À luz do Cristianismo, Agostinho concebe uma obra esclarecedora e, para aqueles que não professam a mesma fé, um livro polêmico (mas não menos rico por causa disso). Aqui, o autor defende que caso o homem não queira incorrer em pecado, deve evitar a todo custo a mentira. Afinal, isso afasta-nos da verdade e, por consequência, da eternidade.
Como fio condutor, Agostinho estabelece que se a alma e a verdade é que constituem o mais importante, não valeria pôr, no lugar delas, nossos corpos ou nossos interesses (ou os de outrem, quem quer que fossem). Afinal, haveria aí uma inversão da ordem, estabelecendo-se o menos importante como tendo prioridade sobre o que efetivamente importa.
Obviamente esse posicionamento está sujeito a críticas duríssimas - e Agostinho não se esquiva delas. Um exemplo: como lidar então com aquele clássico dilema em que uma pessoa inocente se esconde em sua casa e o perseguidor questiona sobre a presença da vítima naquele local? Segundo o autor, a posição mais louvável não seria mentir, mas não apenas não indicar qual o local onde a pessoa estaria escondida e, ainda, resistir aos ataques do perseguidor. Com isso, evitam-se duas coisas negativas: o pecado e a traição. Agostinho inclusive cita um exemplo do bispo de Tagaste,que assim procedeu em uma situação análoga- e a valentia daquele religioso foi tanta que, impressionando as autoridades, mesmo após sofrer torturas, concluiu-se a questão com a vítima da perseguição sendo perdoada.
O autor disseca oito tipos de mentiras, do mais grave (o que atenta contra a religião) ao mais leve (quando algum proveito ainda poderia ser auferido). Entretanto, todos esses tipos constituem, ainda, pecados.
A obra conta ainda com posicionamentos do autor acerca de passagens polêmicas das Escrituras, a exemplo do dar outra face; se os apóstolos deveriam carregar consigo alguma coisa em suas viagens; se se deve preocupar com o dia de amanhã. E Agostinho ainda fornece uma valiosa lição de interpretação bíblica: na dúvida acerca de algum ensinamento, que se consulte o comportamento dos homens santos nas próprias Escrituras - e fornece exemplos disso, sobretudo com Jesus e Paulo. Reflexões bastante ricas.