* Teoria social cognitiva: conceitos básicos constitui uma oportunidade relevante para o leitor compreender os conceitos desenvolvidos por Albert Bandura em sua Teoria Social Cognitiva. Essa abordagem, extremamente relevante para a compreensão completa do desenvolvimento humano, está disponível em raríssimas fontes no Brasil. A iniciativa de publicar este livro, que conta com o envolvimento do próprio Bandura em sua organização, inclui estudos atuais de brasileiros e certamente permitirá a superação de uma lacuna importante na literatura brasileira da psicologia.
Teoria Social Cognitiva - Conceitos Básicos
Albert Bandura
Trabalho escrito sobre Albert Bandura
Introdução à Teoria Social Cognitiva e a Trajetória de Albert Bandura O princípio básico da TSC: a perspectiva da agência para o autodesenvolvimento, a adaptação e a mudança. Nessa visão, as pessoas são auto-organizadas, proativas, auto-reguladas e auto-reflexivas, contribuindo para suas vidas em vez de serem meros produtos das condições. Sua educação em uma escola com poucos recursos enfatizou a aprendizagem autodirigida. Suas experiências de trabalho durante as férias também lhe proporcionaram perspectivas singulares sobre a vida. Sua escolha pela psicologia ocorreu de forma fortuita. Impacto Prático e Críticas Bandura forneceu bases para: Terapias comportamentais cognitivas (TCC), que usam modelagem para tratar fobias; Programas educacionais que valorizam o aprendizado por modelos (ex: professores como exemplos); e Políticas públicas, como campanhas contra violência baseadas em sua teoria. Prêmios e Reconhecimento Ao longo de sua carreira, Albert Bandura recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos por suas contribuições para a psicologia. Ele foi presidente da American Psychological Association e recebeu a Medalha Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a mais alta honraria científica do país. Bandura também foi incluído na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time. Conclusão Albert Bandura legou à psicologia uma visão integrada e otimista do ser humano: não somos meros produtos do ambiente ou do inconsciente, mas agentes capazes de autorregulação e transformação. Suas teorias continuam válidas porque combinam rigor científico com aplicabilidade prática, reforçando o poder da educação e da mídia como ferramentas de mudança social. Em um mundo ainda marcado por desafios como desigualdade e saúde mental, o trabalho de Bandura permanece não apenas relevante, mas essencial. Dentre as contribuições, a que escolhemos focar foi a Teoria Social Cognitiva. O valor de uma teoria psicológica não é julgado apenas por seu poder explicativo e preditivo, mas por seu poder prático para promover mudanças no funcionamento humano. A teoria social cognitiva é facilmente indicada para aplicações sociais, pois especifica determinantes modificáveis e a maneira como estes devem ser estruturados, com base nos mecanismos pelos quais operam. Os mais importantes princípios da teoria social cognitiva são os seguintes: Determinismo recíproco Agência humana Autoeficácia Modelação Auto-regulação Desengajamento moral Determinismo recíproco Existem algumas linhas de pensamento que corroboram para o sentido de que somos determinados pelo ambiente e outras de que nós somos os determinantes do ambiente. É dessa dualidade que nasce o determinismo recíproco, o qual postula interações recíprocas entre o comportamento, o pensamento (fatores pessoais cognitivos e outros) e os eventos ambientais. As pessoas não apenas reagem ao ambiente, mas também o selecionam, criam e transformam. A extraordinária capacidade dos seres humanos de usar símbolos lhes permite engajar-se em pensamento reflexivo, criar e planejar cursos de ação por meio de pensamento antecipatório, em vez de precisarem executar as opções possíveis e sofrer as consequências de atos irrefletidos. Um dos exemplos práticos é o uso da televisão. Nós (fatores internos/pessoais) escolhemos o que assistimos com base na oferta de programas televisivos (fatores externos), enquanto que o futuro da oferta de programas estaria fortemente influenciado pelas nossas escolhas dos programas (dupla influência: tanto por fatores pessoais quanto por sociais). Portanto, uma análise completa do determinismo recíproco exige a investigação