Zanga -

    Davi Nunes

    Segundo Selo
    2018
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9788594489036
    Português Brasileiro

    Segundo o site Aldeia Nagô: Zanga, palavra diretamente ligada à herança das línguas africanas no Brasil, dá o tom do centro nevrálgico do primeiro livro de contos de Davi Nunes. A palavra zanga, tem obviamente seus sentidos correntes hibridizados entre uma etimologia afrocentrada e seus novos diversos sentidos adquiridos na viagem diasporica das línguas de África pelo mundo. É também esse jogo, operado por outro caminho, que nos apresenta os contos do livro Zanga: a questão da vida do negro no Brasil, pensando como a condição do negro na sociedade brasileira está nesse xadrez entre o de fora e o de dentro, ou um antes e um depois. Mas não esperem uma discussão racial que compreende a raça como seu limite absoluto, muitos são os trânsitos e direções que os contos abordam, gênero, religiosidade, genocídio da população negra. É no ziguezague entre um tema e outro, que Zanga costura a tensão racial brasileira como centro enunciativo de suas narrativas. Com escrita leve, criativa e incisiva, um arsenal vasto de personagens, e um diálogo discreto mais certeiro com contistas como Lima Barreto e Machado de Assis, o livro se caracteriza como uma das bem-acabadas obras dessa contemporaneidade literária múltipla e tensiva, que caracterizam boa parte da literatura brasileira atual.

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    Lais Porto (@umaleitoranegra)30/11/2018Resenhou um livro
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    Zanga

    Zanga é um livro de contos que vai misturando a ordem do tempo, nos levando ora pro passado e trazendo bruscamente pro presente, não conseguimos ficar na linearidade do tempo, seja por meio de um sonho que Ife vê Toni Morrison, ou seja por Bucala contando sua história, pois foi chamada – invocada para tal proposito. A ordem dos contos também não permite que fiquemos quietos, em um determinado momento você está lendo sobre um garoto que fica tão pensativo sobre seu primeiro beijo, a garota e um possível futuro juntos mesmo sendo de 'mundos' diferentes, porém este futuro não chega, pios é interrompido por um policial, em outro momento você sofre junto com Laila e Joaquim pelas vidas tiradas na chacina do Cabula que não serão jamais esquecidas, em seguida você já sente toda a angustia da mãe que perdeu seu filho também pela força policial, é como se o autor quisesse nos mostrar a mesma cena por diversos ângulos, e sim ele consegue. O que se vê também é que apesar dos tempos diferentes, das visões proporcionadas pelos variados personagens, algo permanece constante durante todo o livro, a ancestralidade, uma ancestralidade que marca um território, o Cabula, percorremos o Pelourinho, Santo Amaro, mas o Cabula não desprende em nenhum momento da mente, talvez porque tantas vezes foi repetido, como no conto Bucala no qual seu pai se chama Calabu e sua mãe Lacabu, e também por ter sido trazido em outros contos. Outro elemento que nos é mostrado de maneiras diferentes é a Escuridão, seja por um apagão, seja pela perda da visão, seja pela escuridão eterna que existe debaixo da terra após ser enterrado, por não conseguir dormir, por não ter perspectiva de futuro, por ter cometido suicídio ou por estar atormentado com acontecimentos dos passado que perturbam os de hoje que descendem de um grupo opressor. Óbvio que tudo está muito carregado de simbolismo, o que tá por trás do dito, aquilo que não é dito, mas que nós imaginamos, formulamos ideias, e 'achismos' sobre o sentido da história e acabamos sempre nos perguntando se era isso que o autor queria dizer, mas se o próprio escritor deixou a cargo de nossa interpretação que nós leitoras façamos o nosso trabalho, pois se este era realmente o objetivo aviso que conseguiu alcançar com êxito, visto que apesar de contos curtos, com situações rápidas, acontecimentos praticamente instantâneos, as histórias contadas permanecem ecoando em nossas mentes nos chamando para a reflexão. Não poderia deixar de dizer que um dos contos do livro foi adaptado para o cinema, o conto Cinzas que com certeza a maioria dos jovens negros que trabalham e estudam se identificam foi transformado em um filme pela direção da cineasta Larissa Fulana de Tal, eu na minha agonia procurei o filme e não encontrei, não tem disponível na internet, então precisamos ficar ligados para saber quando estará nos cinemas, para todo mundo prestigiar uma produção de uma mulher negra baseado na história de um escritor negro.

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