O livro de estreia de Renan Caíque me impressionou desde o início de minha leitura. Nesta obra, o autor deleita os leitores com sonetos que referenciam ao período literário da Segunda Geração Romântica, o Mal do Século - tal qual sugere o título, remetendo ao contexto iniciado no século XIX na Europa, sendo marcada pela melancolia, morbidez e pessimismo poético. No entanto, a autenticidade deste livro está no fato de resgatar tal período clássico da literatura, trazendo-a ao presente com toques modernos. É visível sobretudo a influência de autores como Álvares de Azevedo, Byron e Poe - sua poética, em sua maioria, aborda poemas de atmosfera grave e pessimista, mas sem abandonar o lado idealista e sonhador - temas influenciados pelo período marcam presença, conferindo aos poemas ainda mais identidade. A maior parte do conteúdo poético é composto por sonetos, mas há ainda poemas - tais como Suspiros de Melancolia, Lago de Lágrimas, Os teus Olhos. dentre outros - que fogem da formatação dos sonetos clássicos e possuem um número maior de versos.
A obra também é marcada por uma serie de epígrafes que introduzem o leitor aos sonetos, aludindo a grandes escritores como Augusto dos anjos, Alexandre dumas, Shakespeare, Fernando Pessoa, Safo, Charlotte Brontë, Percy Shelley e uma infinidade de outros, mostrando também que é rica em referências e inspirações diversas. E além da poética, Renan insere em sua obra prosas e textos: alguns expressam seu viés filosófico acerca de assuntos diversos, tais como Um Ensaio sobre a Solidão, que encerra a obra com maestria, e outros que dão uma amostra de seu talento narrativo - como em A Morte de Um Poeta, um pequeno conto que narra a solidão e angústias de um escritor atormentado, ambientado na longínqua Inglaterra do século XIX, e o conto O Libriano e a Aquariana, que trata sobre o encontro de almas que se perderam através dos séculos e enfim se encontraram novamente.
O Mal do Século, em suma, é uma obra que revisita o misterioso e impressionante período literário a que se refere o título. Um grande livro, bem como uma verdadeira homenagem à literatura, à arte de versar e aos sentimentos humanos. Parafraseando o autor, "o mundo tem pessoas sérias demais" - precisa-se que demos mais valor ao amor e a nossos sentimentos; e que forma melhor decifrar o âmago humano do que por meio da poesia?