O vaqueiro e o jornalista -

    José Huguenin

    Penalux
    2018
    172 páginas
    5h 44m
    ISBN-13: 9788558334228
    Português Brasileiro

    A história narra o encontro dramático de um Vaqueiro com um Jornalista no sertão da Baia em plena guerra de Canudos. O Vaqueiro vai para Canudos com a família guiado pelas profecias de Antônio Conselheiro fugindo da injustiça do coronelato. Jornalista republicano vai para Canudos para observar a guerra em curso, acreditando se tratar de um levante monarquista. A narrativa tem como ambiente um dos momentos históricos mais dramáticos do país. O positivismo republicano na figura do Jornalista depara-se com a força e sabedoria desassombrada do sertanejo, na figura do Vaqueiro. O Jornalista encarna as vivências de Euclides da Cunha durante a guerra, personificando-as, através referências indiretas e diretas às constatações de “Os sertões”. Seguindo a saga da família do Vaqueiro, é possível andar por entre as ruelas da Canudos sitiada. O amor de pai e filho é colocado à prova no meio do sangue derramado. Perdas dolorosas não demovem dos sertanejos a certeza da vitória. O encontro com o Vaqueiro desvenda para o Jornalista os motivos pelos quais os sertanejos lutam. O Vaqueiro se vê em situações que o levam a ser personagem decisivo para a resistência sertaneja e a preservação de muitas vidas. Mas como enfrentar um exército julgando e punindo um crime que não existiu?

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    Krishnamurti Góes dos Anjos03/09/2020Resenhou um livro
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    Entrelaçamento entre História & Literatura no romance “O vaqueiro e o jornalista”. PARA ENTENDER MAIS O BRASIL DE HOJE...

