Passagem
E vejo a instigante foto de uma garota de apenas 23 anos. Ela parece estar em um parque de diversões. Foi flagrada no instantâneo da fotografia de olhos fechados, como se estivesse a sonhar com aqueles brinquedos ou, quem sabe, muito longe dali a sonhar outros universos? Impossível dizer pela foto, mas não pelo que essa mesma garota escreve, senão vejamos: Versos do Poema “Verborragia”. “as palavras me engatam a garganta pelas úngulas / Escalando paredes massudas de vazio acumulado”. Pelas úngluas, ou seja, garras ou unhas. E mais a diante, no mesmo poema, o desabafo terrível daquilo que não tem mais volta: “tento cobrir a boca reprimir o ímpeto delinqüente / numa hipótese vã de fazer descerem os demônios / chego a engolir pressionar empurrar impilir sigilos mas vozes correm em desespero entre meus dedos / explodindo faringe laringe mandíbula cordas vocais / fere a carne coagula o verbo na arma que impunha as palavras me sepultam a mudez pela insistência / arrebentando pontos repetidos de eternas suturas” A garota chama-se Amanda Vital. E o poema é o que abre o seu novo livro de poesias. “Passagem”, reúne apenas 25 poemas nos quais fica patente, dentre outras coisas, a forte sensação de que a poesia, numa abordagem primeira, é aquilo que se entende pela linguagem dos sentimentos. É como se, nela, se pudesse ou se possa recriar o que se sente, funcionando esta como um veículo transmissor daquilo que não conseguiríamos, de outra forma, expor. Escrever é ao mesmo tempo, um ato de construção, de criação, porque de transfiguração. Em primeiro lugar, fazer poesia é criar poesia; o ato de criar subentende, de imediato, construir: a partir do pensamento, moldado pelo que conhecemos, logo, pelo seu entendimento, da interpretação do que nos rodeia, em estreita ligação com o que consideramos que somos. Nesta conversação de nós conosco, de nós com o mundo, com os outros, criam-se relações múltiplas e inesgotáveis. Mas nem sempre as palavras conseguem abarcar o todo, porque nos perdemos no ato de raciocinar, que é complexo, que se ultrapassa a si mesmo e que escapa à nossa capacidade de recriá-lo na sua totalidade. Mesmo quando se crê que se faz um poema e que ele encerra em si a chave, ou uma chave que nos permite abrir portas para o mundo, já estamos no plano da criação; no entanto, não no da transformação da realidade exterior em palavras, mas da recriação do mundo em palavras. Mesmo falando em linguagem denotativa, a conjugação de palavras está sempre sujeita à interpretação da ligação que umas fazem com as outras; logo, quando lemos o que escrevemos, já estamos a interpretar o mundo a partir do significado que atribuímos aos vocábulos. Veja-se o poema “Poeta” de Amanda dedicado ao grande escritor Sérgio de Castro Pinto. “entidade ocupada por portais semiabertos / artífice diluidor das palavras do dicionário / antenas captadoras de sopros imagéticos / sintonizando universos não catalogados // maestro a reger vozes isócronas avulsas / lentes refratoras das luzes inesgotáveis / extraindo a arte para fora das molduras / linha tênue entre insurgente e selvagem // glândula cravejada no corpo do mundo / imersa na estrutura e sob a pele grossa / vítima preliminar de seu próprio produto // orador das percepções não empilhadas, / é tecelão em tarefa constante e laboriosa: / costurar do homem todas as camadas” Pela orelha da obra ficamos sabendo também que Amanda Vital é natural de Ipatinga/MG, cursa Letras com ênfase em Estudos Literários na UFMG em Belo Horizonte e publicou em 2015 “Lux” pela Editora Penalux. Entre 2014 e 2016, participou do grupo de declamação Aedos. Posta seus poemas nos blogs “Amanda Vital Poesia” e “Zona da Palavra”, produz videopoemas experimentais no Youtube, e finalmente, como se não bastasse, colabora com o conselho editorial da prestigiosa revista Mallarmargens. Que fôlego a juventude lhe dá. Mas não se trata como já ficou claro, de arroubos da juventude esse caso de atuação artística precoce, por assim dizer. Há