Artes em partes - da poesia -

    Filipe Moreau

    Editora Laranja Original
    2018
    142 páginas
    4h 44m
    ISBN-13: 9788592875428
    Português Brasileiro

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (1)Ver mais
    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos15/12/2018Resenhou um livro
    0

    Artes em partes - da poesia

    Mário Quintana escreveu no seu poema “Das utopias”: “Se as coisas são inatingíveis… ora! / Não é motivo para não querê-las… / Que tristes os caminhos se não fora / A mágica presença das estrelas!” E em nosso universo repleto de imponderável, a poesia funciona também como um encantamento: o poeta vale-se das palavras como fórmulas mágicas, criando uma atmosfera que desvela/revela o mundo, produzindo o que poderíamos denominar de enobrecimento do cotidiano. Mas tenhamos em vista e, sobretudo, que ela é também irredutível e, em assim sendo, transmite a verdade interior do ser. Cada qual com suas idiossincrasias (característica de comportamento peculiar a um indivíduo). A lembrança da poesia de Quintana vem a propósito do livro “Artes em partes – da poesia”, de Filipe Moreau, porque o escritor poeta e editor apresenta-nos uma reunião de poemas que levam a marca da simplicidade ancorada em dois procedimentos: ou a indagação ou a simples sugestão. Alinhadas em blocos temáticos as abordagens são variadas, mas em vários poemas surgem em pares, cuja combinação é constituída de opostos: o dilúvio X a presença da eternidade; verdade X ilusão; filosofia X ciência; presença X ausência do amor, ou da reprocidade do sentimento etc. O leitor fica com a impressão de ler certos lampejos de consciência do autor, como se permanentemente estivesse a conversar consigo mesmo, numa espécie de solilóquio continuado. Por vezes, um único texto pode sugerir tantas outras coisas (vide o bloco “Poemas rasos – ainda mais abstratos”), que o poeta suspende potencialidades, interrompendo o texto e deixando-nos ao sabor das sugestões. Diana Junkes que assina o prefácio da obra escreve dois trechos que merecem transcrição. Primeiro: “Na simplicidade, o sujeito poético prossegue, não porque aceite seu destino com resignação, mas porque ao se perguntar sobre ele, ao se espantar com o mundo à sua volta, sobretudo o mundo natural, caminha, resiste e insiste por meio da poesia, que o alumbra entre aves e aeronaves, mesmo que não saiba exatamente o seu destino, ou o das nuvens”. Poema “Contextualização e dilúvio”. “(Dizem que no fim, a verdade nunca falha. / Aparecerá, hoje, amanhã, / ou nas últimas eras da vida.) // Haverá algo de sagrado / que estando dentro de nós, como parte de Deus, / mostrará o verdadeiro Ser em nossa pessoa? // O que mais podemos querer?/ Quando se tem amor no coração / parece que habitamos em outra casa, / experimentamos novos conceitos de vida / (sem que para isso precise haver religião). // Não acredito em planos superiores, / em seres radiantes; / apenas em haver / mais verdade e compreensão. // E que cada fase / possa ser vivida / sem se achá-la menor / (ou menos importante) que as outras // (pois a sensação / de uma época estagnada / não tira o significado / que se queira dar à vida).” Observe-se no poema “Rocha roxa” a percepção dos estados nos quais a matéria se manifesta, e conforme o momento, alcança a nossa sensibilidade em graduações variadas: “Areia é feita / Das conchas e rochas / Que como colcha / De retalho / Nos entalhos / Da natureza / Mistura os vários tipos / De restos (in)orgânicos // Há conchas roxas / Nas rochas brancas / Que grudam na coxa / Como areia fina / À pele da menina / Que agora finalmente / vai lavar / Nas ondas do mar”. Segundo aspecto apontado por Diana Junkes: “Todavia, é sobretudo em relação ao amor que o sujeito lírico dos poemas se indaga, luta ou cede: o encontro, o cantar da musa, a solidão de um amor desfeito, a vontade de amar dão contornos ao livro em tempos em que a lírica