    A HISTÓRIA: 1799 Há alguns anos em pesquisas preliminares para meu último romance histórico “O touro do rebanho”, encontrei entre os documentos existentes no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa um documento singular. Trata-se de volumoso processo onde está apensa uma Consulta do Conselho Ultramarino à rainha [D.Maria I] sobre as queixas do capitão João de Piza contra André de Sousa Estrela, e as iniqüidades e injustiças praticadas pela Relação da Bahia nos processos que envolviam pessoas importantes da cidade. Datado de 2 de março de 1799, os autos trazem a certa altura do Parecer do Conselho a seguinte afirmação: “...Parece ao Conselho que aquelas leis de iniqüidade e de injustiça que adotou a Relação da Bahia nos processos, que ali se trataram sobre o libertino acontecimento da força, assuada, ferimento e resistência contra a Justiça que praticou o poderoso, e o soberbo réu João Pedro [Lima] seu Filho, e outros são as mesmas, que regeram e formaram este segundo fenômeno escandaloso, e sumamente digno de exemplar castigo. A humanidade nos sertões do Brasil há muitos anos, espirou nos braços da tirania e acabou de todo para este e outros poderosos e soberbos senhores de Fazendas, e de Escravaturas que vivendo entre miseráveis e indigentes, e ainda entre outros não pobres, porém menos abastados e ricos, abusam das leis de Vossa Majestade tiranizando ferindo e matando a todos aqueles que se lhes não humilham ou faltam com o respeito, e obediência, que julgam se lhes deve de Justiça. Lisboa 25/06/1799”. Acrescentemos mais 3 informações. 1. Os acontecimentos que o processo relata envolveram emboscadas, bandos armados, tiroteios, facadas, pauladas, e desordens de toda espécie. 2. Ocorreram na então “Villa de Cachoeira”, localizada a pouco mais de 100 Km da capital e 3. A então “Relação da Bahia” era a mais alta corte jurídica a que se podia recorrer no Brasil de então . QUASE CEM ANOS DEPOIS, vamos encontrar em paragens mais distantes dos sertões baianos a figura de um certo Antônio Vicente Mendes Maciel, que após peregrinar por quinze anos (antes da proclamação da República do Brasil, em 1889), nos sertões da Bahia, Pernambuco, Sergipe e Ceará, funda em 1893 um vilarejo que recebeu o nome de Canudos. Estabelecido o lugar, deu-se início a uma experiência até então inimaginável no sertão baiano. Conhecido vulgarmente como Antônio Conselheiro, passou a atrair um séquito de homens livres. Na verdade sertanejos pobres e ex-escravos que não conseguiam obter sustento de forma autônoma e estavam cansados de viver sob o julgo de coronéis e latifundiários. Com o advento do novo governo, e o subseqüente aumento dos impostos, estendidos até mesmo aos sertanejos despossuídos, Antônio Conselheiro e seus seguidores passaram a ser perseguidos. Isso provavelmente não se deveu somente ao fato de eles estimularem o não pagamento dos impostos, ou mesmo por terem queimado as “tábuas de avisos” de impostos, mas também e, certamente, devido ao perigo que uma nova “autoridade” representava aos grandes latifundiários e ao novo Estado. Reza a lenda que os que chegavam a tal lugar recebiam um pedaço privado de terra para a produção; o excedente era doado a um barracão, espécie de fundo comum que distribua alimentos e garantia, assim, o sustento dos idosos, aleijados e indivíduos mais necessitados da comunidade. A LITERATURA: O chamado romance histórico como hoje o conhecemos é obra cuja configuração se pauta em uma releitura crítica de um dado episódio histórico. Ao autor não preocupa compromissos com a história oficial, mas a possibilidade de promover reflexão sobre os fatos. É indubitável que o objeto da história é um, e o da literatura é outro; entretanto, são pólos distintos que se tocam, reiteradas vezes. E é desse atrito que o romancista que produz esse gênero se vale: ao organizar informações em uma teia que não tem função de revelar a verdade buscada pela história, mas apenas criar um enredo com coerência interna. Em suma um amálgama entre personagens e acontecimentos reais e fictícios. Foi a partir das obras de Walter Scott (1771-1832) que a história se embrenhou na ficção totalmente, não apenas como acessório, mas como parte integrante da obra. O escritor escocês ambicionava que o passado fosse, de certa forma, reconstituído pela ficção. Com efeito, n a ânsia de reproduzir outras épocas e mundos, inovou. Posteriormente tivemos o nascimento de uma nova forma de romance histórico, hoje conhecida como novo romance histórico. Essa nova forma, embora elucide a trama em um passado distante do autor, não se atém a reforçar os discursos postos pela história oficial; pelo contrário, revisa-os. Dessa forma, se o romance histórico teve como pioneiro Walter Scott, o precursor do novo romance histórico é Alejo Carpentier, com a obra El reino de este mundo. São narrativas que destoam da legitimação do discurso histórico e optam pela pluralidade, dando voz àqueles colocados à margem pela história oficial, ou seja, viabiliza a apresentação de outra percepção dos fatos, dando voz não aos