Zona de Desconforto é a antologia de oito contos de Lindevania Martins, vencedora do I Concurso Nacional de Originais da Editora Benfazeja.
Em narrativas que variam entre primeira e terceira pessoa, os contos abordam diferentes situações e relações, nas quais a dinâmica entre o individual e o coletivo se expressa. Se cada personagem apresenta sua subjetividade, uma constituição própria que influencia suas atitudes e tomadas de decisões, essa constituição em grande parte é desenvolvida por fatores além de cada sujeito, seja pelo meio social no qual está inserido, seja através das relações que desenvolve com quem está ao seu redor sendo que essas pessoas também são afetadas pelos mesmos fatores.
Os temas são tão desconfortáveis quanto Zona de Desconforto indica, efeito esse somente possível por conta da sensibilidade e da habilidade de Lindevania Martins com as palavras. A autora é capaz de envolver o leitor em cada história, provocando a curiosidade pelo que irá acontecer, ao mesmo tempo que desperta inúmeros sentimentos ao revelar o que de mais íntimo há em cada personagem. E, a partir dessas emoções, as reflexões se originam. As camadas e nuances que formam as figuras em cada conto nos permite olhar para o outro em sua complexidade, visão essa que nubla as fronteiras maniqueístas de bem e mal, certo e errado. Há, também, o tom de denúncia pelas diversas desigualdades retratadas sobretudo sociais, de gênero e raciais , e a questão da perspectiva. Em vários contos, os personagens muitas vezes apresentam a própria interpretação dos acontecimentos que, quando contraposta, demonstram o fator subjetivo e parcial ali presente.
Um dos aspectos que mais me agradou em Zona de Desconforto é o fato dos contos retratarem situações cotidianas e deixarem uma forte impressão de que poderiam ser reais. Inclusive, iniciei a leitura do primeiro conto, cujo título nomeia a antologia, imaginando se tratar de uma introdução da autora. Apenas no passar das páginas me atentei que já havia iniciado a leitura da obra em si, mas, ali, senti sua atmosfera e o que estaria por vir.
O último conto é, talvez, o de tom mais leve, especialmente por seu ar bem-humorado, que deriva do rumo inesperado, beirando o absurdo, que os fatos tomam. Contudo, mesmo essa leveza é aparente.
Em linhas gerais, os contos de Zona de Desconforto podem ser lidos rapidamente, mas que, apesar da agilidade, não trazem leituras superficiais. Lindevania Martins tem uma escrita forte e impactante por ser tão sensível e capaz de representar com maestria as intimidades subjetivas e coletivas que nos formam.