Esta obra trata das especificidades medievais do célebre libro de cozinha atribuído a Apício, e tradicionalmente conhecido por De re coquinaria. Embora seja referência obrigatória quando se trata de temáticas alimentares do passado, muitas vezes esquece-se que Apício chegou até nós, primeiramente por meio de três manuscritos medievais datados dos séculos VIII e IX, dois deles provenientes dos mosteiros de Fulda e Tours. Dado importante, porém pouco explorado, tendo em vista que o receituário aparece muito mais associado às cozinhas da Roma Imperial do que àquelas da Idade Média. Partindo da hipótese de que a cópia dos manuscritos apicianos por homens da Alta Idade Média esteja ancorada a aspirações particulares ao momento dinâmico do Renascimento Carolíngio, procurou-se traçar o enquadramento sociocultural que explica a reprodução e a incorporação de Apício pelos homens e pelas cozinhas de alguns ambientes sociais do período. Para tanto, foi necessário investigar o pensamento altomedieval sobre a comida, a disponibilidade e o acesso ambiental e cultural aos ingredientes apicianos e os mecanismos que possibilitaram estabelecer um locus para a sua incorporação.
