Berço de angústia -

    Núbia Marques

    EDISE
    2016
    156 páginas
    5h 12m
    ISBN-13: 9788569372028
    Português Brasileiro

    "Núbia Marques foi cruel com as personagens, e, de tabela, com os próprios leitores, e, por que não dizer, consigo mesma, num verdadeiro sadomasoquismo romanesco, tendo como fulcro da fabulação os conflitos existenciais de homens e mulheres, no seu fatalismo coexistencial, manietados à angústia desde o berço, daí o título revelador do romance." (Jackson da Silva Lima)

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    Mariana Henriques26/06/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    as prisões das mulheres nordestinas têm um ar de usurpada liberdade

    "os códigos sempre são feitos pelos que estão nas plataformas. O código de menores foi feito por adulto. O direito das mulheres feito pelos homens, há os que mantêm a lei em nome dos desmandos. Nada tem ordenação. Tudo calculado em gabinetes e depois jogado para as duras batalhas da vida." Berço de Angústia é sobre a relação de um casal do século XX, protagonizado por Cíntia e Rogério. Cíntia e Rogério dividem a narração do livro em 1ª pessoa, e contam episódios espaçados desde a infância até o presente, marcado por um casamento solitário e (na minha opinião) frustrado. É um livro sobre a subalternidade da mulher ao casamento, ao marido, ao ambiente doméstico. Sobre o casamento, Cíntia reflete: "A gente luta tanto para o encontro total, mas chegamos um para os outros tão amputados, tão podados que depois se resolve que é assim mesmo e nos tornamos árvores de jardins públicos, aparadas, sonolentas e tristes." Os capítulos são caóticos, as frases são curtas e o sentimento que o livro me passou foi de angústia. Ambos os protagonistas são sufocados pelas convenções de seu tempo, os dois parecem aprisionados em sua própria vida. Especialmente sufocados pelo machismo e pela solidão. O livro aborda quase um clichê de casal do século XX: marido machão, homem de negócios, inescrupuloso, esposa solitária, trancafiada em casa, sentindo-se sempre insuficiente. "Tenho vontade de sair sentindo a brisa que entra pelas frestas das portas. Mas só as mulheres vadias se identificam com a noite. Todas as outras dormem entre paredes, enjauladas, enfadonhas, sinistras e frias." Cíntia sofre com divagações sobre virgindade, submissão ao marido, a ideia do sexo pro homem ser diferente do sexo pra mulher, entre outras. Sente-se totalmente reprimida pela condição de mulher do século em que vive e, principalmente, pela solidão. "Ensinam-se milhões de inutilidades: como se deve levar as luvas, a bolsa deve sempre estar à esquerda a fim de a mão direita ficar livre para os tradicionais e hipócritas cumprimentos. Falar com quem não se gosta, dar adeuses inúteis, mas que fazer quando a tristeza de estar só se pendura em nosso coração e sentimos chumbos invisíveis acorrentando o peito!" A questão social também é bem presente no livro. A relação da senhora branca com a empregada doméstica, por vezes, parece inclusive contraditória. Se por um lado Cíntia ajuda a trabalhadora adiantando salários e oferecendo sacos de comida, por outro a vê como preguiçosa e se irrita com ela. Cíntia sofre com a questão social, mas é ela própria reprodutora e influenciada por ela. "D. Chiquinha chegou a falar de deputados, senadores burgueses, no massacre dos pobres, nas borralheiras que estavam aos pés dos fogões enquanto os homens faziam a história." Enfim, muito interessante ver também como esse livro se conecta com "O Passo de Estefânia", outro romance de Núbia, e como os mesmos elementos estão presentes. A prosa poética, a angústia de sua condição de mulher, a questão social. "Todo adulto tem fórmulas para suas teses. Não conheço adulto desavisado, despretensioso. Todos estão resolvendo intencionalmente um problema. São calculistas. Há sombras pequenas e profundas e o pânico os faz preconcebidos, assustados." Bonito! Feliz de conhecer mais dessa escritora aracajuana. "As prisões das mulheres nordestinas têm um ar de usurpada liberdade, com requintes de doce tranquilidade. Lar, doce lar."

    1 curtida

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