Moisés e o Monoteísmo -

    Sigmund Freud

    Guimarães Editores
    1990
    213 páginas
    7h 6m
    ISBN-10: 9726653479
    Português Brasileiro

    Campo aberto, portanto, a posições extremas, que vão da intransigente e dogmática defesa a vigorosos mas nem sempre críticos ataques, o edifício psicanalítico levantado por Freud foi, ao longo dos decénios e do acumular de experiências várias provenientes de diversos autores, parcialmente reconstruído com novos dados e elaboradas teorias, mas a sua estrutura de base permanece praticamente a mesma. Em consequência, importa dizê-lo, 'Moisés e a Religião Monoteísta' é um ensaio actualizado, meio século após a sua primeira edição, pois os argumentos e os resultados que Freud salienta neste livro continuam a servir, nos nossos dias, para fundamentar outras opiniões, senão teses, a favor da génese neurótica das religiões.

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    Fabio Coronel Gagno Junior18/09/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    #motivosparaler(?)

    Moisés e o monoteísmo¹ é a obra mais amadurecida dos textos de psicologia social de Sigmund Freud. À medida que a psicanálise foi se consolidando como um saber “científico”, logo ocorreu a possibilidade de seu aproveitamento na explicação dos elementos sociais, dada a paridade entre as condutas neuróticas (objeto da psicanálise) e os comportamentos ditos normais. O artigo de Freud está unido a inquietações frequentes sobre a origem da religião, e sobre a questão judaica. Os pressupostos epistemológicos do autor são muito claros: baseiam-se no pensamento histórico e crítico, inteiramente vinculado à tendência intelectual de sua época, embora depurado pela genialidade de uma grande mente. Inicialmente o livro introduz um olhar especulativo sobre os dados históricos. Freud busca destacar os pontos principais que sugeririam que a figura de Moisés bem que poderia ser egípcia, conclusão completamente diversa da preconizada pela tradição judaica. De fato, não obstante a vicissitude, nunca se havia conjeturado seriamente esta personagem como estrangeira. Para o psicanalista, a ascendência egípcia do nome Moisés, a lenda de seu nascimento (à luz dos princípios psicanalíticos), e as diferentes saídas que tal hipótese permite são referentes satisfatórios para uma releitura da história do monoteísmo. Partindo da pressuposição de ser Moisés na verdade um egípcio, Freud inter-relaciona sua suposta nacionalidade ao experimento monoteísta do faraó Akhenaten (religião do antigo líder egípcio Aten), e mais ao monoteísmo hebreu, sendo que este seria uma apropriação posterior dos sacerdotes judaicos admiradores da abortada religião de Akhenaten e Moisés. A empreitada de Freud é completada na identificação de bifurcações na histórica hebraica. Ela só pode ser bem recuperada se ponderada a existência de dois povos (egípcios e cananeus), dois reinos (norte e sul), dois nomes para Deus (que fazem referência a duas tradições religiosas no seio da história judaica), e por fim, a duas religiões e dois líderes, primeiramente ao Egito e depois à Canaã. Na segunda seção de Moisés e o monoteísmo, o psicólogo revisa os subsídios históricos antes apanhados pretendendo agora esclarecer por que o monoteísmo, de rejeitado, passou a ser absoluto. Recorre então à teoria psicanalítica como interpretação apropriada. A questão é: o espaço histórico entre a condenação e a adesão do monoteísmo é um elemento paralelo ao espaço existente nas neuroses (clínicas), no retorno do reprimido. Como já sabemos, a dinâmica psíquica da infância dirige traumas ao inconsciente por autoconservação, e tais ocasiões podem ser revividas em fases futuras da vida sob a roupagem de sintoma, fobia, obsessão ou outra patologia. No campo social, esse trauma pode ser interpretado como o sentimento provocado pelo assassinato do pai primevo (totêmico). Desde o livro Totem e tabu (1913) mantem-se o entendimento de que a religião é uma neurose reencarnada do assassinato de um remoto líder na horda primeva (conceito baseado em Darwin), repassada filogeneticamente às gerações como culpa. Destarte, o espaço relacionado ao retorno do monoteísmo, provavelmente, é concernente ao assassinato de Moisés, transformado em culpa, e perpassado filogeneticamente, culturalmente, e terminada em religião. Na terceira e última divisão, o psicanalista pretende confirmar sua hipótese expondo o efeito psicológico do monoteísmo de Moisés, explicando assim seu estilo absoluto e tirânico no distintivo judaico. Para consequência pontua que a boa estima dos Judeus quanto a si mesmos deveu-se exatamente ao atrelamento com essa ideia original acerca de Deus, sua decorrência na doutrina da eleição, e na prioridade dada ao pensamento abstrato, em vez do mero contentamento dos instintos. Tudo isso beneficiou um tipo de administração libidinal que, de tão oportuna, impregnou culturalmente. Cf. FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, Volume XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 13-150.

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