No subúrbio do Rio de Janeiro, mora a família de Clara: o pai, Joaquim, trabalha como carteiro, é o provedor do lar e também o encarregado de descascar pepinos, uma vez que a esposa se abstém de qualquer decisão, até mesmo as que lhe cabem. Por falar na digníssima, Dona Engrácia é uma mãe excessivamente protetora, no entanto, sua inércia natural não a permite que isso a leve a ter conversas importantes com a filha, só a vigiá-la como um cão de guarda e deixar Joaquim responsável por tudo.
Esse modo alheio de criação de ambos, torna Clara, uma jovem negra de 17 anos, o alvo perfeito para o plano de qualquer pessoa má intencionada e determinada o suficiente. Para o azar da família, (e de Clara, principalmente), o pior sujeito desse tipo foi convidado pra tocar em seu aniversário.
Cassi tem pouco menos de 30 anos, é um mau caráter de família rica, aparência insignificante, mas bom de lábia, conhecido na cidade por destruir o futuro de várias moças. O motivo de continuar solto por aí, tranquilo para escolher a próxima vítima para enganar, é a mãe que, movida por seus preconceitos e ares de grandeza, nunca hesitou em defender a crapulice do filho ao marido. Ao fazer isso, Cassi se via livre de qualquer ameaça da polícia, fosse de casamento ou da cadeia. Tal manobra, de tão frequente e bem sucedida, lhe deu muito cedo a certeza da própria impunidade e de seus privilégios.
A história não me surpreendeu tanto, pois a sinopse entrega bastante e, na minha opinião, não vai muito além disso. No entanto, a escrita de Lima Barreto é primorosa, irônica, cheia de um humor ácido, crua quando tem que ser, ao mesmo tempo em que também tem certa poesia ao apontar as constantes injustiças, a desigualdade social, o racismo e o desprezo do governo para com a população mais pobre, destinada por ele a ter cada vez menos.
Sua trama, de tão fluida, me deixou cada vez mais ansiosa pra continuar, indo contra tudo o que pensei. O meu encantamento pela escrita do autor, me permitiu aproveitar cada página a ponto de, por muitas vezes, eu voltar pra ler certos trechos, fazer marcações gigantes e rir das sacadas maravilhosas, sempre em tom de crítica, àquela sociedade preconceituosa e, mesmo hoje, passado quase um século, tão pouco evoluída.
Clara dos Anjos é um clássico nacional surpreendente, mas o seu brilho não está em Clara, nem em nenhum de seus personagens, embora não lhes falte construção. O brilho se concentra na narrativa de Lima Barreto. Esse foi o meu primeiro contato com os seus livros e não vejo a hora de explorar mais do legado que ele deixou na literatura brasileira.
Clássicos não são sempre chatos como a escola fez a gente pensar e Clara dos Anjos é só mais um dos tantos exemplos disso.
Dê uma chance e veja por si mesmo(a).