Macbeth (Clássicos Para Leitores de Hoje #10) -

    William Shakespeare

    Relógio D'Água
    2016
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9789896416256
    Português

    "Shakespeare mostra desde as primeiras palavras de Macbeth que o seu herói é vítima de uma agressão tão difícil de combater como pesada de consequências. Ele era, dizem-nos, a lealdade, a coragem, mas eis que as forças do mal decidem ali, diante de nós, sobre o próprio palco, implicá-lo num plano que o ultrapassa, já que se trata nem mais nem menos que do destino de uma dinastia que está ainda no poder na Escócia e em Inglaterra quando a peça é escrita." Yves Bonnefoy

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    Do Que Sinto Não Ignoro29/05/2025Resenhou um livro
    4.5 (Muito bom)

    Ambição e imoralidade: o bom rei é destronado

    Macbeth, uma das tragédias mais densas e complexas de William Shakespeare, é um mergulho na topologia do desejo, na estrutura moral do ser humano e nas consequências do desvio do eixo interior. No centro da obra está o casal Macbeth – o mais feliz dos pares shakespearianos, marcado por confiança e parceria irrestrita. Essa união, ao invés de uma dádiva do amor que os impulsiona ao equilíbrio, torna-se o veículo trágico para a ruína. Ser um casal feliz, em Shakespeare, não é sinônimo de salvação; é uma potencial armadilha se os valores que unem esse casal não são fundados na ética e na reflexão. O que está colocado é que não é meramente um prêmio, ou simples e fácil ser um casal feliz, porque assim diante de uma tentação é preciso controlar os dois sujeitos, já que um se unirá ao outro em seus intentos. É preciso que tenham valores congruentes porque onde Macbeth era falho, na ambição, colocando em cheque suas virtudes e convicções, Lady Macbeth era audaz, também na ambição. O que deveria ter acontecido era o casal encontrar seu eixo diante da tentação e resistir, mas a união das duas forças apontava à direção da realização do ato. O fato dos dois serem coautores do crime não tira a responsabilidade individual e incorruptível de cada um. De qualquer modo, era responsabilidade de Macbeth resistir e encontrar seu eixo, assim como a Lady Macbeth cabia o seu. A diferença entre os dois é que Macbeth - sendo um homem de virtudes e fundamentos morais que desvirtuou-se de seu eixo pela ambição (o rei destronado simboliza o espírito fora de seu eixo) - compreendia os efeitos da morte e do assassinato por ser um guerreiro, enquanto Lady Macbeth não exprime hesitação ou remorsos imediatos porque não concebe a experiência ocm clareza antes de realiza-la. Por isso é mais fácil para ele idealizar e para ele, fazer. A falha trágica de Macbeth é a ambição (quando há extrema e desmedida influência do desejo - enquanto vontade de objeto de falta - sobre a ação) que passa a controlar o juízo, tornando-o capaz de ultrapassar qualquer limite para fazer valer sua vontade. Assim, o desejo fixa-se em um objeto aprisionando o sujeito a ele como única forma de realização. O desejo cerceia a nossa liberdade, porque nos aprisiona ao ideal de algo; nos detém ao objeto e às experiências; nos ata a repetições cerceando renovações. De modo que nunca terás esse objeto, mas serás possuído por ele. A ambição que outrora fizera de Macbeth um guerreiro valente, fiel ao rei e à pátria, revela sua dupla face ao tornar-se dominante em sua alma. O que antes era uma virtude militar – a busca pela honra, a bravura no campo de batalha – converte-se em vício moral. Macbeth deixa de servir a uma ordem maior e passa a servir apenas ao seu desejo de ascensão. A ambição, quando desmedida, corrói sua escala de valores, deslocando a honra, a lealdade e o senso de justiça para posições secundárias ou inexistentes. Disso advém um traço sintomático: o orgulho exacerbado. Acreditando-se invencível, Macbeth se torna imprudente e é justamente essa confiança desmedida que o conduz à derrocada. Não é produtivo, portanto, observar Macbeth com os olhos da justiça criminal, como quem busca um culpado a ser punido. Sua queda não é resultado de um crime isolado, mas de um processo profundo de deterioração interior. O espectador trágico não está ali para julgar, mas para testemunhar a derrocada de um homem que, cheio de qualidades, sucumbe ao próprio excesso. Essa é a essência da tragédia: não o castigo por um erro moral, mas a exposição crua de como um desvio de eixo interno pode destruir um sujeito por inteiro. A obra cruza com reflexões clássicas sobre a relação entre poder e nobreza. Malcolm afirma: “Quem não tem nobreza, não pode reinar.” Trata-se aqui não apenas de uma noção medieval de linhagem, mas de uma nobreza simbólica e interior. O rei não é apenas aquele que ocupa o trono – ele deve ser símbolo da ordem, do domínio racional sobre os impulsos coléricos e concupiscentes que compõem o ser humano, conforme Platão. A figura do aristocrata, segundo a filosofia clássica, é aquele que tem o espírito racional no governo de sua alma. Macbeth, ao se deixar dominar pela concupiscência (desejo de poder, prazer, domínio), transforma-se não em um aristocrata, mas num tirano – desprovido de eixo, de controle, de moral. E quando o crime é o meio pelo qual se ascende ao poder, e esse poder se mantém por meio