Desde a primeira que vez que eu ouvi falar sobre Julie d'Aubigny ou La Maupin senti um interesse enorme na sua história. Uma cantora de ópera sáfica que se vestia de homem e era uma duelista excelente, tem como não se interessar? Então peguei o primeiro livro sobre ela que vi pela frente, esperando uma biografia - o que esse livro definitivamente não é.
Grande parte da história é focada em um personagem fictício - chevalier d'Albert - que, honestamente, é um dos personagens mais insuportáveis que eu já encontrei, e fiquei bem tentado a abandonar o livro depois de descobrir que não se tratava de uma biografia da histórica Maupin. Mas o que mais me segurou foi a escrita primorosa do Gautier, esse homem era uma máquina de escrever poesia na forma de prosa. Apesar de eu achar algumas passagens muito mais longas do que necessário, a atenção com que ele descreve tudo, o belo e o feio, o pitoresco e o extraordinário, é quase como tecer em palavras uma tapeçaria incrivelmente rica em detalhes. Não me admira que ele tenha influenciado autores como Baudelaire e Wilde, e de fato eu percebo a mesma delicadeza e refino na prosa do Wilde.
Os personagens são vívidos e moralmente ambíguos, especialmente a Maupin. O autor retrata ela como uma pessoa com um caráter nobre apesar das circunstâncias, o que eu não sei se é condizente com a verdadeira Maupin, pois eu tenho pouco conhecimento sobre a vida dela. Mas de qualquer forma é uma personagem que, para a época, desafia algumas convenções, por exemplo, ao declarar várias vezes que gostaria de ser um homem para poder tomar uma mulher como amante, o que ela se recusa a fazer ao longo de quase o livro inteiro. É interessante como o autor trata a homossexualidade como o taboo extremo, e algo impensável por parte de todos os personagens, enquanto questões de gênero são tratadas com uma certa naturalidade, como na passagem:
"In truth, neither of the two sexes is mine; I have not the imbecile submission, the timidity or the littleness of women; I have not the vices, the disgusting intemperance, or the brutal propensities of men: I belong to a third, distinct sex, which as yet has no name: higher or lower, more defective or superior, I have the body and soul of a woman, the mind and power of a man, and I have too much or too little of both to be able to pair with either."
Essa parte condensa muito bem a vibe geral do livro: ao mesmo tempo que desafia algumas normas convencionais, reafirma outras tantas, especialmente no que diz respeito a mulheres, e todos os personagens refletem a mesma misoginia como se fosse um fato.
De todo, o livro é agradável em diversos aspectos enquanto é cansativo e indelicado em outros. Não é uma leitura que eu recomendaria a muitas pessoas, pois é preciso muita paciência e atração pela história para conseguir chegar ao fim.