Sem nenhum exagero, "Um corpo negro" já é um dos melhores livros que li esse ano. E a cada dia que passa se torna um dos mais importantes também, já que os poemas de @lubiprates, poemas de denúncia, na minha percepção, parecem sempre falar de algo que está acontecendo aqui e agora. Desde que li, todos os dias acontece uma situação horrível que me leva de volta ao livro. A primeira vez foi no dia seguinte: um navio que partiu do Brasil, levando para os EUA refugiados congoleses que estavam passando fome aqui, naufragou, matando dezenas de pessoas. Alguns desses congoleses trabalhavam aqui como ambulantes e tiveram sua mercadoria apreendida pela polícia. Na mesma hora, me lembrei dos versos de "condição: imigrante":
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desde que cheguei
um cão me segue
&
não me deixa
frequentar os lugares badalados
não me deixa
usar um dialeto diferente do que há aqui
guardei minhas gírias no fundo da mala
ele rosna
.
(...)
.
um país que te rosna
uma cidade que te rosna
ruas que te rosnam:
como um cão selvagem"
.
Como já disse antes, e repito mais uma vez, "para este país" é o poema mais pungente e mais visceral da coletânea: a citação das últimas palavras ditas por Marcos Vinícius da Silva, "Ele não me viu com a roupa da escola, mãe?", assassinado por um policial militar na zona de guerra que é o Rio, funciona como uma estaca no coração e escancara, sem dó, a realidade do que é ser negro no Brasil.
E há muito mais. "Um corpo negro" é um livro necessário que, sem oferecer nenhum alívio, fala do desamparo, da violência, da inferioridade. Mas não há lamentação: o que os poemas de Lubi Prates propõem é que o negro resgate sua humanidade perdida e se levante dos escombros de cabeça erguida. Deveria estar sendo lido em escolas, sendo discutido em clubes de leitura, sendo espalhado por aí.
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