Wilson Gorj nasceu em 1977, em Aparecida, SP (...) Tem microrrelato incluído na antologia “Contos de algibeira” (Casa Verde, 2007), publicou o livro-solo Sem contos longos (edição do autor, 2007) e mantém espaço no jornal aparecidense “O Lince”, onde coteja minificção.
Os microtextos de Wilson Gorj são cápsulas poderosas de prazer narrativo. São palatáveis, não pela indefectível desculpa de o miniconto ter curta-metragem, mas por serem inteligentes, em que o autor trabalha o inusitado, o humor, a ironia, a brevidade profunda que mergulha o leitor em busca do estranhamento (no sentido de Hans Jauss). Em Gorj realmente o menos é mais. Seus microrrelatos têm a contenção do átomo da linguagem. Por isso seu livro resultou em raridade. Suas 100 páginas são como degraus de um abismo para dentro. Em conjunto, a coletânea cria o que Walter Benjamin chamou de schock – o efeito da obra sobre o observador/leitor – a tendência a tornar a arte literária objeto de consumo comum em nível temático. A vida é o tema dos microrrelatos gorjianos. Estão lá os esquizos e suas neuras, conforme acepção cunhada por Deleuze/Guattari, as pessoas “normais” e suas decepções “normais.”
O blow-up de significâncias decorrente da brevidade minificcional de Gorj é um estouro de leituras prazerosas. Situações cotidianas, comuns, agregam valor às pulsões (trieb, em Freud) pondo à tona e atônitas conclusões da conditio fragmentária da existência humana e, não raro, subumana de personagens-bolhas, que existem na vida real para justificar, via de regra, o que não são, não serão, ou que foram impedidos de ser. Neuroses, delírios, frustrações, ousadias enrustidas, devaneios, o unheimlich freudiano – aquele ou aquilo que surge inesperadamente nas vivências ditas subjetivas ou pelos efeitos da vida sobre o sujeito enquanto leitor de si mesmo - a angústia da castração, o desafio da autocensura, a poeticidade gótico-pós moderna, a qualidade de sensação, o desvanecimento dos limites, a concepção do objeto erótico pela via de Chklosvi marcando uma singularização da linguagem, a latência do suicídio metropolitano, o levantamento de questões impráticas, conforme acepção na psicanálise – os sonhos, os mitos, os sintomas e o estudo das emoções, a fantasia e a religião – a lógica da senciência. Enfim: a busca de tudo em função de nada. Tudo presentifica-se nos minirrelatos de Wilson Gorj com intensidade exemplar.
Há ainda um foco de leitura que reflete o bestiário de Cortázar/Borges; um outro em que o autor faz metalinguagem e questiona sua própria escritura.
Pela taxonomia, Sem contos longos, cujo título já delimita mesmo a intenção métrica da linguagem microficcional do autor, tem por focos e referências os minirrelatos identificados por numeração, conforme incluídos no livro: humor (1,17,19) – “-Você nunca presta atenção ao que falo! – Ahn?”; intertextualidade lúdica (14,40,45) – “Entre ostras, peixes, lagostas e moluscos, o Polvo elegeu quem mais se parecia com ele. Votou em Lula.”; bestiário (2,14,15,53,75,79,83,94,96,99) – “Há muito tempo, existia uma fonte límpida que brotava no coração de uma mata onde os homens jamais tiveram acesso. Ali, em noites de muito calor e luar, Deus vinha matar a sede sob a forma das mais diversas criaturas. Ora era uma onça, ora uma lebre... Outras vezes acontecia de vir rastejando, irreconhecível em sua veste escameada de mistérios” ; releituras (32,43,51,78,84,90) – “A Cidade do Passado ardia em chamas...Avisadas a tempo pela Vida, salvaram-se a Velhice e a Juventude. A Vida ainda as alertou: Fujam e jamais olhem para trás! No meio do caminho, a Velhice se transformou em estátua de sal”; suicídio (4,18,21,47,88) – “Melhor o suicídio. Con-corda? Concordou. E enforcou-se”; relatos do cotidiano (16,18,19,30,33,37,40,41,49,64,66,70,72,76,77,81,82,87,92,97) – “A noiva fugiu com o pastor de sua igreja. Enfurecido, o noivo trocou a Bíblia por uma arma e jurou vingança. Haveria de encontrá-los. Nem que fosse no inferno!; defeito físico (8,25,46,71,95) – “No quiosque, à beira-mar, o mulato decepava cocos com golpes certeiros do seu facão afiado. Via-se que, para ele alcançar aquela precisão, teve primeiro de pagar muito caro... Na mão que segurava o coco gelado, faltavam-lhe dois dedos”; erotismo (9,10,12,55,69) – “Pela TV ele soube que um grande meteoro estava prestes a colidir com a Terra. Sem perda de tempo, correu para a casa da namorada. Depois do casamento, uma ova!”; morte (16,22,28,56,58,60,62,63,67,73,80,86) “Na mina onde trabalhava, encontrou uma esmeralda do tamanho de um ovo, a qual, sorrateira e imediatamente, tratou de esconder dentro de si, engolindo-a. Morreu entupido. Seu corpo foi encontrado atrás de uma moita”; morbidade (20,26,27,31,37,44) – “Cansado de tirar o filho da cadeia, o pai comprometeu-se, de uma vez por todas, em por aquele delinqüente na linha! O maquinista não viu o corpo amarrado nos trilhos”; ironia (11,12,13,29,33,35,44,48,49,50,54,61,78,80,91) – “Ao fim do almoço, descobriu no prato de comida uma perninha de barata. Sentiu um embrulho no estômago. Aquilo mastigado com o feijão, certamente, não tinha sido bacon”; religiosidade (34,36,38,59,65,75,90,100) – “Nunca assumia os próprios erros. Sempre transferia sua culpa para os outros. Por essa razão, convertido, adequou-se perfeitamente à fé evangélica. Agora, para tudo que faz de errado, Satanás é o culpado.”
