As diversas formas e rumos do amor nesta edição de 35 anos de lançamento. Neste belo e poderoso livro, publicado pela primeira vez em 1983, Betty Milan inventa um discurso amoroso. Dividindo o texto em quatro partes – “A paixão do amor”, “Os dizeres”, “O amor hoje” e “A paixão do brincar” –, a autora relata e interpreta o percurso amoroso. Somos levados a conhecer o amor em suas diversas formas, passando por povos, raças, costumes, lendas e teorias diversas. Como Xerazade, Betty conta histórias. Salva a cabeça e o coração.
O que é o amor? -
Betty Milan
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Logo no início de seu pequenino livro de pouco mais de 100 páginas, Betty Milan já confessa como é difícil falar do amor em português. Para ela, no português do Brasil, falar de amor é algo que parece ridículo. Com autores como Vinicius de Moraes, Fernando Pessoa e Camões, juro que me surpreendi com as palavras dela. Contudo, para um livro cujo o título não vem seguido de um ponto de interrogação, esperava muito mais do que estaria por vir nessa leitura. "A paixão do amor" é o título da primeira parte do livro. O que animou Milan a seguir adiante num projeto que era um desejo seu, mas que temia fazê-lo em português? A resposta da autora é o filho que ela gestava em seu ventre naquele momento, por causa dele resolvera seguir adiante. Estaria se cumprindo na autora a condição estabelecida por Eros à Psique, para que o amor incondicional existisse? A condição de que Psique nunca mirasse o rosto dele por debaixo do véu? De modo semelhante, por debaixo de seu ventre, estava uma criança amada sem nunca antes ter sido vista! E, para a autora, realizava-se nela também o propósito do amor em ser UM? Ela estava gestando a criança fruto de seu amor, ela era UM com seu amado. Entretanto, até nessa abordagem, permanece uma dúvida: ela é UM com seu amado, mas esse amado seria seu filho ou o pai da criança? Não consegui discernir uma vez sequer a presença de uma terceira pessoa nesse projeto de unidade da autora. Mais adiante ela até irá esclarecer que o alvo do amor é que dois sejam UM. Assim, ela e a criança em seu ventre são a experiência desse amor em dois sendo UM? Pois, como eu disse, durante toda a leitura do livro não consegui ver uma terceira pessoa nessa história (voltarei a essa questão no final). Milan nos leva a ver o amor como paixão e discorre não apenas sobre suas características, mas nos leva por um maravilhoso passeio literário, desde o mito de Narciso, passando por Alidor, Teresa de Jesus, Drummond, e indo até tantos outros autores como Ovídio, Camões e Platão. Mas, como vemos, as características do amor, para Milan, são as características da paixão - a paixão do amor. O amor é algo desconhecido, pois o que as pessoas descrevem e experimentam é essa paixão pelo amor. Em outras palavras, eu amo amar você! Quais as características dessa paixão do amor? O amor nos escolhe e não nos pede licença para entrar; o amor é mistério; é sublime e cruel; é morrer de não morrer; o amor é narcísico e, por isso, não suporta a diferença; o amor incondicional impõe condição; o amor vive da falta e da fé do outro; o amor sem a morte não existe; o amor ama amar e, por isso, ele está acima de Deus e do amado; mas, imprescindível a tudo, o amor é palavra e não existe o amor sem saber dizer. E esta última característica nos levará ao próximo texto do livro. "Dizeres" é o titulo do segundo texto do livro. E ela parte do ponto em que parou o texto anterior, em que ela mostra que só há o amor onde há palavra, dizeres. Na peça "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand, o personagem de Cristian falha, quando se vê sozinho com Roxane, ao não conseguir repetir a eloquência de Cyrano. "Eu te amo", diz Cristian. Sim, mas isso Roxane já sabe e exige ouvir dele dizeres mais eloquentes. Se há amor, há palavras. E as palavras do amor superam quaisquer deficiências físicas é a tese de Rostand. Na vida de Milan, o bebê gestado durante a escrita do primeiro texto, agora já é nascido e gera uma nova reflexão sobre o amor do amor. Uma vez desfeita a experiência da gestação, que a levou a cumprir o alvo do amor - o de dois serem UM -, a autora passa a experienciar uma outra característica desse amor narrado por ela: a perda do controle sobre o outro, quando perde-se a experiência do UM. Aqui, portanto, fica ainda mais claro que Betty Milan não estava falando em momento algum de que aquela gestação teria dado a ela a experiência da unidade com o marido, mas, de fato, os dois da história são ela e a criança. Porém, nem essa experiência é algo que ela possa reter, pois a criança foi dada à luz e, assim, está fora do controle da autora. O texto escrito após o nascimento de seu filho é um texto sobre o ciúme. E o que é o ciúme? O ciúme é que o amor que você sente pelo amor que você tem pelo outro exige um retorno, uma vez que o objeto responsável por esse sentimento não está mais à sua disposição, preso dentro de você, controlado por você no seu ventre! O ciúme é a exigência de que os seus dizeres ao amado tenham um retorno - será que o outro sente amor pelo amor que ele sente por mim? Haverá um amor no outro pelo amor que eu digo sentir por ele? Enfim, eu preciso que o outro expresse em palavras, porque não o tenho mais dentro de mim! O sentimento de angústia aqui é patente e o amor do qual a Betty Milan trata é, indubitavelmente, um amor platônico no melhor entendimento dessa expressão. Um amor que ama o amor que eu sinto ama uma sombra e não uma realidade - esta é uma experiência impossível aos seres humanos na terra. O amor, este ao qual a autora se refere, está no mundo das formas. E a origem da angústia dessa experiência está narrada no livro O banquete, de Platão, em que o homem e a mulher eram originalmente UM só. Todavia, desmembrados um do outro, buscam sua completude perdida. Mas isso é angústia e não amor! E a angústia é fruto do ciúme. O ciúme nasce da dúvida sobre a quem, afinal, o amado ama: ela ou o outro? Há um outro que diga melhor o que eu digo, um outro mais eloquente? No momento em que você está fora de mim, eu não posso dominar o amor que você possa sentir pelo amor de outros e isso, enfim, gera o ódio do amor. Queremos a espera pelo encontro mais do que o encontro! O que queremos na frase "eu te quero" é querer o querer - eis o enigma da paixão. A arte de amar é hoje a de gozar, e o saber dos sexólogos nos governa. O mito do amor eterno foi substituído pelo mito do orgasmo genital perfeito - Betty Milan. "A paixão de brincar" é um texto que me deixou muito triste, muito para baixo mesmo. Um texto que fala desse fatalismo do brasileiro ser isso: o país do carnaval. Milan escreve isso como sendo nossa vocação mesmo. Ela nega (ou renega?) toda a nossa herança europeia sobre o amor. Para ela, o brasileiro quer é fazer graça com tudo isso, usar as máscaras, ser de todo mundo, enfim, um país ladino. Talvez, o que mais tenha me deixado triste neste texto é que eu havia lido um texto da Milan, um texto talvez de 2011, sobre fidelidade, mas não encontrei nada daquele texto em lugar nenhum deste livro que se propunha a falar sobre o amor. Ou ela mudou ou ela acreditava naquele primeiro momento e depois desacreditou... Sei lá! Da minha parte, o brasil macunaíma é tudo o que eu não quero. Tentando dar uma resposta à violência do machismo, ela cai no vazio do feminismo. Um feminismo que eu não quero para nenhuma das minhas filhas. Que texto triste... Um livro sem amor.
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