O sagrado coração do homem -

    Michel de Oliveira

    Moinhos
    2018
    164 páginas
    5h 28m
    ISBN-13: 9788545557456
    Português Brasileiro

    O dicionário define literatura como substantivo feminino. Na prática, o retrato é outro: literatura é artifício masculino, forjado para louvor dos homens. E não se enganem, mesmo o fracasso é representado de forma grandiosa nas páginas dos livros. Desnudando a imagem intocável do macho, Michel de Oliveira investiga a masculinidade que se diz tão potente, mas que esconde tantos medos e frustrações. Os contos, marcados pelo sarcasmo e pela ironia, são permeados de referências diretas e indiretas às estruturas formatadas pelos homens para sustentar a sociedade que os beneficia, a exemplo da religião, da filosofia, da ciência, da história e da própria literatura. Em vez de um compilado de textos avulsos – como é comum em livros de contos –, O sagrado coração do homem apresenta um fio narrativo que dá a perceber a potência por trás de cada história, construindo uma arquitetura narrativa que não é simples de ser realizada. O livro propõe uma mirada pelo avesso, expõe as costuras que não deram certo, os pedaços esgarçados, as cores desbotadas, busca as fissuras da masculinidade, que não se deseja quebrar por nada. Como resultado, temos um catálogo de cenas que permite visualizar as nuances do mundo dos homens, sem o heroísmo e vanglória que marcam esse tipo de abordagem.

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    mpettrus26/05/2025Resenhou um livro
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    “Reflexões Sobre a Masculinidade no Século XXI”

