Elena Ferrante escreveu que “os indivíduos e as cidades sem amor são um perigo para si mesmos e para os outros. Sobre as linhas extintas é um livro em movimento que traça muitas linhas para além dos itinerários nunca fixos do coração: lacunas, desvios, interrupções, desencontros, cruzamentos. Nestes poemas, somos conduzidos por uma massa de percepções (visuais, sonoras, verbais, afetivas) que nos atravessa enquanto lemos este livro atravessado pela experiência do amor e da cidade. Gilles Deleuze e Felix Guattari usaram o conceito de rizoma — um sistema acentrado que muda de natureza a cada nova conexão — para evidenciar que o livro é uma estrutura de interpretações e leituras infinitas, em constante movimento. Sobre as linhas extintas é um livro em movimento que traça muitas linhas para além dos itinerários confusos e nunca fixos da frota de ônibus da cidade do Rio de Janeiro. Na leitura que faço desse romance breve, um poema-narrativo feito de várias peças de encaixe, observo como Taís Bravo captura os resíduos da experiência amorosa tendo como paisagem uma cidade sempre em fuga, em mutação. Os poemas de Taís disparam em mim uma afinidade imediata, uma espécie de espelhamento das coisas que vivi quando tinha 20 anos. Gosto, sobretudo, do jeito como experiência, percepção e desejo se articulam em torno de objetos saturados/densos, mas ao mesmo tempo simples em sua enunciação. Ao ler esses poemas, tenho a impressão de que escrever e pensar, escrever e falar, escrever e sentir são operações simultâneas. Mas como também escrevo poemas, sei que essa sensação é apenas um efeito de simultaneidade: viver, sentir, pensar e escrever quase em tempo real é possível? E é justamente esse efeito construído conscientemente que revela a singularidade e a potência desse livro: sua energia, sua força, seu sopro, aquilo que chega até mim enquanto leitora — rápido/passageiro/uma brisa — e me emociona, me comove, me desloca no tempo e no espaço porque todo leitor é “também um sistema acentrado que muda de natureza a cada nova conexão”, a cada poema-verso-página. Ao longo do livro, Taís constrói as pistas do próprio método, revela com delicadeza, ironia e sutileza a artesania que compõe seus versos, seu campo de interesse: o amor sempre em fuga, como as linhas de ônibus, como essa cidade monumento-catástrofe, como nós mesmas escavando com as mãos o deserto que nos habita. Flávia Péret
Sobre as linhas extintas -
Taís Bravo
Urutau
2018
58 páginas
1h 56m
ISBN-13: 9788571050143
Português Brasileiro
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