Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade
Quando você mora em um bairro periférico é indispensável não querer saber como a lei funciona naquele local. Perus, Zona Noroeste de São Paulo, 87.280 habitantes, bairro com um alto índice de pobreza, com problemas de infraestrutura e oportunidades de trabalho. Bairro dirigido pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). Quando dei inicio pelos estudo sobre facções, comecei por teses de doutorados. Deste modo, encontrei a antropóloga Karina Biondi, que escreveu seu livro "Proibido roubar na quebrada", a partir da tese do seu doutorado. O livro aborda o PCC, pesquisa de campo. Lei, movimentos, salves, hierarquia, sintonia, ritmos... A escritora convive dentro da quebrada, ela aborda bandido, ladrão, traficante e moradores. Ela convive e descreve a situação. Quando você vê algo que não faz parte da sua vivencia, não faz parte da sua realidade, você não julga. Você estuda para entender. Quando você se depara com uma situação onde uma moradora da favela prefere acionar o comando ao invés da policia, você tem que entender o que a motivou para tal. No Brasil, a pena base para o crime de estupro é de reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. No PCC, se você estupra, você morre. Pedofilia, estupro de vulnerável, 10 a 18 anos de prisão. Para o PCC, se você for pedófilo, você morre. Quando você cresce vendo seu pai sendo morto pela policia e o crime dando uma cesta básica para sua mãe, quem vira sua inspiração? Quando sua comunidade se sente mais segura sendo comandada por uma facção do que pela lei, tem como não viver revoltado com o Estado? Por um lado temos uma facção que adota o lema "Paz, Justiça, Liberdade e Igualdade", por outro temos o crime atual em sua forma mais pura: ele coloca arma na mão de criança e mata inocente. Da mesma forma que a policia corrupta. Tudo é financiado por algo maior. Se a facção hoje existe, é porque da dinheiro, ela é financiada por politico, financiada por empresário. Da mesma forma que um policial não quer trocar tiro com uma criança, o pobre dentro da favela quer alguma dignidade que o Estado não é capaz de cumprir. Leitura obrigatória para compreender o crime atual. Não é um livro que vai retratar a história do Comando, ele mostra como é dirigido atualmente, como funciona a lei da facção perante os moradores, vitimas, bandido e em diversas quebradas. "De fato, muitos moradores me contaram histórias de sangue, opressão e humilhação ocorridas no passado. Hoje, afirmam, ainda vivem ocasiões nas quais a tranquilidade é abalada, mas ponderam que, ainda assim, a situação atual é melhor: ‘Antigamente, todo dia tinha um cadáver na porta da minha casa. Hoje isso não acontece mais’."