nem sempre é tomada com a força poética que merece. Parafraseando Barthes, há muito fragmento de discursos amorosos neste livro de Filipe Moreau, muito de um sujeito lírico que ao andar entre os cacos do amor, encontra pedaços ainda intactos, são as memórias, ou algo que, entre as ruínas, valha o restauro para um novo amor que pode chegar e é sem dúvida quando a ferida da partida da amada se torna mais contundente, que o discurso amoroso fragmentário atinge um nível singular de poeticidade e delicadeza, a despeito da dor”. Poema “A dor”. “O que agora aprendi, / mas jamais falarei / é que quanto mais verdadeiro meu coração, / e mais puro, / maior a dor. // assim como / a você / o amor / me enlouqueceu. // Sei que dentro de teu seio, / expande-se um oceano / de Amor / sem fim. // E sou apenas um barco / - o que passeia por ele agora - / feito de ciência, filosofia, romance e arte, / ou a pura extravagância do pensar... // Quanto mais navego / em minha própria casa (ou carro de metal) / mais me sinto um ser que é apenas mental, / vagando em oceano idêntico ao que se / [espalha pelas ondas / de alguma amargura...” O que a vontade representa para o ser? Precisamos de amor para sermos felizes? O que é o amor? O filósofo Arthur Schopenhauer via a essência do ser humano como a Vontade. Sempre estamos em busca de satisfazer os nossos desejos, por isso, para o filósofo alemão, a essência da vida era a dor, pois a satisfação constante do que queremos está atrelada a nossa concepção de felicidade, o que acaba por se tornar insustentável, nos conduzindo a frustrações. O filósofo pondera ainda, que a anulação da vontade seria o caminho para atingirmos a verdadeira felicidade – segundo ele, que foi um estudioso da filosofia hinduísta, particularmente do budismo – a experiência do nirvana, descrita pelos budistas, seria a ascese para a real felicidade e acima de tudo a estabilidade, ao aniquilarmos até mesmo a vontade última, que seria a vontade de viver. Portanto, a causadora da dor no ser humano era a própria essência da vida. E então seguimos vida afora amando e dando as cabeçadas cada vez maiores que o ímpeto em que nos atiramos a esse “desejo da vontade” nos faz dar. Daí tornamo-nos mais cautelosos (outros não aprendem nunca, por certo). À medida que nos machucamos, mais cautela. De qualquer sorte, fica a pergunta que não quer calar: Mas então, por que não desistimos de amar e viramos pessoas frias, não seria mais racional? Provavelmente Schopenhauer em sua fleuma de filósofo responderia que é impossível nos libertarmos dos grilhões do instinto da preservação da espécie, e buscamos sempre essa felicidade travestida de amor, então o instinto superaria a razão – o amor esta maldita artimanha da natureza machuca (...) E quem disse que queremos nos libertar desses grilhões? Deixemos Schopenhauer de lado, voltemos-nos para 3 poetas amantes inveterados. Pablo Neruda, ficaria entre a cruz e a espada mas não negaria: “Um homem só encontra a mulher ideal quando olhar no seu rosto e ver um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam”. E o grande Victor Hugo, diria ao ler mais um poema de Filipe Moreau: "Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele". Poema “Vejo-a sempre terna e doce” “Em todas as noites / Ela brilha / Com seu suave mistério / De luar / E luzes / Douradas / Das estrelas // Abre-se um caminho de bondade / Para o nosso estranho estado “superior” de consciência / Estamos agora cheios de alegria / E vivendo em suposto esplendor”. Livro: “Artes em partes – da poesia”, poesias de Filipe Moreau. Editora Laranja Original – São Paulo- SP, 2018, 142p. ISBN 978-85-92875-42-8 Link para compra e pronto envio: https://www.laranjaoriginal.com.br/product-page/artes-em-partes-da-poesia

    curtir

    Estatísticas

    Avaliações

    4 / 1
    • 5 estrelas0%
    • 4 estrelas100%
    • 3 estrelas0%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%