Em 1939, um ano antes da morte precoce de Nathanael West e sua esposa num acidente automobilístico, foi lançado “O Dia Do Gafanhoto”, romance considerado sua obra-prima. Na época da tragédia, ele contava com 37 anos e era um autor de relativo sucesso, todavia o reconhecimento de sua importância no panorama literário foi póstumo, a partir da década de 50, e ele está inserido num grupo de escritores cuja temática está voltada para construção e desconstrução do sonho americano.
Para West, esse sonho foi somente uma maneira dos poderosos controlarem as massas — e tendo como cenário os estúdios de Hollywood e as ruas de Los Angeles durante a Grande Depressão, a derrubada desse paradigma expõe uma legião de marginalizados atrás de fama e dinheiro, mas que encontra apenas decepção, crueldade e morte.
Por sinal, o livro possui várias passagens violentas, contrariando a ideia de uma natureza idílica e fértil costumeiramente associada ao estado da Califórnia até há poucas décadas, pois atualmente seu bioma, semelhante ao clima mediterrâneo, vem sendo assolado por grandes queimadas nos verões quentes e secos. Entre essas descrições, há uma briga de galos, fantasias sexuais e o quadro, “O Incêndio de Los Angeles”, que Tod Hackett está prestes a começar. Ele é o protagonista do romance, um artista recém-contratado por um estúdio cinematográfico para pintar e decorar cenários de filmes.
Um protagonismo que ao lado de outras personagens forma uma interessante galeria que escancara um país orgulhoso, mas em certas circunstancias pouco complacente, ou até, como James F. Light sugere: “O uso da violência no romance pode ser compreendido como uma expressão de ansiedade sobre a ascensão do fascismo na Europa.”
Por sinal, desta galeria também despontam Faye Greener, uma candidata — bonita e sem talento — ao estrelato, Homer Simpson, um ex-contador que vem para a Califórnia para tratar da saúde, além de tipos bizarros, como Adore Loomis, um precoce ator mirim, Abe Kusich, um anão vigarista, e Earle Shoop, um obtuso vaqueiro. Enfim, girando em torno dos filmes B da época, tais personagens se mostram propositadamente rasas, ridículas e dignas de escárnio.
Quanto ao título do romance, estranho à primeira vista, a referência está no Livro do Êxodo da Bíblia. Nele, Deus envia uma praga de gafanhotos para o faraó do Egito em castigo por ele ter recusado libertar os judeus escravizados. O resultado é catastrófico, os insetos invadem os campos e destroem as plantações, trazendo a fome e o caos.
Sinteticamente, “O Dia do Gafanhoto” é uma obra aberta, ou seja, passível de sugerir interpretações bastante distintas, e seu ponto alto é o desfecho apoteótico. Ele igualmente é o destaque do filme homônimo, lançado em 1975. Dirigido por John Schlesinger e estrelado por Donald Sutherland e Karen Black, a adaptação não é brilhante, o mais correto seria mediana, contudo quem leu o livro poderá se interessar em conhecer ou revê-la.🔥