"Bonita como a lua” é o título de uma canção em iídiche, acalanto lembrado pelos judeus fugidos do leste da Europa. No Brasil, uma menina encontra consolo e motivo para a vida ao lembrar-se do quanto essa música representava para seu pai. “Um gênio. Aos dez anos de idade, única filha de um casal descendente de imigrantes judeus, nascida depois de muitas e várias tentativas — portanto cheia de mimos, denguices, babados e brinquedos e tudo quanto me desse na telha —, logo de mim, a unigênita, o pai queria que eu fosse nada mais nada menos do que isso — uma criança genial. Assim: tinha de saber de cor as estrofes iniciais d’Os Lusíadas (“Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”), ouvir calada e atenta — e ainda por cima gostar — a todas as árias de todas as óperas que tínhamos em casa — principalmente Una furtiva lacrima, no vozeirão de Enrico Caruso, e a Casta Diva, gravada por Maria Callas —, espremer os pés em sapatilhas nas classes de balé, assistir às terríveis aulas de piano e de inglês de dona Vivi, além das lições de francês com madame Vichy. E o pior de tudo era que sempre havia sido assim: eu tinha de saber muitas coisas. Quando pequenininha, e o pai, ao longo do tempo em que viveu não deixava que eu esquecesse o fenômeno, era sua companheira enquanto ele fazia a barba. Acomodada num banquinho ao lado da pia do banheiro, vinha a sabatina, que sempre iniciava pelo capítulo dos felinos, como o mestre fazia questão de lembrar: — Como é que faz o gatinho? (...)” Este conto faz parte da Coleção Identidade. Saiba mais em www.amazon.com.br/colecaoidentidade
Bonita como a Lua -
Cíntia Moscovich
Amazon
2018
19 páginas
38m
ISBN-10: B07KY4WSR1
Português Brasileiro
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