Sem contos longos é um livreto ótimo para se aprofundar o estudo da alegoria, a partir do seu conceito grego agoureuo, outro, állos, falar em público - discurso sobre uma coisa para fazer compreender outra, que passa pela sátira, símbolo, fábula, apólogo, mito, parábola, prosopopéia, emblema, paradoxo, adinato, ironia, oscilando entre a polissemia e antífrase (Teskey, 1994, Lausberg, 1966-68). Microrrelatos há em que se pode sentir a potência da inversão como designativo de uma coisa pelas palavras e uma outra coisa, as vezes inteiramente oposta, pelo sentido. A microficção gorjiana oferece ricamente uma narrativa em que o sentido próprio da linguagem serve de comparação para tornar inteligível um outro sentido que não é expresso (Lausberg, 1966-68), linguagem que fala de uma coisa referindo-se a outra. Uma história que sugere uma estória, ou vice-versa, que emprega imagens, figuras, pessoas, animais, qualidades ou entidades abstratas que compõem o outro numa projeção imaginária mas quase sempre a partir do real mesmo. Por isso têm os microrrelatos tanto um conteúdo manifesto quanto um conteúdo latente, conforme os conceitos que Freud elaborou para interpretar o significado dos sonhos. Essa linguagem microficcional é poética, hermenêutica ou interpretativa, bíblica ou teológica, intencional, quando deliberadamente empregada como ilustração de um pensamento que se pretende infundir no leitor, ou involuntária, quando nasce da situação, sem que pareça ter o autor a premeditado. Essa narrativa torna-se tropo por meio da qual se diz uma coisa para fazer entender outra. Conforme Santo Agostinho, ela pode ser a allegoria in verbis (a das palavras), e a dos fatos (allegoria in factis), caracterizada por um simbolismo extralinguístico, que se situa num espaço para além do discurso (Strubel 1995). Ela é perfeita ou imperfeita, irônica, não-irônica, cujo nexo é particularmente opaco ou pode gerar o enigma do estranhamento. É figura de duplo sentido por meio da qual se apresenta um pensamento sob a imagem de um outro, destinado a torná-lo mais sensível e mais surpreendente do que se fosse apresentado diretamente e sem nenhuma espécie de véu. As situações narrativas de Gorj apresentam, então, o que T.S. Eliot chama de “correlativo objetivo” – emoção experimentada numa outra intelectualmente fingida, interpretação objetivada de uma impressão subjetiva.
As microficções do livro prestam-se também para se observar a força expressiva da analogia enquanto relação de equivalência entre duas relações estruturantes da narrativa através da correlação, da especulação, da criação de expectativas, do reconhecimento das ligações e das contradições que passam pela alteridade e pela apropriação de uma diferença. E da homologia enquanto conhecimento ou experiência levada à compreensão de outros campos ou de processos novos. Todas as figuras, de linguagem ou de pensamento, constituem no livro um telos ou um fim para o próprio microrrelato. Ludicidade da linguagem, experimentação lingüística, humor bem urdido, fina ironia, consciência crítica de sua intertextualidade – marcam a estréia do microcontista Wilson Gorj.
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Márcio Almeida é mestre em Literatura, professor universitário, jornalista, autor e crítico de raridades. E-mail: marcioalmeidas@hotmail.com