Em suas narrativas, o autor denuncia o que tantas vezes já foi chamado era do vazio: o tempo das relações superficiais, onde se impõem o não sentir e o não pensar, a estupidez de cada dia, o espaço reservado para o nada. Retrata a tragédia moderna de criar uma sinistra oportunidade para a destruição da alma.
A vida que não vivi -
Beto Canales
Orelha
Um jovem escritor caminha rumo à editora onde assinará o contrato de publicação de seu primeiro livro. No tempo que transcorre entre ouvir um estampido e receber o impacto do projétil que estilhaçará sua cabeça, reconstitui a vida até aquele venturoso dia que, não sabe, é o seu último. Bem assim: num instante, em meio ao trânsito da grande cidade, morre mais um poeta vitimado por uma bala perdida. A poesia — sentimento e delicadeza — explodida pelo duro metal do não-pensamento. E é isso: Beto Canales, em suas narrativas, denuncia o que tantas vezes já foi chamado era do vazio: o tempo das relações superficiais, onde se impõem não sentir e não pensar. Essa estupidez nossa de cada dia, espaço reservado para o nada. Como em ‘Insólita paixão’, onde durante todo o tempo o personagem não reconhece ser, ele próprio, a causa de seus males. Termina, no suicídio, atribuindo sua alienação ao ‘outro’. Não é por acaso que o conto que dá título ao livro, inicia com a frase “creio que estava sentado meio de lado e não vi a vida passar”. Soterrados por uma época onde ter é mais do que ser, o risco é passarmos a existência perdendo oportunidades, lembrando, só na hora da morte, o que se deixou de usufruir. Muito já se falou no artista como ‘antena da raça’. O autor de ‘A vida que não vivi’ merece essa denominação: captou e nos retrata a tragédia moderna de criar, todo santo dia, uma sinistra oportunidade para a destruição da alma. Talvez a redenção se encontre na personagem de ‘Paloma’: sua vida não está à venda, apenas seu corpo. É muito tocante a imagem dessa mulher — Bartleby redivivo — que consegue recusar a aparência. No final da leitura, só podemos agradecer a Beto Canales: bom não teres vivido essas vidas. Excelente o fato de pensares, teres te mantido íntegro e em condições de elaborar os contos deste livro. Oxalá sejamos merecedores de tal oferenda. Juarez Guedes Cruz
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