de novos crimes, como acontece em Macbeth, não é apenas o indivíduo que adoece – é o próprio tecido da comunidade que se desfaz. Shakespeare mostra que o governo, quando legitimado pela violência e pela ruptura da ordem ética, perde seu fim mais nobre: o bem-estar comum. O reino de Macbeth é sombrio, paranoico e estéril – reflexo direto de um governante que perdeu a conexão com a nobreza de espírito. A tragédia, assim, ultrapassa o indivíduo e se torna social: um mal que contamina tudo à sua volta. Esse desgoverno se expressa também na loucura. A peça estabelece uma relação pungente entre loucura e imoralidade. Lady Macbeth, em especial, adoece. Sua mente cede não por falta de princípios, mas pela incapacidade de vivê-los. É um sujeito imoral – tem consciência, mas não consegue se alinhar a ela. A famosa cena do “lava as mãos” não é um delírio qualquer, mas a encenação tortuosa de uma culpa que a corrói por dentro. Macbeth, por sua vez, vê o fantasma de Banquo. A realidade externa confunde-se com sua realidade psíquica – porque a estrutura que deveria manter seu juízo intacto foi completamente dilacerada pela ambição e pelo medo. As profecias das bruxas são o catalisador, mas não a causa. Banquo, a quem também são dirigidas promessas ambíguas, mantém-se firme, contido. A diferença entre os dois está na forma como recebem e processam essas vozes externas. Macbeth se deixa atravessar pelas profecias como se fossem comandos irrefutáveis; Banquo as relativiza, não perde seu eixo. A tragédia, então, reside na perda de autonomia diante das influências externas – e na escolha (porque sempre há escolha) de ceder ao que é dissonante em relação aos próprios princípios. Macbeth falha também por não refletir sobre as pessoas a quem se liga: em vez de cercar-se de vozes éticas, entrega-se à parceria destrutiva com sua esposa e à sedução profética das bruxas. As bruxas, nesse contexto, não passam de anunciadoras de possibilidades. Shakespeare as constrói não como deusas do destino, mas como enigmáticas vozes do mundo. Elas prevêm, não determinam. A ação permanece como responsabilidade plena de Macbeth. Ele poderia, como Banquo, ouvir e refletir. No entanto, opta por agir para forçar o cumprimento da profecia, comprometendo sua liberdade moral. Além disso, Banquo só começa a ser envolvido pelas profecias quando, movido pela curiosidade, pergunta às bruxas sobre o próprio destino. Há, nisso, uma lição sutil: preservar o mistério do que está por vir pode ser uma virtude. A ânsia de conhecer o futuro pode nos desviar do presente e enfraquecer nossa liberdade. Banquo, ao contrário de Macbeth, não força a realização do que lhe é dito. Sua prudência revela que há força em não tentar controlar o que não cabe ao controle humano. Macbeth também pode ser lida como uma peça sobre a fragilidade de uma ascensão social baseada na ambição individual, especialmente dentro de uma sociedade medieval rigidamente estruturada por vínculos de lealdade, nobreza de nascimento e ordenação divina do poder. A escalada de Macbeth, que rompe essa hierarquia tradicional ao se tornar rei não por sucessão legítima, mas por assassinato e manipulação, é marcada desde o início por um desequilíbrio profundo: ele alcança o trono, mas não a nobreza interior que o sustentaria. O trono é, na simbologia medieval, mais que um cargo — é uma expressão visível da ordem do cosmos, do equilíbrio entre razão, coragem e desejo no governante. A ausência dessa harmonia torna seu reinado ilegítimo e instável, revelando que a mera conquista de poder, sem a formação moral correspondente, está fadada ao colapso. Quando Macbeth recebe a notícia da morte da rainha, ele pronuncia uma das falas mais célebres de Shakespeare: “A vida é apenas uma sombra ambulante [...] cheia de som e fúria, significando nada.” Mas é fundamental lembrar que essas palavras não são uma filosofia do autor sobre a existência — são o lamento de um homem destruído por suas escolhas, esvaziado por dentro e devastado pela perda de tudo que sustentava sua ilusão de poder. Macbeth, nesse momento, fala como um espírito derrotado, incapaz de encontrar sentido onde antes depositava sua vontade. A peça, portanto, não afirma que a vida é vazia; ela mostra que uma vida conduzida por ambição cega, desconectada da ética e da verdade interior, leva inevitavelmente à formulação dessa convicção. Há, contudo, um último instante de lucidez em Macbeth, quando ele se recusa a continuar sendo manipulado por profecias e decide lutar por si mesmo. Nesse gesto, ainda que breve, ele deixa de ser o homem dominado por vozes externas e se transforma — e é justamente por isso que morre. Sua morte sela uma trajetória de ruína, mas também sinaliza que, ao reencontrar a autonomia, ele recupera, mesmo que tardiamente, sua dignidade trágica. Shakespeare nos mostra que o verdadeiro trono do homem não está fora, mas dentro – na capacidade de governar a si mesmo. Um homem fora de eixo é, inevitavelmente, um rei destronado. No fim, o destino de Macbeth é a imagem simbólica do que ocorre com qualquer homem que perde seu eixo: a ordem cósmica entra em desarmonia, o caos se instala. “Não há ganhos, tudo é perda se o desejo se alcança sem contentamento”.

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