Quinta série, primeira aula de computação. O professor, um senhor magro e com óculos de grau elevado, se apresenta e pergunta para a sala "quem aqui tem computador em casa?". Todos levantam as mãos. Menos eu.
É estranho como a memória funciona. No momento em que escrevo, faz 9°C em uma casa sem calefação, e ainda assim minha pele pinica, como se ameaçasse a suar, só de lembrar a sensação de ser o único de fora de um grupo.
O autor descreve um episódio parecido em sua infância: "Embora minha família não tivesse menos dinheiro que no dia anterior, aquele momento mudou tudo para mim. Eu comecei a notar diferenças entre eu e meus colegas de classe."
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A tese principal do livro é a de que estar ou se perceber em um grupo menos favorecido, mesmo que este grupo não seja pobre em termos absolutos, causa uma série de consequências ao indivíduo e à sociedade. Era o meu caso: eu não era pobre comparado à média brasileira, afinal estudava em uma escola particular com aulas de computação; só era um dos mais pobres da sala.
Alguns dos aprendizados no âmbito individual ou em grupos reduzidos:
- Brigas em aviões são mais frequentes quando passageiros da classe econômica embarcam pela frente do avião, passando pela primeira classe.
- O desejo por igualdade de recompensas não é exclusivo de humanos. Um estudo hilário, em que dois macacos recebem diferentes recompensas, pode ser encontrado no Youtube com título "Two Monkeys Were Paid Unequaly", ou "Dois macacos pagos desigualmente".
- Um dos mais famosos exercícios mentais para determinar o quanto, em média, as pessoas desejam que as sociedades sejam iguais , é conhecido como véu da ignorância. A ideia é se perguntar "Se eu nascesse hoje, mas não soubesse se nasceria rico ou pobre, como eu gostaria que fosse feita a distribuição de riquezas?" Na média, as pessoas consideravam como ideal uma sociedade em que os 20% mais ricos recebessem um terço da riqueza, e os 20% mais pobres, 10%. Quando o livro foi escrito, em 2015, os 20% americanos mais ricos recebiam 84% da riqueza, e os 20% mais pobres, 0,1%.
- Experimentos em laboratório para avaliar os efeitos da desigualdade normalmente consistem em separar dois grupos de pessoas, e aplicar um questionário, por exemplo, sobre finanças pessoais. Para os participantes do primeiro, o pesquisador informa que eles estão acima da média entre pessoas com características similares. Para o segundo grupo, informa-se o contrário. Estar acima ou abaixo da média, neste caso, é aleatório, e é uma forma de simular a desigualdade em um ambiente controlado. Nestes experimentos, descobriu-se que pessoas do segundo grupo são mais propensas ao risco, mais impulsivas, mais supersticiosas e menos racionais. Cada capítulo do livro cobre um destes pontos.
Nestes cenários menores e mais controlados, gostei bastante do livro. Quando o livro parte para uma análise mais ampla, envolvendo comparação entre países, ele perde um pouco da força para mim.
Ele mostra, por exemplo, que o índice Gini, um dos principais para mensurar níveis de desigualdade, se correlaciona melhor com problemas sociais, como maior violência e menor mortalidade, do que a média salarial de um país. Mas não analisa se isso é causal, não leva em consideração o poder de compra, e não considera que se dois países têm médias salariais parecidas mas desigualdades diferentes, o país mais desigual provavelmente têm mais pessoas abaixo da linha da pobreza, o que pode ser um terceiro fator mais relevante. Outras relações com questões de religião, racismo e política seguem esta mesma tendência de apenas relacionar, sem dar explicações mais profundas.
No final do livro, o autor passa alguns conselhos de como se blindar da falsa sensação de que você está na parte mais baixa de um grupo, mas achei todos pouco práticos. Um exemplo bem melhor na minha opinião, que ele não chega a mencionar, é simplesmente reduzir o tempo de mídias sociais, em que é bem fácil se sentir inferior dependendo dos perfis que você segue.
Se você conhece algum livro bom sobre desigualdade social, ficarei feliz em receber recomendações :)