de como todos os três conjuntos de fatores - cognitivos, comportamentais e ambientais - interagem reciprocamente entre si. A teoria da aprendizagem social trata o determinismo recíproco como um princípio básico para analisar fenômenos psicossociais em diferentes níveis de complexidade, variando do desenvolvimento intrapessoal ao desenvolvimento interpessoal, e ao funcionamento interativo de sistemas sociais e organizacionais. É dentro do arcabouço do determinismo recíproco que o conceito de liberdade adquire significado (Bandura, 1977b). Como as concepções das pessoas, seu comportamento e seus ambientes são determinantes recíprocos entre si, os indivíduos não são objetos impotentes controlados por forças ambientais e nem agentes livres que podem fazer tudo o que quiserem. As pessoas podem ser consideradas parcialmente livres até quando moldam condições futuras, influenciando suas linhas de ação. No processo de determinismo recíproco, reside a oportunidade para as pessoas moldarem seus destinos, bem como os limites do autodirecionamento. Crítica ao determinismo biológico: exemplo de alemães e suecos. Na escola, por exemplo, os professores trabalham para promover a aprendizagem e a confiança acadêmica dos alunos sob seus cuidados. Usando a teoria social cognitiva como referência, os professores podem trabalhar para melhorar os estados emocionais de seus alunos e para corrigir suas autocrenças e hábitos negativos de pensamento (fatores pessoais), melhorar suas habilidades acadêmicas e práticas auto-regulatórias (comportamento) e alterar as estruturas da escola e da sala de aula que possam atuar de maneira a minar o sucesso dos estudantes (fatores ambientais). Agência humana Ser um agente significa fazer as coisas acontecerem de maneira intencional, por meio dos próprios atos. As características básicas da agência pessoal envolvem aquilo que significa ser humano. Elas são: Intencionalidade: Atos realizados de forma intencional, envolvendo planos de ação e comprometimento proativo. Uma intenção é uma representação de um curso de ação futuro a ser seguido. Ela não é uma simples expectativa ou previsão de ações futuras, mas um compromisso proativo com a sua realização. Antecipação: Capacidade de estabelecer objetivos, prever consequências e selecionar cursos de ação para alcançar resultados desejados. Pelo exercício do pensamento antecipatório, as pessoas se motivam e guiam suas ações em antecipação aos eventos futuros. Quando projetada para um período de tempo prolongado com relação a questões importantes, uma perspectiva antecipatória proporciona direção, coerência e significado para a vida do indivíduo. À medida que as pessoas avançam em suas vidas, elas continuam a planejar para o futuro, reorganizar suas prioridades e estruturar suas vidas. Auto-reação: Processos de automonitoramento, julgamento e reação ao próprio comportamento em relação a padrões e objetivos. As pessoas regulam seu comportamento por meio de consequências auto-avaliativas. O monitoramento do próprio padrão de comportamento e das condições cognitivas e ambientais em que ele ocorre é o primeiro passo para fazer algo para afetá-lo. Auto-reflexão: A capacidade metacognitiva de refletir sobre si mesmo e sobre a adequação dos próprios pensamentos e ações é mais uma característica humana fundamental da agência. Pela auto-consciência reflexiva as pessoas avaliam suas motivações e valores, bem como o significado das buscas de suas vidas. É nesse nível superior de auto-reflexão que os indivíduos abordam conflitos entre incentivos motivacionais e decidem agir em favor de um ou outro. Entre os mecanismos da agência pessoal, nenhum é mais central ou penetrante do que as crenças pessoais em sua capacidade de exercer uma medida de controle sobre o seu próprio funcionamento e os eventos ambientais O poder de originar atos com determinados propósitos é a característica fundamental da agência pessoal. Se o exercício dessa agência terá efeitos benéficos ou prejudiciais, ou produzirá consequências indesejadas, é uma outra questão. O modelo triádico da agência humana A teoria social cognitiva estabelece uma distinção entre três diferentes modos de agência humana: individual, delegada e coletiva. Os três modos de agência humana são: Agência pessoal: Refere-se à capacidade humana de influenciar