No tratado De diuinatione, redigido antes dos Idos de Março de 44 a.C., Cícero expõe a arquitetura a que obedece o seu projeto de dotar a literatura latina de um corpus de textos de natureza filosófica, género «literário» até então não representado em Roma por obras de real valor. Diálogos em Túsculo (Tusculanae Disputationes), em cinco livros, versa certas questões de natureza ética. Há uma saliente afinidade com De finibus bonorum et malorum (As últimas fronteiras do bem e do mal): enquanto esta define a essência do sumo bem para o homem (segundo as diversas escolas filosóficas) do ponto de vista teórico, as T.D. analisam a mesma questão – quais as condições necessárias e suficientes para que o homem alcance esse bem supremo, ou, quais as condições que permitem a «vida feliz», a felicidade –, mas vistas agora do ponto de vista prático, e analisadas de uma forma «negativa», ou seja, não tanto as condições positivas necessárias, mas antes as condições cuja presença torna impossível a obtenção da felicidade. No plano global dos seus textos filosóficos, Cícero atribui um lugar ao mesmo tempo importante e peculiar às T.D., as quais, na qualidade de texto de filosofia prática formam, por assim dizer, uma ponte entre dois conjuntos de textos teóricos e subordinados a uma temática de ordem geral, enquanto as T.D. analisam diversos problemas pontuais, conquanto todos integrados no tema geral da «felicidade». Os cinco diálogos que formam as T.D. analisam os diversos factores impeditivos da vita beata, da felicidade: I- ordem metafísica: a finitude do homem; II- ordem psicológica e física: a possibilidade da dor; III e IV- ordem psicológica: as perturbações mentais; V- ordem ética: a relacionação entre a virtude e a felicidade. O modelo de diálogo é o «modelo aristotélico», que se caracteriza por abandonar o método dialéctico de Sócrates (e Platão) e conceder a supremacia ao discurso extenso a cargo de uma figura dominante, conforme Cícero observa numa das cartas a Ático: «Nos meus últimos textos tenho seguido o modelo aristotélico, segundo o qual as falas dos outros interlocutores não impedem que seja eu o protagonista».
TEXTOS FILOSÓFICOS II - Diálogos em Túsculo
Marco Túlio Cícero
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As perguntas que Cícero tenta responder (adotando uma perspectiva estoica) em cada um dos cinco livros das Tusculanae Disputationes, e as minhas respostas a elas depois de ter levado o estoicismo a sério por cerca de 5 anos. — É possível genuinamente acreditar que a dor não é um mal? — Nem a pau. É um mal sim e toda filosofia que se fundamente na negação disso é não meramente paradoxal, mas francamente desumana. — A virtude é condição suficiente para a felicidade? — Só em argumentos muito estreitamente logicistas e abstratos. Na vida real, ninguém é feliz no touro de Fálaris. E olhe que para me dar o trabalho de responder tal pergunta estou assumindo, argumenti causa, a possibilidade de alguém sequer se tornar perfeitamente virtuoso. Como bem diziam os opositores céticos, na prática os estoicos e cínicos passavam a vida inteira buscando algo inatingível e morriam, como eles mesmos admitiam, tão dignos de lamento quanto todos os loucos que condenavam. — Então não é possível se livrar completamente das paixões ou perturbationes animi? — Não mesmo. Só quem nunca tentou a sério é capaz de se iludir. — E a morte? É genuinamente possível acreditar que a morte não é um mal? — Os próprios estoicos respondem isso pra mim. Primeiro dizem que não é a morte em si que é um mal, mas o fato de morrermos imperfeitos, viciosos. Depois dizem que todos morremos mesmo imperfeitos e viciosos, morremos como crianças que não amadureceram, portanto, espiritualmente falando, todos morremos prematuramente, ainda que morramos velhos de corpo. E admitem mesmo que é tão difícil amadurecer e se tornar sábio (única forma de "salvar" a vida) quanto nascer uma fênix, algo que, segundo a lenda, acontecia uma vez a cada meio milênio, se não me engano. Quantas vidas humanas se passam no mundo em 500 anos para que apenas uma seja salva (ou seja, para que somente uma tenha realmente valido a pena)? O que o estoico faz é colocar essa responsabilidade tremenda em nossas mãos. Eles dizem: só depende de você, exclusivamente de você, se tornar sábio e ser, consequentemente, bem-aventurado (beatus). Depois dizem que ninguém consegue, nem eles mesmos. Eles têm razão, é por isso mesmo que lamentamos quando nossos entes queridos morrem: porque não tiveram uma vida perfeita, porque lhes faltou coisas que queríamos lhes ter podido dar ou, pior, que poderíamos ter dado mas não demos. Porque poderiam ter se tornado seres humanos melhores, mais virtuosos, mais felizes. Sim, é por isso mesmo que lamentamos a morte de nossos entes queridos e tememos a nossa própria, sempre a adiando, quanto pudermos, pois continuamos sempre imperfeitos, viciosos, infelizes.
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