"A FORMA DA ÁGUA', do italiano Andrea Camilleri, correspondeu ao meu extenuado coração de leitor apaixonado por ficção policial. Antes, uma rápida nota sobre o autor: Andrea Camilleri aposentou-se como dramaturgo e roteirista de TV para escrever romances policiais. Graças a Deus.
Neste "A Forma da Água", a cada parágrafo, Camilleri desmente quem concebe a ficção policial como uma porção de clichês alinhavados um atrás do outro só para garantir suspense ou o esclarecimento de um mistério.
Para dar uma ideia mais clara do quanto ele supera as certezas do gênero, não há crime algum a esclarecer ao longo desse romance curto, de leitura rápida e fluida. Quando o assassinato acontece, já no finalzinho, o comissário Montalbano já sabe quem o cometeu, com qual arma e até mesmo o motivo.
A história começa quando o corpo de um construtor e engenheiro poderoso, dono de deputados e senadores democrata-cristãos, aparece numa espécie de prostíbulo a céu aberto dentro do seu carro de luxo com as calçar arriadas. O sujeito morreu de ataque cardíaco, nenhuma dúvida quanto a isso. Mesmo assim, Montalbano sente o cheiro de podre e decide que precisa compreender o que aconteceu.
Não faltam humor e sarcasmo na trama de Camilleri. O protagonista é cheio de defeitos e contraditório como qualquer humano, não apenas um cavaleiro do bem lutando contra o mal.
A literatura policial, neste caso, serviu como um instrumento para desvendar a complexidade da Sicília, não apenas os crimes cometidos pela máfia. Também não há a pretensão de enveredar por reflexões filosóficas sobre as sombras da alma ou os extremos da humanidade. Nada disso. É na simplicidade que a prosa desse italiano é universal.
Para quem vive no Brasil, aliás, parece ser mais do que universal. Soa quase como o texto de um vizinho com quem temos razoável intimidade. É fácil para os leitores latino-americanos de Camilleri identificarem-se com a Sicília de empreiteiros corruptos que acumulam poder e dinheiro por meio de ótimos contratos de obras públicas, dos políticos conservadores atolados até o pescoço no crime posando de defensores da moral e família, da banalidade das mortes violentas.
Os demais europeus podem espantar-se ao conhecer a Sicília por meio das aventuras de Montalbano. Os brasileiros, não. Para nós, o mais difícil é aceitar a verossimilhança de um político honesto, culto e competente.
A edição da excelente coleção negra da Record tem mais de uma década. Pelo que observei na edição de "O cão de terracota" (outro título do autor) a editora bateu cabeça: a tradução não encontrou uma maneira de resolver como manter o tempero dado pelo uso do dialeto siciliano por alguns personagens.
No primeiro livro que li do Camilleri (O Cão de Terracota), o tradutor optou por usar os regionalismos dos caipiras brasileiros no lugar da fala do povo da ilha.
Em "A forma da água", o dialeto foi substituído por algo que, em português, aparenta ser neologismo. Vou dar um exemplo: “também” virou “tomém”. Esquisito. Em italiano, “também” é “anche”. Nem imagino como seja na Sicília.