talento. E muito. Perceba-se como a poeta trabalha a imaginação como potência criadora de mãos dadas com a memória afetiva: poema “Segunda mãe”. “segura forte minha mão, Neide / vamos descer o morro de casa / redesenhar as rotas da infância // colher as menores flores da rua / e espalhar pelo chão da padaria // despedaçá-las pétala por pétala / colorindo cheiros em sinestesia // eu aumento o volume do radio / e você dança só, com seu pano / envolto no ombro e nos braços // canta alto, andorinha em moça // me ensina a ler de novo, Neide / essa vida me cegou os princípios / já trago olhos tão desencantados // se eu chamar seu nome na praça / você vem me encontrar sorrindo / e com as mesmas mãos de alho?” A autora sabe, e nos transmite com doçura, que tudo pode passar a ser poesia, como nos revela em “Cigarra”. “a cigarra não canta a própria morte // ela vocifera, urge, ralha e brada / em agudos polifônicos dispersados / ao primeiro sinal de nuvem negra // mas não canta a própria morte // ela anuncia o arrancar da própria tez / ovacionando a nueza às semelhantes / prolificando-se em ciclos axiomáticos // mas não canta a própria morte // ela se espalha entre toras e troncos / pisa na terra, equilibra-se em galhos / voa tardes que lhe resumem a vida / numa inconsciência pura e indolor // e isso é estar bem longe da morte”. A hermenêutica de um texto poético como esse traz sua tônica na apreensão que a autora faz, do modo como interpreta as questões retóricas, que atestam os limites da linguagem, da ironia, das metáforas, que são jogos sutis (ou não) de realidades simultâneas, e por vezes sobrepostas, ultrapassando a concepção de Roman Jakobson, pois, uma análise exclusivamente linguística é insuficiente para a explicar. A literatura tem o maravilhoso poder de dizer de muitas maneiras a mesma realidade. E façamos a ressalva de que a função, o trabalho do poeta não é criar realidades que pretende que o leitor compreenda, mas suscitar imagens na sua cabeça; o ato criador tem, somente, que fazer a operação de recriar o sentimento numa dada realidade, para se tornar palpável, logo para se poder reconduzir, novamente, num sentimento, e alcançar-se a catarse. Vejamos o que Amanda nos diz quanto a uma das facetas do amor. Poema “Grilos” “beijar seu rosto não me convence // todos os nossos tatos se invadem / na natureza daquilo que não basta // visto a pele grossa de uma python / e engulo – ardilosa – carne a carne / em uma discrição crua e molhada // o que eu sinto não troca de pele / soa pleno, genuíno, não despetala / e o céu é mais um de seus tecidos // sorrateiro feito correntes tântricas / no brejo dos sentidos primitivos, // escuto sair das minhas entranhas / a sinestesia incansável dos grilos” E se a poesia tem a capacidade para olhar a realidade sob vários prismas, também tem a capacidade de a transmutar, oferecendo a possibilidade de pensar metafisicamente. Basta olhar o poema “Metafísica” “ponta não acaba em nó / há sempre um pequeno contínuo // um ramicho / curto demais para ser linha / longo demais para ser / fim” O que é imanente na poesia passa a ser transcendental quando esta sai fora de si e é apropriada pelo mundo que, a partir dela, cria outras formas poéticas. Por isso, poesia é construir e transfigurar a realidade em simultâneo: dentro de si e fora de si. A “Passagem” do que está dentro para fora nesse divino “parque de diversões” que é a vida humana. Amanda traz no sobrenome um adjetivo que faz referência à vida, à existência. “Vital”: o que é indispensável para a preservação da vida. Daí a expressão bem conhecida “questão vital”. Aquilo que nos é imprescindível; que é extremamente necessário. Como a poesia. Resta-nos torcer para que em breve surjam novas produções da autora. Livro: “Passagem” – Poesias de Amanda Vital – Editora Patuá, São Paulo - SP, 2018, 84 p. ISBN 978-85-8297 – 651 – 7 Link para compra e pronto envio: direto com a autora: in: https://amandavitalpoesia.wordpress.com/ Ou https://www.facebook.com/vitalamanda

