Paralisia -

    André Nigri

    Reformatório
    2018
    184 páginas
    6h 8m
    ISBN-13: 9788566887440
    Português Brasileiro

    Na meia idade, Jofre Monteiro luta para sobreviver aos destroços do fim de seu terceiro casamento. Dilacerado pelo álcool e pelas lembranças, tenta canhestramente reconciliar-se com a ex-mulher. Filho único de um advogado de renome e de uma dona de casa de conduta impecável, vive de rendas e de frustradas tentativas de se tornar artista, mas uma brusca mudança ocorre quando ele conhece uma garota de programa. Ao romper com o passado e recomeçar junto à nova mulher, ele finalmente pensa ter uma família. As fraturas e a violência social do país, contudo, impedem que as cercas erguidas em torno de sua vida a tornem menos vulnerável. Dividido em quatro partes, o romance Paralisia vale-se de planos narrativos que vão da história da personagem ao diário do pai, Santiago Monteiro, ao relato da mãe e aos depoimentos de suas ex-mulheres, cartas, confidências, depoimentos pessoais, vários caminhos por onde a narrativa destila o sofrimento e a desorientação da personagem, enquanto a vida segue seu rumo e novas pessoas vêm fazer parte dela.

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    Krishnamurti Góes dos Anjos12/11/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Paralisia. Um livro surpreendente.

