Benito Cereno (A Arte da Novela) -

    Herman Melville

    Grua
    2018
    152 páginas
    5h 4m
    ISBN-13: 9788561578732
    Português Brasileiro

    No ano de 1799, o capitão americano Amasa Delano está com seu navio caça-focas ancorado na Ilha de Santa Maria, na costa sul do Chile. Certa manhã, aponta no horizonte tomado pela neblina um navio que aparenta estar em dificuldades. Amasa Delano oferece-se para ajudar e vai a bordo da nau à deriva, que descobre ser uma embarcação espanhola que levava um grande número de negros escravizados da África ao Peru. Seu capitão, Benito Cereno, que está debilitado e é sempre amparado por seu escravo Babbo, descreve as tempestades e longos períodos de calmaria que se sucederam, as doenças e falta de provisões que haviam dizimado parte da tripulação e passageiros. A sucessão de impressões inexatas que o ambiente do navio depauperado cheio de escravos provoca, assim como as variações de humor de Benito Cereno, deixam Amasa Delano intrigado. A cada momento, entre desconforto e tensão, cresce sua sensação de estranheza. Na atmosfera sombria construída com esmero por Melville, ora o capitão americano se sente ameaçado, ora se sente culpado por desconfiar de seu bom e combalido anfitrião e de tudo que o cerca. Publicado pela primeira vez em 1855, a novela é uma reconstrução ficcional do episódio que de fato ocorreu em 1805, e que foi descrito nas memórias do capitão americano Amasa Delano, publicadas em 1817.

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    Carla Silva05/07/2015Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Ambiguidade que Gera Tensão

    Publicado em 1856, Benito Cereno conta como dois navios se encontraram no mar: um navio americano e um espanhol. O americano é um navio mercante, um caça focas, que percebe algo de estranho no navio espanhol. -- e a explicação para estranheza será o tema subjacente a toda narrativa: descobrir a verdade. Porque a verdade se mostra cambiante, incompleta, ou incorreta a todo momento. A narrativa de Melville se vale primordialmente do ponto de vista do capitão americano a bordo do navio espanhol: embora não seja narrado em 1ª pessoa, é no ponto de vista desse personagem, o capitão Delano Amasa - homem amável, compassivo, e, mesmo, inocente - aquela inocência "americana" que mais tarde o escritor Henry James irá fazer objeto de muitas de suas novelas - que Melville se detém para construir a narrativa e dar seu sabor particular. O leitor vê através do olhar do capitão todo o cenário, as personagens, suas falas, suas atitudes - e, enquanto Delano confia, desculpa, desconfia, outra vez desculpa e repreende a si mesmo pelas desconfianças que por vezes lhe surgem ante pequenos fatos insólitos, incompreensíveis e até vagamente ameaçadores - o leitor vai aos poucos se desvencilhando do ponto de vista do americano e buscando "ver" - ver malgrado através desse olhar amável do capitão - o que Realmente está acontecendo; o que é, afinal, que está em jogo aqui? A narrativa estabelece um clima de suspense valendo-se daquilo que Delano "vê" mas interpreta erroneamente, gerando medo e ansiedade no leitor. É como se víssemos mais do que aquilo que o capitão vê: a escrita de Melville é de mestre, provocando nosso desconforto enquanto a tensão cresce a níveis quase insuportáveis.

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