7 horas da manhã de um dia de trabalho na Estação Faria Lima do metrô de São Paulo. A composição de cor prateada e amarela se aproxima da plataforma onde a massa humana de coloração acinzentada se comprime e se acotovela para entrar nos vagões, ao tempo em que faz esforço supremo para não despencar da plataforma por sobre os trilhos.Uma balbúrdia tremenda de corpos a se chocarem.Um dos vagões não consegue fechar a porta por excesso de lotação e a partida atrasa. Entretanto a massa humana termina por se acomodar e a voz feminina suave a macia do alto-falante interno informa: Senhores passageiros, bem vindos à linha 4 – Amarela do metrô de São Paulo.
Cenário conhecidíssimo de usuário dos metrôs não só de São Paulo, mas de todo o Brasil. No entanto a voz do alto-falante se transmuta no belo livro de estreia da escritora Mineira radicada em São Paulo, Viviane Santyago. “A linha amarela do metrô – algumas histórias precisam ser contadas”, publicada pela Telucazu Edições de Jundiaí, é inclusive obra qualificada no programa de Incentivo à Cultura do Estado de São Paulo - PROAC-SP, e nos fornece uma panorâmica da humanidade latente dos quase 700 mil passageiros/dia que circulam nas composições do metrô – Linha 4.
Viviane cruza o olhar atilado da jornalista com a sensibilidade de pós-graduada em Literatura Brasileira para compor um painel vivo, pulsante, daquela humanidade que circula diariamente sobre os trilhos. Se por um lado há a predominância de aspectos negativos, o que é natural em uma sociedade completamente amalucada como é a nossa, por outro, há quadros e flagrantes que nos levam a supor que nem tudo está perdido. É preciso continuar. E é assim que o passageiro/leitor mais atento, vai perceber nos 32 breves textos reunidos, e entre uma estação e outra, sentado bem ali ao seu lado, o pequeno Getúlio, homem mirrado e já com certa idade que carrega uma mochila enorme, mas sempre solícito em prover assentos para quem mais precisa. Vai encontrar também, ou ouvir conversas sobre o famoso João de Higienópolis que acaba, COMO TANTOS OUTROS, se transformando, muito por conta desse nosso “justíssimo” sistema social, nos “Criolos Doidos” das favelas, com um pé na marginalidade e outro no crime.
Vai poder observar também, e com que alegria, lampejos do amor humano que anda tão embotado em nós, na paixão em movimento de um casalzinho jovem enamorado a sansei Myuki (nome que em japonês significa agradável alegria) e o judeu benjamim. Mas vai perceber também, e com que tristeza na multidão exprimida o “aflorar” de instintos de tara sexual contra mulheres, por vezes praticados justamente por aqueles que deveriam dar o exemplo (tipicamente brasileiro isto), como acontece em “Quando aflora”, ou em “Ana” onde lemos o caso surreal da garota que de tanto ser estuprada - com e sem penetração -, por várias instâncias da vida, resolve “dos últimos anos para cá, engordar nove quilos, e pretende engordar mais sete este ano se tudo der certo!!!
E numa evasiva triste, pode lançar o olhar através da janela e observar a beleza, e o sentido de uma casinha iluminada - onde mora seu Venâncio-, com adornos natalinos no trajeto do trem, metáfora da mensagem de fraternidade que tanto nos falta. Pode ocorrer também que na parada em outra estação, possa divisar também pela janela, o comovente flagrante de um casal que apesar de estarem separados (nem eles mesmos sabem ao certo porque estão separados) se encontrando na plataforma quando o pai vai levar o filho de volta para a casa da mãe após o fim de semana. E é então que se assusta, se indigna ou simplesmente sorri ante a imagem de Dona Laurinda a entrar no vagão correndo depois que, engenhosamente, burla a vigilância da ronda da plataforma de embarque para vender suas ervas terapêuticas dentro dos vagões do metrô. Ou numa tragicomédia visualizar também o viciadozinho de ocasião que quer comprar maconha com a mesma D. Laurinda. Olhará ainda com tristeza para crianças distribuindo papeizinhos com pedidos de esmolas ou um grupo de imbecis juramentados e sacramentados a praticar intolerância religiosa.
Mas pode ser ainda que novos passageiros adentrem o vagão. Que entrem as duas irmãs gêmeas Monique e Yasmin, que com o fito de se melhorarem como seres humanos enfrentam pobreza e fome para ir à escola. Ou ingresse também o arquétipo que representa um Seu Manoel, migrante das Gerais que não se rende, e mesmo debaixo do peso da idade e de toda luta, enfrenta a vida altivamente como engraxate. E ficará maravilhado ao perceber que existe lugar ainda para o sensacional encontro amoroso que se dá entre Júnior e uma garota especialista em perder coisas e ouvirá antes das portas se fecharem para a partida, a voz poderosa da loucura tão sadia de um poeta que recita Camões em plena estação.
A Linha 4-Amarela do metrô de São Paulo (Butantã-Luz), com 12,8 quilômetros de extensão total opera com 14 trens em sete estações e transporta um contingente diário, como já dissemos, de 700 mil pessoas/dia. É muita, muita vida. Vidas que precisam afinal se dar conta de que descemos em nossos destinos “enfurecidos, todos em [nossa] recém-paternidade, seja de um carro novo, uma casa, uma namorada que gosta de bons restaurantes, a ostentação diária do suor que não se pode ver nas roupas e tênis de marca”. Nessa sociedade extremamente desigual e desumana. Uma cegueira terrível. Precisamos sim repensar, repensar tudo isso que somos e o que vamos fazendo de nossas vidas, retomar rédeas em tempos de metrô. Dá tempo sim! A leitura de um livro como “A linha amarela do metrô – algumas histórias precisam ser contadas”. Ajudará muito nesse sentido. Repensar.
TRECHO:
“Por aqui existem várias tribos, à direita temos os evangélicos que cantam louvores e lêem a Bíblia, vez ou outra se arrisca a profetizar para algum usuário que se mostre vulnerável; à esquerda, os estudantes que estão sempre reclamando dos professores, do peso, do cansaço, do claro e do escuro. Ao chão, os que não reclamam de nada, não possuem audácia para tal devaneio, estes, estão realmente cansados.
Temos as mulheres que, às nove horas da noite de um dia chuvoso, permanecem em seus saltos, elegantemente fortes, como em verdade são, temos os atletas, estes são magrinhos, ágeis e espertos, vão sentados, dormindo. Temos eu, e os que, como eu, seguem em pé, fone no ouvido, boa música, ninguém sabe, pensamento longe...” Conto “Marina”.
Livro: “A linha amarela do metrô” – Contos – De Viviane Santyago – Telucazu Edições, Jundiaí – SP, 2018, 116p.
ISBN 978-85-6970-812-4. OBS: LINK PARA COMPRA E PRONTO ENVIO:
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