    Um homem está dentro de um apartamento diante de uma janela aberta . Kali está na sala com ele sentada no sofá. “Agora você sente Kali se aproximar e parar ao seu lado. Dá para sentir a penugem do antebraço dela roçar no seu. Uma primícia de emoção erótica sobe-lhe pelo corpo. Gosta disso. Você desliza sua mão pelas costas nuas dela. Até a nuca. Ela vira a cabeça e sorri. Então ela, suavemente, gira seu corpo de modo que você fique de costas para a janela. Ela se ajoelha e começa a despi-lo. Com a língua ela acaricia seu pau. Você rapidamente fica excitado, muito excitado, ardendo de desejo. E é assim que começa...” Podemos imaginar olhinhos que acabaram de ler o trecho acima, brilharem de excitação, outros de indignação, ou curiosidade, espanto, vergonha e toda uma gama de reações, no turbilhão de sensações que uma cena assim desperta. Não é? É. Entretanto não se trata de livro pornô, muito pelo contrário. É trecho do romance “Paralisia”. E positivamente recomendo: guardem o nome do autor. André Nigri. O escritor e jornalista mineiro marca a sua aplaudida estreia na literatura com um romance forte que apresenta um escritor dono de um narrativa inteligente, criativa e que vai direto ao ponto, contundente. Nigri Parece nos dizer em uma leitura superficial de sua obra que a solidão e sofrimento são as matérias-primas trabalhadas a partir da história de vida de um protagonista, que chega à meia idade com contradições e fragilidades, acumulando fracassos e casamentos, em um estado que o impele à uma paralisia moral. É verdade, mas há mais, muito mais. O cerne da questão é o que fizemos e estamos fazendo de nós em termos afetivos e, sobretudo, sexuais. Transformamo-nos em uns autômatos (machos e fêmeas), num bando de destroçados afetivos, de farrapos de sexualidade exacerbada, de ruínas de taras sexuais. Esse o cerne da questão. Essa nossa paralisia de seres perplexos. Adão e Eva – ou para os céticos o macaco e a macaca -, positivamente foram expulsos do paraíso/caverna e resolveram se lambuzar até se perderem. O protagonista, Jofre Monteiro é um homem entrando na meia idade que luta para sobreviver aos destroços do fim de seu terceiro casamento. Filho de um poderoso advogado que o mima materialmente, mas não tem tempo nem a menor noção do que verdadeiramente é ser pai. Não tem tempo porque engendrou sua riqueza material na base de jogos de interesses e corrupções, e descansa das tretas jurídicas em que anda metido nos braços de uma teúda e manteúda (no jargão jurídico esse termo é utilizado em contexto que define pessoas que são sustentadas financeiramente por um indivíduo, na forma de “amantes"). Jofre é, pois, filho do privilégio que uma diminuta classe sempre desfrutou e continua a desfrutar no Brasil. Nunca precisou trabalhar, e em assim sendo, não sabe da vital importância que isto tem na vida humana. Surge aos olhos do leitor no início do livro como um homem em processo de derrota existencial. Dilacerado pelo álcool e pelas lembranças. Em vão tenta se reconciliar com a última ex-mulher, até que em um dos muitos desesperos existenciais em que lança sua vida, e ao sabor de bebedeiras desmedidas, termina por se envolver com uma garota de programa (aquela mesma, da cena de abertura da resenha, e que em verdade se chama Míriam). Dividido em quatro partes, o romance “Paralisia” vale-se de diversos planos narrativos que vão da visão sarcástica, e por vezes cínica de Jofre, ao relato pungente de uma doméstica que foi ajudada pela mãe do protagonista, depoimentos de suas ex-mulheres, cartas, confidências, diários, caminhos que nos deixam entrever como, e de que forma, se forja a nossa personalidade no contato/convivência com o meio em que nascemos. Os capítulos da primeira parte do romance – “Tu” - são titulados por marcos temporais de significado simbólicos muito claros: Natal e ano-novo, que remetem nosso pensamento para as ideias de nascimento e renovação, regeneração e reforma que um ano novo sugere. E nesse espaço alternam-se também as tentativas frustradas de reatar com a última esposa através de mensagens de “e-mail”, veja-se o veículo de completa impessoalidade/formalidade e frieza (também simbólico dentro do contexto da trama, óbvio), em que caminhamos. Um pequeno detalhe chama a atenção nessa primeira parte. O fragmento de uma conversa que Jofre manteve no passado com um de seus amigos mais próximos. Nela, comentam sobre a novela "O Duelo”, de Anton Tchékhov (1860 – 1904). A obra é narrada a partir do ponto de vista de diversas personagens (um funcionário e a sua jovem mulher, um médico militar, um zoólogo de ideias radicais e um diácono dado ao riso), reunidas no mesmo objetivo: esquecer os dias que perderam e aproveitar da melhor forma os que ainda têm para viver. No meio da conversa surge o comentário sobre o personagem Laievski que acabou fugindo com a mulher casada: “Fugira com ela pensando romanticamente que seriam felizes em um lugar cercado de natureza. Mas em dois anos, em apenas dois anos desafeiçoou-se dela”. A segunda parte – “Eles” – é justamente um recorte polifônico de vozes e depoimentos sobre Jofre, ou situações em que o envolvem direta ou indiretamente e permite-nos melhor