ego, mantenedores da vida, dos impulsos destruidores, libidinosos. Estes últimos não são imperativos, portanto, passíveis de sublimação. Coloca na sociedade a dupla função na situação psíquica do indivíduo, frustrá-lo e satisfazê-lo. A mais velha fonte de satisfações fantasiosas coletivas para Fromm é a religião. Se colocando ao lado poesia, arte e filosofia. A religião tem uma tríplice função: 1) para toda humanidade, serve de consolo às privações impostas pela vida; 2) para grande maioria dos homens, é um estímulo à aceitação emocional de uma situação de classe; 3) e para minoria dominante é um alívio dos sentimentos de culpa provocados pelo sofrimento daqueles a quem oprimem. Cita Freud quando este assinala que a impotência do homem frente a natureza é uma repetição da situação em que o adulto se viu quando criança, quando não podia passar sem ajuda dos pais. O sujeito transfere dos pais os medos e amores infantis, e também hostilidade, para uma figura da imaginação, para Deus. Nesta servidão infantil está uma das garantias da estabilidade social, visto ser Deus sempre aliado dos governantes. Fromm passa a discorrer o contexto econômico, social, cultural e psíquico que dá origem a religião cristã. Define o perfil dos cristãos primitivos: os incultos, os pobres, o proletariado, os camponeses, que devido a opressão e desprezo social sentiam a necessidade de modificar as condições existentes. Nutriam a esperança que um pai bom os libertasse e a este amavam em fantasia. Ambivalentes odiavam o pai malvado, o governo, que o oprimia. Aqui aponta Fromm surge o cristianismo como movimento histórico significativo. A fé cristã primitiva no homem sofredor que se tornou Deus tinha sua significação central no desejo implícito de derrubar o Deus pai ou seus representantes terrestres. A figura do Jesus sofredor originou-se primordialmente na necessidade de identificação das massas sofredoras e posteriormente pela necessidade de expiação do crime de agressão contra o pai. Ao término do século ll, conquistando adeptos em todo o império romano, o cristianismo já havia deixado de ser a religião dos artesãos pobres e dos escravos. Com Constantino, tornou-se religião do estado, transformou-se na religião da classe dominante. O mundo histórico, real, já não necessitava transformação. A salvação se tornara interior, espiritual, não histórica, uma questão individual assegurada pela fé em Jesus. Passou então de religião dos oprimidos a religião dos governantes e das massas por eles oprimidas, da expectativa do dia do juízo e de uma nova era para a fé na redenção já consumada, de uma vida pura e moral para a satisfação da consciência através dos meios eclesiásticos de graça, da hostilidade ao estado para um acordo cordial com ele. Com a mudança social e econômica o dogma evoluiu, Deus que virou homem, não o oposto. O pai, o governo, não precisa mais ser derrubado. A satisfação vem do perdão e amor. Jesus torna-se finalmente Deus sem derrubar Deus, porque sempre foi Deus. Fromm aponta que a doutrina hoomousiana de que dois é igual a um remete a uma situação real que faz sentido: a criança no ventre da mãe. O conceito de Deus Pai também se modifica. O pai forte e poderoso tornou-se a mãe agasalhadora e protetora. Surge a figura divina da Grande Mãe, figura dominante do cristianismo medieval. Fica claro para Fromm que tanto a fantasia do Jesus sofredor, quanto a do menino Jesus no seio da mãe são expressão do desejo de perdão e expiação. Essas fantasias também significam que os homens tinham de regredir a uma atitude passiva, infantil, o que impedia a revolta ativa. Sinônimo de dependência dos governantes para subsistência e a percepção da fome como prova dos pecados. A partir do dogma de Nicéia os apologistas procuraram apresentar o cristianismo como a mais alta filosofia. A fé se transformava em doutrina. Exigia-se fé na fé, fé na religião. Isso preparou caminho para o édito de Constantino. Encerra seu ensaio configurando o catolicismo como volta disfarçada à religião da Grande Mãe e colocando o protestantismo como religião que se voltou para o Deus Pai em uma época social que permitiu uma atitude ativa da parte das massas, em contraste com a passividade infantil da idade média. No seu prefácio, Erich Fromm afirma que quando escreveu essa obra (1930) era rigorosamente freudiano e que certamente faria muitas revisões no seu texto, mas que não estava dentro de suas forças tal trabalho e concorda em publicar mesmo assim sua versão em inglês (1963). Concordo com ele quando afirma que muito se publicou após sua obra, o que deveria ser levado em conta numa possível revisão. Ainda assim seu texto, mesmo desatualizado, continua relevante para o estudante da religião, sociologia e psicologia. Tem sua razão de ser. Leitura indispensável, excelente contribuição para compreensão do desenvolvimento social-psicológico da fé cristã, divisora de nosso calendário. Acrescento que enriqueceria seus argumentos se desse mais espaço em sua análise a principal produção dos cristãos: a Bíblia sagrada, ou como os cristãos percebem e contam suas histórias e doutrinas. Melhor ainda, como contam a história de seu Messias. Este, somente analisado como idéia e conceito em evolução, não como possível personalidade histórica intrigante em seus discursos. Embora mostre maestria nas suas interpretações, enxergar toda a realidade a partir do viés psicanalítico gera desconforto no leitor pouco habituado, podendo ficar a impressão de reducionismo, curiosamente, comum aos que professam alguma fé. Ricardo F. Silva

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    Charles22/06/2021Resenhou um livro
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    Perfeito

    Nesses livros Erich Fromm vai trazer uma análise ampla e profunda a história do cristianismo e seus mecanismos psicossociais e psicanalíticos. Fromm mostra que no início o cristianismo surgiu como forma de revolta contra a opressão e que a idéia de que Jesus se tornava Deus era uma representação simbólica do pobre oprimido que queria se tornar imperador, porém após 300 anos as elites começaram a adotar o cristianismo para si e transformaram ele em um mecanismo de dominação das massas em que os valores foram mudados, agora os cristãos acreditavam que Jesus era deus que se tornou homem para se sacrificar, ou seja existe ai uma mudança no mecanismo simbólico aniquilando a possibilidade revolucionária inicial do cristianismo, assim sendo o sofrimento deveria ser aceito e implicitamente o imperador parecia merecer o poder que tinha e o sofrimento dos mais pobre era por sua própria culpa, estes por sua vez direcionam sua raiva e revolta do império contra si mesmos em um sentimento de culpa e subordinação, Fromm sempre enfatiza o simbolismo que deus representa como figura do pai imaginário que pune e recompensa o filho e nessa pegada vai analisando o dogma cristão e revelando sua função social e econômica. Após o encerramento da parte do dogma cristão Fromm começa a fazer uma análise da vida contemporânea em vários aspectos, ele vai falar das nossas relações com os bens de consumo, da sexualidade, da psicanálise como partido político, a psicologia como uma ciência alienada e o conceito de paz. . Recomendo esse livro a psicólogos interessados na temática religiosa. .

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