História romanceada de uma assistente social que, na sua ação cotidiana, se defronta com uma população paupérrima, sofredora, batendo às portas das instituições de serviço em busca de soluções para minimizar seu sofrimento. "O livro de Núbia N. Marques tem esse enfoque muito peculiar, que o distingue dos outros livros escritos sobre a repressão. Trata-se de uma história escrita através da sensibilidade feminina. Nem por isso, menos forte. O estilo é enxuto, quase seco. As frases curtas, martelantes." (Heloneida Studart).
O passo de Estefânia -
Núbia Marques
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Ver maisQue diferença faz: ser livre ou chorar?
Sendo eu uma aracajuana convicta e orgulhosa, me martelava por muito tempo o porquê de não ter começado a ler literatura sergipana. Foi quando ganhei essa coleção da Núbia Marques, que conta com O passo de Estefânia, O sonho e a Sina, e O berço de angústias. O livro trata de uma narrativa em primeira pessoa de uma assistente social chamada Estefânia, frustrada e indignada com a objetificação do homem presenciada diariamente em sua profissão. Estefânia é uma mulher intelectual, de tom melancólico, que tenta lutar contra a burocracia e o status quo da repartição de assistência social em que trabalha. Em plena época de ditadura militar, ela convive com a vontade de uma utopia importuna de "salvar a todos". A narrativa é marcada, portanto, por este vazio existencial da personagem entre o querer fazer e o ser incapaz de fazer. Este vazio me provocou uma sensação de peso/impotência, associada à conotação figurada de uma areia movediça da qual é difícil escapar. "Degrau a degrau que vim subindo não me dá a sensação do êxito, mas a completa consciência da desgraça. Não a que está em todos que se alimentam de migalhas, mas na dos que entendem a inutilidade do seu gesto e de sua busca." A profissão de assistência social, que no Brasil ganhou enfoque no século XX, lida diretamente com seguridade social e auxílio às parcelas mais carentes da população. Talvez exatamente por isso é extremamente desprestigiada e vista com olhos preconceituosos, conforme a própria mãe de Estefânia ataca: "Tanta profissão, médico, dentista, engenheiro, mas logo assistente social? Profissão que vive às voltas com os delinquentes e as putas. [...] Minha filha, você está estragando sua inteligência. Vá ser advogada, médica." A sensibilidade poética da autora permeia cada poro da narrativa. Essa passagem me deixou encantada: "O jardineiro do grupo morre de amores pelo jardim, é a sua forma de beleza, múltiplo descompasso entre a fome e a flor. Ele tem um orgulho de suas margaridas finas, brancas, oscilantes. É a sua forma de heroísmo cotidiano. Heroísmo sem condecorações nem ofícios de louvor." Todas as questões sociais têm enfoque crítico no livro (miséria, saúde, aprendizagem precária, subnutrição etc.), e a questão da terra/habitação leva Estefânia a ser presa pelo regime militar. Longe de ser uma radical ativista (porém extremamente sensível à causa), Estefânia incentiva um certo grupo de pessoas a protestar pelos seus direitos de habitação. É, então, levada para tortura da ditadura militar. A dimensão do feminino abordada em todo o livro ganha, neste momento, um enfoque total. Estefânia é torturada pelos modos mais violentos que uma mulher pode ser. Sua angústia mistura-se a um flashback de memórias de todo o sofrimento que presenciou em sua profissão. Os gritos se abafam, uma dormência a acomete, a liberdade dos pássaros a incomoda. Sua abordagem existencial e sua crítica social tornam o livro pesado. É uma narrativa seca, apesar de poética. Em alguns momentos, isso me tirou da minha zona de conforto enquanto leitora. Entretanto, acho que é esse o propósito da leitura: causar um rebuliço nos nossos mundos e pontos de vista, transformando-os constantemente. Recomendo bastante para quem se interessar por romances que ilustram a época da ditadura e para quem quer conhecer literatura sergipana! "Vamos ensinar a população a conviver com a fome. Um passo de atleta, um voo de bruxa, um remendo no ar. O equilíbrio do trapezista. O passo do samba, a cachaça boa pinga, o rebolado da mulata, o sindicato desarmado, a mentira robustecida, a velocidade da lua, a besteira do cotidiano, a arrebanho de mil almas pastorando os fantasmas reinadores."
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