vencedores, mas aos oprimidos. No Brasil tivemos desde José de Alencar, outros autores que trilharam esses intercâmbios entre história e literatura, a exemplo de João Ubaldo Ribeiro, J.J. Veiga, Ana Miranda, José Roberto Toreiro, dentre vários outros. O ponto comum das narrativas é a contraposição à história oficial e a propagação da noção de verdades relativas. A multiplicidade de perspectivas possíveis faz com que se dilua a concepção de verdade única com relação ao fato histórico. E em síntese, temos que o romance histórico se constitui em uma forma narrativa que expressa o desejo de pensar criticamente a realidade, versões e interpretações e suas múltiplas possibilidades de representação no âmbito literário. Ocorrido em fins de 1896 e no ano de 1897, o episódio conhecido como “guerra de Canudos” é o triste epílogo de uma experiência empírica, cuja singularidade política e social chama a atenção. Vários foram os autores que fizeram leituras desse episódio, mas não se pode negar que é a partir de Os sertões, de Euclides da Cunha, que se estabelece uma tradição que pensa, artística e intelectualmente, o Brasil. Nessa tradição, podemos observar nomes como os de Gilberto Freyre, e seu ideal de miscigenação; Sérgio Buarque de Holanda, e o olhar crítico ao liberalismo brasileiro; Guimarães Rosa, e a gênese estética do “olhar voltado para o continente”; ou mesmo Glauber Rocha, Graciliano Ramos e outros que ajudaram a formatar a chamada estética da seca. Euclides da Cunha foi testemunha ocular do conflito como jornalista de O Estado de S. Paulo elaborou em sua obra – um mosaico de saberes -, , para gritar aos quatro ventos contra a guerra de Canudos, arraial baiano fundado por Antônio Conselheiro e dizimado pela República. AGORA UM ROMANCE HISTÓRICO: “O vaqueiro e o jornalista” romance do senhor José Huguenin, é obra que enfoca o episódio da Campanha de Canudos dentro de uma ótica interna ao vilarejo. Os protagonistas principais são precisamente Euclides da Cunha na figura do Jornalista e um simples Vaqueiro que agregado de um grande senhor de terras “coronel”, deserta da vida submissa e aviltante junto com a esposa e um filho menor para viverem em Canudos. Usando de uma técnica de alternância de tempos entre os capítulos, encontramos o jornalista que termina conhecendo o vaqueiro em uma situação limite que implica na salvação da vida do jornalista. Daí surge uma amizade entre os dois. E é então que o leitor é convidado a apostar no poder formidável que constitui o diálogo entre os homens. Embora em campos ideológicos totalmente oposto os dois conversam e o Jornalista acaba sentindo na própria pele a cruel realidade que se impunha àqueles que nasceram em uma região, historicamente caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, e que passava por grave crise econômica e social. Sertanejos esquecidos tanto pela Monarquia, quanto pela República, que à época tentava “incorporá-los” somente por meio de impostos e à bala. Antônio Conselheiro se afigurava para aquela população que se reuniu em Canudos , na personificação de uma salvação milagrosa que os pouparia dos flagelos da exclusão econômica e social. Eis porque os grandes fazendeiros da região e a igreja, iniciaram forte grupo de pressão junto à República recém-instaurada, pedindo que fossem tomadas providências contra Antônio Conselheiro e seus seguidores. Criaram-se rumores de que Canudos se armava para atacar cidades vizinhas e partir em direção à capital para depor o governo republicano e reinstalar a Monarquia. E a opinião pública acabou por acreditar piamente que o ante-cristo tinha chegado os sertões nordestinos. Veja-se o que pode acontecer quando se acredita em boatarias e não se dá ao menor trabalho de dialogar. Esse terrorismo de opiniões balizadas por meros interesses de ocasião teve seu fim trágico em Setembro de 1897. Após várias batalhas, a tropa do exército conseguiu fechar o cerco sobre o arraial. Antônio Conselheiro morreu em 22 de setembro. Após receber promessas de que a República lhes garantiria a vida, uma parte da população sobrevivente se rendeu com bandeira branca, enquanto um último reduto resistia na praça central do povoado. Apesar das promessas, todos os homens presos, e também grupos de mulheres e crianças acabaram sendo degolados - uma execução sumária que se apelidou de "gravata vermelha". Com isto, a Guerra de Canudos acabou se constituindo num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro. O saldo dessa carnificina foi o de vinte mil sertanejos mortos (inclusive na base de tiro de canhão), e cinco mil militares pelo outro lado. Mais uma das inúmeras vergonhas Brasileiras, que também pelo desconhecimento de nossa história continuam ocorrendo... 30/12/2018 Livro: “O vaqueiro e o jornalista”, romance histórico de José Huguenin – Editora Penalux – Guaratingueta – SP, 2018, 172p. ISBN 978-85-5833-422-8 Link para compra e pronto envio https://www.editorapenalux.com.br/loja/romance/o-vaqueiro-e-o-jornalista?sort=p.model&order=ASC

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