    “Apesar de tudo, alguns poucos homens são capazes de amar. Quando amam, podem encontrar a salvação. Por amar, quero dizer abrir: deixar-se penetrar.” ​ A fantasia e a magia são ferramentas de construção de narrativa. Construir narrativas é lidar com poder. Construir narrativas é política e guerra. Dentro desse contexto, o escritor sergipano Michel de Oliveira escreveu esse livro reunindo contos para discutir as fragilidades do universo masculino no século XXI. ​ O papel do homem na vida social atualmente é alvo de muitos debates. Considerado durante muito tempo como o sexo forte, seu papel na sociedade vem sendo posto em xeque desde o surgimento dos movimentos feministas, nos anos 60. Com as mulheres lutando por direitos iguais e desprezando a figura do machão, os homens começaram a sentir suas identidades masculinas ameaçadas e a buscar uma nova forma de ser homem. ​ O tumor cultural no corpo da sociedade que é o patriarcado teve um início. A produção e manutenção de ideais compulsórios e determinantes de masculinidade acontece a todo o instante disfarçado de ontologia. Seus rastros são invisibilizados por mitos de criação e sustentados por instituições de poder. ​ Não sabendo mais como agir, pois se espera que ajam de uma forma completamente diferente daquela que vêm agindo há séculos, os homens buscam redescobrir suas identidades masculinas, tentando conseguir um ponto de equilíbrio entre a masculinidade hegemônica, a qual estão acostumados, e os modelos de um “novo homem” ou “soft man”, cada vez mais exigidos pela sociedade. Não tem sido fácil para os homens, no entanto, abandonar o modelo da masculinidade hegemônica, tão fortemente enraizado em diversas sociedades e culturas. Como as masculinidades, enquanto parte das identidades sociais dos homens, estão sendo sempre construídas e reconstruídas no discurso através de práticas sociais, e nenhum homem possui uma única identidade masculina fixa, o homem passa a vida toda construindo sua masculinidade. ​ Na ótica do senso comum e da masculinidade hegemônica, estas masculinidades precisam também estar sempre negando o feminino. Em outras palavras, o homem passa a vida toda tentando provar que é homem: ‘Ser um homem’, segundo Norman Mailer, ‘é a batalha sem fim de toda uma vida’. O homem peleja sempre contra si mesmo para jamais ceder à fraqueza e à passividade que estão sempre à sua espreita. ​ Outra reflexão muito importante que a leitura dos textos desse livro me trouxe foi sobre a questão ‘masculinidade hegemônica versus a existência do homem gay’. Na sua luta incessante para provar que é homem e se adequar ao conceito de masculinidade hegemônica, o homem deve desprezar os gays, estar sempre disposto para o sexo, gostar de esportes e ser racional. ​ Desprezar os gays é condição ‘sine qua non’ para um homem provar sua masculinidade, pois os gays são a maior ameaça à masculinidade hegemônica e a prova de que existe uma forma de ser homem diferente da considerada socialmente normal. ​ Em uma sociedade que possui altas expectativas a respeito dos homens, experienciar as masculinidades pode se tornar um fardo cujas consequências são: solidão, sofrimento, angústia, tensão premente, fragilidade, inseguranças, problemas de identidade, opressão através do processo de socialização, inabilidade para manifestação de sentimento, etc. Para cada expectativa social, um medo é desenvolvido: ao provedor corresponde o medo do desemprego; ao homem viril corresponde o medo da impotência; ao espírito competitivo corresponde o medo da solidão. Enfim, considera-se impossível a um homem comum realizar todas as expectativas sociais depositadas sobre ele, desde a questão da alienação no trabalho, burocracia na política e na guerra, comercialização da sexualidade solapando a masculinidade, contradição entre a imagem do macho hegemônico e a condição real de vida dos homens, até os conflitos oriundos de exigências paradoxais na construção da identidade masculina e que levavam a um sentimento de impotência. ​ O aprendizado do que significa ser um homem é um processo contínuo cuja duração é toda a vida de um homem, embora haja alguns momentos em que ele é mais explícito. Quando vários homens se encontram, existe uma troca de informações acerca dos participantes da interação social, compreendida como uma situação em que há a influência recíproca dos indivíduos sobre as ações uns dos outros, quando em presença física imediata, por exemplo, ao redor de uma mesa de sinuca ou numa reunião pós jogo de futebol, a famosa ‘pelada’. ​ Uma interação pode ser definida como toda interação que ocorre em qualquer ocasião, quando, num conjunto de indivíduos, uns se encontram na presença imediata de outros. As informações trocadas entre os indivíduos podem ser de diversas naturezas – socioeconômicas, de autorrepresentação, respeito, confiança, capacidade, etc., motivando essa troca de informações à intrínseca necessidade de definição do que cada integrante da interação pode esperar dos demais. É muito importante entender que não necessariamente a masculinidade hegemônica é adotada por todos os homens, e nem é possível dizer que a maioria dos homens se identifique com esse modo de ser homem. É um fato, entretanto, que quando reflito sobre masculinidade hegemônica estou falando de uma masculinidade normativa, um modo de ser homem e de parecer homem que é o esperado e o aceito dentro da sociedade patriarcal. ​ É interessante também notar que a masculinidade hegemônica não só não contempla todos os homens como também faz com que masculinidades que fujam desse padrão sejam vistas como uma maneira “menor” de ser homem. E aqui não me refiro apenas da sexualidade. Homens que são tidos como fracos, como sensíveis, como amorosos demais tendem a ser vistos como “menos” homens pelos demais e até por eles mesmos. ​É interessante também pensar até quando esse modo de “ser homem” privilegiado pela sociedade perdurará. Será mesmo que todos os homens aguentarão por muitas décadas e séculos ainda performar essa virilidade, essa não vulnerabilidade, a exclusão das subjetividades? Tenho a impressão de que não. ​A narrativa ácida do autor pode provocar o leitor mais conservador porque ele não foge de temas espinhosos, caros a nossa sociedade que ainda é bastante enraizada nos valores patriarcais. Pode incomodar o sexo masculino (extremamente frágil em seu ego e terrivelmente inseguro com sua sexualidade) e trazer debates polêmicos para o debate. Mas, afinal, quem é o homem do século XXI? O homem é a mesma coisa de macho? Como combater o machismo? ​ Também quero comentar da capa do livro, explicitamente provocativa, pois mostra o órgão sexual de Davi de Michelangelo de ponta cabeça, fiquei surpreso que uma imagem tão transgressora dessa natureza fosse autorizada a circular no nosso mercado editorial. Mas, pensando com mais clareza, faz total sentido. A capa combinou perfeitamente com o conteúdo do livro: provocativo e incômodo é também um convite à reflexão para pensarmos o homem do nosso tempo e seus atos vergonhosos de misoginia, homofobia e violência em nosso cotidiano.

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