intencionalmente o próprio funcionamento e as circunstâncias de vida por meio de seus atos. Envolve ser proativo, auto-organizado, auto-regulado e auto-reflexivo, contribuindo ativamente para as próprias vidas em vez de ser apenas um produto das condições ambientais Agência delegada: Em muitas esferas do funcionamento, as pessoas não têm controle direto sobre as condições sociais e práticas institucionais que afetam suas vidas cotidianas. Nesse modo de agência socialmente mediada, as pessoas tentam, de um modo ou de outro, fazer com que indivíduos que tenham acesso a recursos ou conhecimentos ou que tenham influência e poder ajam em seu nome para garantir os resultados que desejam. Por exemplo, as crianças necessitam de seus pais, os parceiros, de seus cônjuges, e os cidadãos, de seus representantes legislativos para agir por eles. A agência delegada baseia-se amplamente na percepção de eficácia social para recrutar a intersecção de outras pessoas. A agência delegada pode ser usada de maneira que promova o desenvolvimento pessoal ou impeça o cultivo de competências pessoais. No segundo caso, parte do preço da agência delegada é uma segurança vulnerável, que se baseia na competência, no poder e nos favores de outras pessoas. Agência coletiva: Capacidade de membros de um grupo trabalharem juntos para alcançar objetivos comuns. Um forte senso de eficácia pessoal contribui para a percepção de eficácia coletiva. Isso toma a teoria generalizável para culturas e atividades de orientação coletiva. São as pessoas, agindo em conjunto segundo uma crença comum, e não uma mente de grupo desincorporada, que percebem, aspiram, motivam e regulam. As crenças de eficácia coletiva têm funções semelhantes às funções das crenças de eficácia pessoal e atuam por processos semelhantes. Autoeficácia São as crenças dos indivíduos sobre sua capacidade de organizar e executar cursos de ação necessários para produzir determinadas realizações. Essencialmente, as crenças de auto-eficácia são percepções que os indivíduos têm sobre suas próprias capacidades. A autoeficácia influencia diversos aspectos do funcionamento humano, como motivação, perseverança, vulnerabilidade ao estresse e escolhas de vida. O argumento básico de Bandura com relação ao papel das crenças de auto-eficácia no funcionamento humano é que o "nível de motivação, os estados afetivos e as ações das pessoas baseiam-se mais no que elas acreditam do que no que é objetivamente verdadeiro". As crenças e a realidade nunca se encaixam perfeitamente, e os indivíduos geralmente são orientados por suas crenças quando se envolvem com o mundo. Como consequência, as realizações das pessoas geralmente são melhor previstas por suas crenças de autoeficácia do que por realizações anteriores, conhecimentos ou habilidades. As quatro principais fontes de informação para a formação das crenças de autoeficácia são: Experiências de domínio: Interpretação dos resultados de comportamentos anteriores. Sucessos aumentam a autoeficácia, enquanto fracassos a diminuem, mas a interpretação é crucial. Consequentemente, as experiências de domínio são apenas dados brutos, e muitos fatores influenciam a maneira como tais informações são processadas cognitivamente e afetam a auto-avaliação do indivíduo. Experiência vicária: Observação de outras pessoas (modelos) realizando tarefas. O sucesso de outros pode elevar a autoeficácia do observador, especialmente se o modelo for semelhante. Essa fonte de informações é mais fraca do que a experiência de domínio para ajudar a criar crenças de auto-eficácia, mas, quando as pessoas não estão certas de suas próprias capacidades ou quando tiveram pouca experiência anterior, elas se tornam mais sensíveis a ela. Um modelo importante na vida do indivíduo pode ajudar a incutir crenças pessoais que influenciarão o rumo e o sentido que a vida deve tomar. Persuasão social: Encorajamento e feedback de outras pessoas sobre as próprias capacidades. Os persuasores efetivos devem cultivar as crenças das pessoas em suas capacidades, enquanto garantem que o sucesso imaginado é alcançável. E, assim como as persuasões positivas podem encorajar e empoderar, as persuasões negativas podem funcionar de modo a frustrar e enfraquecer as crenças de auto-eficácia. De fato, geralmente é mais fácil enfraquecer crenças