O ano de 2024 foi um claro dividor de águas para mim: o meu filho nasceu, fui convocado em um concurso público e passei a dar atenção para HQs. As duas primeiras informações são importantes para este texto, pois, em meio a tanta correria com as novidades que apareceram, as HQs me apareceram como uma clara solução para um novo questionamento: "Como conciliarei tudo isto com os meus livros?" Sou um leitor literário desde a minha adolescência, algo que não pode ser posto com a mesma convicção sobre a minha relação com os quadrinhos; para este campo, sempre fui um leitor casual. Contudo, sou, antes de tudo, um leitor; refletir sobre isto foi o que me abriu os olhos para uma apreciação estética compromissada com a linguagem dos quadrinhos - linguagem esta que, apesar de toda a complexidade que lhe pertence, soou mais flexível que a literária (atenção: não defendo aqui o conceito de hierarquia no campo das artes; cada arte possui a sua própria linguagem, e só). Pois bem, a mudança em minha mente me trouxe a oportunidade de conhecer novas obras e novos personagens; entre as descobertas, veio Júlia Kendall.
Este é o numero 136 da série Aventuras de Uma Criminóloga (publicada pela Mythos Editora). Sobre o aspecto físico do material: bastante frágil, com uma capa molenga ao extremo, e o papel interno é o clássico papel-jornal; porém, vale mencionar que a série costuma apresentar duas histórias por volume e cada exemplar pode ser adquirido com pouco dinheiro, o que equilibra as coisas.
A primeira história se chama A Guerra de Peter e tem uma variedade de tons interessante - abordagens sobre cenários distintos e participações de diversos personagens que de fato contribuem para o andamento da trama. Aqui, o real protagonista é um personagem chamado Peter Thee. Temos uma trama carregada de suspense e ação que traz questões sobre honra, dever e patriotismo (e sobre como um sujeito envolvido com tais tópicos pode ser traído pelos seus próprios ideais). Além do ótimo texto verbal do Giancarlo Berardi e do Lorenzo Calza, Valerio Piccioni traz desenhos excelentes - com uma arte em p&b que somente os italianos sabem fazer.
A segunda história se chama Aposta no Escuro e, diferentemente da primeira, traz Júlia mais ao foco. A trama em questão (escrita pelo Berardi e pelo Maurizio Mantero) tem uma pegada mais voltada ao noir, um tom diferente do que fora apresentado na primeira trama. Não gostei muito da caracterização da Júlia em certos quadros, mas, no geral, os desenhos seguem o alto padrão da série... Devo destacar a representação visual das partidas de pôquer que acontecem perto do desfecho da narrativa; fascinante de ver o domínio intelectual da protagonista (tão franzina) sobre os demais jogadores da mesa.
O que há de mais interessante no universo de Júlia Kendall são as relações entre os personagens que o compõem, algo que vai muito além das resoluções dos mistérios postos. Fascinante!