Entre Mandingas e a sobrevivência: a biografia do Miguel Pestana.
Bora dissecar essa obra fenomenal: O primeiro ponto que me chamou atenção foi justamente o título do livro. Ao me deparar com a expressão "índio mandingueiro", quase ignorei o termo "mandingueiro", assumindo-o como um simples sinônimo de feiticeiro, bruxo ou praticante de alguma magia popular. Porém, sendo sociólogo e já familiarizado com a existência da etnia Mandinga, originária do Mali, fiquei intrigado pela possibilidade dessa conexão. Ao avançar na leitura, percebi que minha intuição estava correta: o autor esclarece cuidadosamente o sentido histórico e cultural do termo "mandinga", relacionando-o aos habitantes do antigo império do Mali (os malinkê ou mandingas). Confirmado então que a palavra "mandinga" não é apenas uma referência genérica à feitiçaria popular, mas remete diretamente às práticas mágico-religiosas dessa etnia africana específica. Corrêa explica detalhadamente como os mandingas tiveram contato com o islamismo a partir do século XIII, por meio da expansão árabe sobre a África negra. No entanto, essa aproximação religiosa não eliminou as crenças animistas locais; ao contrário, gerou uma fusão cultural entre elementos islâmicos e tradições africanas anteriores. Dessa fusão surgiram práticas como o uso das famosas bolsas de mandinga amuletos que tinham funções protetoras e mágicas. Essa foi uma das coisas que chamou atenção da Inquisição Portuguesa no Brasil colonial. Nesse contexto histórico tão peculiar surge Miguel Pestana, personagem central da obra. Nascido no Espírito Santo e vivendo entre sua terra natal e o Rio de Janeiro, Pestana aprendeu as práticas mandingueiras justamente no Rio. O autor realiza uma biografia minuciosa desse personagem curioso, apresentando-o como alguém astuto e pragmático, disposto a fazer qualquer coisa para garantir sua sobrevivência e melhorar sua condição social. Pestana chegou inclusive a atuar como capitão do mato uma função controversa e violenta demonstrando claramente que seu objetivo era sobreviver e prosperar independentemente das implicações éticas ou morais envolvidas. Em determinado momento da narrativa, Miguel Pestana rouba uma bolsa de mandinga enquanto exercia seu ofício como capitão do mato. A partir desse episódio aparentemente simples, sua trajetória ganha novas camadas: ele passa não apenas a utilizar essas práticas mágicas para benefício próprio, mas também começa a ensiná-las aos negros escravizados. A esposa de Pestana confirma explicitamente essa atuação dele como professor das práticas mandingueiras aos negros locais, ressaltando inclusive como isso lhe conferia certo protagonismo social diante daqueles que estavam em posição inferior à sua. Esse protagonismo acabou por chamar atenção das autoridades inquisitoriais portuguesas, levando Miguel Pestana à prisão sob acusação de feitiçaria. Curiosamente, por não ser considerado um caso prioritário pela Inquisição que tinha outros alvos mais relevantes ele permaneceu preso por longo tempo aguardando julgamento. Mesmo encarcerado, Pestana continuou produzindo pós mágicos e vendendo-os dentro da prisão para outros detentos. Esse detalhe revela muito sobre sua personalidade resiliente e adaptável: mesmo em condições adversas ele buscava meios para sobreviver e exercer influência. Um ponto menos empolgante do livro é seu primeiro capítulo, dedicado principalmente à descrição geográfica detalhada da região e à discussão sobre a aldeia de Reritiba (atual Anchieta-ES). Embora seja importante para contextualizar historicamente os acontecimentos posteriores, essa parte inicial pode parecer um tanto árida para alguns leitores menos interessados em descrições geográficas extensas. Por outro lado, após esse início mais lento, o livro ganha ritmo acelerado e envolvente conforme avança na vida atribulada de Miguel Pestana. O autor consegue habilmente entrelaçar elementos históricos rigorosos com uma narrativa fluída sobre as práticas espirituais coloniais brasileiras dos séculos XVIII e XIX. Além disso, Corrêa demonstra claramente como nunca existiu um catolicismo puro no Brasil colonial ao contrário disso havia uma complexa mistura entre crenças indígenas, africanas e europeias convivendo simultaneamente no cotidiano colonial brasileiro. A obra também deixa claro algo fundamental: aquilo que chamamos frequentemente de catolicismo puro ou ortodoxo sempre foi mais uma idealização imaginária do que realidade histórica concreta. Como bem apontado pelo autor citando Bethencourt e Delumeau através das palavras de Laura de Mello e Souza: o cristianismo popular europeu era permeado por crenças pagãs diversas; havia pouco entendimento real dos dogmas religiosos oficiais por parte do povo comum; elementos mágicos estavam profundamente enraizados nas práticas cotidianas populares europeias desde muito antes da chegada ao Brasil colonial. Por fim e sem revelar mais detalhes específicos sobre os desdobramentos finais da história para não estragar futuras leituras recomendo este livro para quem deseja compreender melhor as dinâmicas culturais complexas do período colonial brasileiro através da trajetória singular desse personagem histórico fascinante e controverso chamado Miguel Pestana. Em resumo: trata-se realmente de um estudo excepcionalmente bem feito; profundo sem ser maçante; rigoroso sem perder fluidez narrativa; esclarecedor quanto às origens históricas reais das práticas espirituais brasileiras hoje tão difundidas popularmente sob nomes diversos como "mandinga". Sem dúvida alguma merece ser lido atentamente por todos interessados nesse tema tão rico quanto instigante e é um livro que vale e muito ter na estante!