avaliar sua personalidade. E é assim que temos monólogos de ex-esposas sobre as uniões com ele. Destaque para a primeira das esposas que, enquanto Jofre era um calouro universitário a delirar com os filmes de Fellini e sonhava fazer uma adaptação de Robinson Crusoé, obra de Daniel Defoe (1660 - 1731), a mocinha já saía clandestinamente: “na época em que conheci Jô, eu saia uma vez por semana com o professor de História. Era só sexo o que me interessava com ele”... “Mas logo comecei a me entediar daquela coisa mecânica de uma vez por semana ir ao motel trepar com ele”. Há outras revelações por outras bocas muito interessantes e aí, mais um ponto a favor do autor, que faz uma costura das referencialidades literárias do protagonista que em última análise, vão compor rico painel de sua personalidade. Expliquemo-nos. Antes desse depoimento da primeira ex-esposa, há um texto que se chama “Clarice”. É um belíssimo depoimento de uma empregada da mãe de Jofre, que revela um tal primeiro amor que ela tivera em sua juventude (e que não foi com o pai de Jofre). Esse texto é de uma beleza imensa a nos alertar como se pode conceber um puro e verdadeiro amor. Muito bem; mais adiante, ainda na segunda parte da obra lemos fragmentos do diário do pai de Jofre, depoimento de uma ex-amante desse mesmo pai, e das outras esposas de Jofre. Antes de comentarmos a terceira parte da obra, esclarecemos a (guisa de amarrar o entendimento do leitor), que a “puta” – está escrito assim no romance - , que ele contratou, tinha uma “filha da putinha” de cinco anos e que os três terminaram passando o Natal juntos – o sonho de ter e pertencer a uma família é arrasador, ninguém escapa. Depois, no réveillon é que se deu o encontro sexual fulminante. E eis que na terceira parte da obra – “Nós”-, houve um decurso de tempo de dez anos. E encontramos um Jofre aparentemente mais equilibrado. E pasmem! Casado com a Míriam, dono de um belo sítio onde administra um hotel para cachorros de gente grã-fina, e pasmem mais ainda, pai assumido e amoroso da filha de Miriam que se chama Lisa. Trecho: “A história deles tinha dez anos e dava a sensação a Jofre de ser fresca, familiar, aconchegante, coberta pelo manto da segurança. Nenhum deles jamais viveu aquilo, a fleuma de um lar e um amor tranqüilo. Fresta alguma do passado os atormenta. O passado com sua tremenda carga de sofrimento foi enterrado. Não respira mais. Não é lembrado”. Voltas insuspeitadas que a vida ata e desata. Nesse capítulo o próprio gênero de negócio que ele administra – hotel para cachorro em tempos em que não queremos passar pelos incômodos de gestar e parir seres humanos! - , configura-se ainda como fiel metáfora dos valores sociais completamente invertidos da sociedade brasileira, cega inclusive à violência inominável que se alastra em todos os quadrantes. Veja-se um trecho em que Jofre fala à um de seus hóspedes caninos: “O país está uma merda, com milhões de pessoas sem emprego, os serviços públicos entraram em colapso, e todo mundo continua se divertindo como se nada estivesse acontecendo. Você também se diverte, não é, seu safado? Sua dona está se divertindo em Paris. Qual é o problema? Você não concorda comigo que vivemos no melhor país do mundo? Eu sabia que você concordava.” Muito bem; o afastamento da cidade grande, da metrópole fulminante em busca de uma existência centrada em valores éticos não garante per si, segurança completa. Surgem na última parte da obra três personagens que trarão reviravoltas terríveis. Com cercas, e dentro delas, não se pode viver eternamente, é contra a natureza mesma do ser humano. As presenças da bela veterinária Vânia, do mulambo humano Zenon, e de uma amiguinha de colégio de Lisa chamada Val (adolescente em pleno desabrochar). É a contrapartida inevitável entre o anseio de um viver digno e o fato de o mundo ter se transformado num imenso hospício. Não há cercas que protejam, que mantenham a salvo. Entre a leitura de O médico e o monstro de Robert Louis Stevenson (1850 - 1894), e a vidinha bucólica que Jofre vinha levando ali no sítio, começam a ocorrer incidentes terríveis. Em um deles ele imagina o pensamento de Míriam que parecia queria dizer-lhe: “... isso é só o início do terror, porque o sexo pode ser terrível. E vocês ignoram o quanto ele pode ser terrível”. A última frase do primeiro parágrafo dessa resenha é: “E é assim que começa”. Temos agora a figuração de complemento. Que curso tomará essa nossa tendência suicida de gozo sexual desenfreado? Para onde fugir se estamos todos presos em uma esfera? E reflita-se na cena dantesca em que o romance praticamente se encerra. Vivo testemunho do terrível impasse, da encruzilhada medonha em que a humanidade está. Uma pergunta fica ameaçadoramente no ar, uma pergunta que ressoa em todos nós a inquirir-nos profundamente: E agora? Livro: “Paralisia” – Romance de André Nigri – Editora Reformatório, São Paulo - SP, 2018, 184 p. Resenha publicada em parceria com a https://oasyscultural.com.br/ – Agenciamento e divulgação cultural. ISBN 978-85-66887-44-0 Link para compra e pronto envio: http://www.tanlup.com/paralisia-de-andre-nigri-1199084

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