de auto-eficácia por meio de avaliações negativas do que fortalecer tais crenças por meio de encorajamentos positivos. Estados fisiológicos e emocionais: Interpretação das reações corporais e emocionais em situações de desempenho. Quando as pessoas têm pensamentos negativos e temores sobre suas capacidades, as reações afetivas podem reduzir as percepções de auto-eficácia e desencadear mais estresse e agitação, que ajudam a causar o desempenho inadequado e temido.Uma maneira de aumentar as crenças de auto-eficácia é promover o bem-estar emocional e reduzir estados emocionais negativos. Como os indivíduos têm a capacidade de alterar seus próprios pensamentos e sentimentos, a promoção de crenças de auto-eficácia pode influenciar poderosamente os próprios estados fisiológicos. As crenças de auto-eficácia ajudam a determinar quanto esforço as pessoas dedicarão a uma atividade, quanto tempo elas perseverarão quando confrontarem obstáculos e o quanto serão resilientes frente a situações adversas. Altas crenças de auto-eficácia ajudam a criar sentimentos de serenidade ao se abordarem tarefas e atividades difíceis. De maneira contrária, pessoas com baixa auto-eficácia podem acreditar que as coisas são mais difíceis do que realmente são, crença esta que provoca ansiedade, estresse, depressão e uma visão limitada sobre a melhor forma de resolver um problema. Aprendizagem por Observação (Modelagem) Entende-se por modelação o processo de aquisição de comportamentos a partir de modelos, seja este programado ou incidental. Também se nomeia como modelação a técnica de modificação de comportamento com o uso de modelos. Em suma, é a imitação de condutas, ações, gestos e maneiras de ser dos outros. A exposição a um modelo pode ter três efeitos: a) modelar padrões de respostas que não se encontravam no repertório do observador, ou seja, através da observação de um modelo se pode aprender novas respostas; b) inibir ou desinibir respostas previamente aprendidas e que estavam "adormecidas"·, c) instigar o desempenho de respostas similares às respostas de um modelo, que no caso, funcionam como pistas. A aprendizagem vicariante, ou aprendizagem sem ensaio, é um conceito chave que explica como os indivíduos podem aprender novas respostas e alterar as existentes ao observar o comportamento de outros e as consequências associadas, através de processos cognitivos. Detalhe os componentes da modelação: Atenção: Observar e identificar as características relevantes do modelo. Retenção: Lembrar do comportamento do modelo por meio de representações simbólicas (imagens e verbais). A influência e a importância das imagens e símbolos verbais decorre de que tais códigos nos trazem informações que podem ser armazenadas e prontamente utilizáveis como pistas para reproduções posteriores de respostas imitativas. Reprodução motora: Converter as representações simbólicas em ação. A aquisição das habilidades necessárias é crucial. Fica claro assim que se um indivíduo não desenvolveu ainda habilidades de controle-motor, não lhe será possível reproduzir, por exemplo, o comportamento de escrita de um modelo que lhe seja apresentado. Reforço e motivação: As consequências antecipadas das ações do modelo influenciam a probabilidade de imitação. O reforço afeta o nível de aprendizagem observacional ao controlar a que as pessoas se tomam atentas e quão ativamente elas codificam e praticam o que viram. O reforço direto é considerado um facilitador, não uma condição necessária para a aprendizagem da resposta. Bandura (1971a) considera que a principal função do estímulo modelo é transmitir informação aos observadores sobre como organizar os componentes das respostas dentro dos novos padrões de comportamento. Mencione as fontes de modelação, incluindo demonstrações físicas, representações pictóricas e descrições verbais, bem como a modelação simbólica através da mídia eletrônica, que tem um alcance global e pode disseminar informações rapidamente. Auto-Regulação O conceito de auto-regulação emerge como uma capacidade fundamental da agência humana, referindo-se à habilidade de exercer influência sobre o próprio comportamento. Essa capacidade de autodirecionamento é central para o desenvolvimento, adaptação e renovação ao longo da vida. A auto-regulação opera através de um sistema de três subfunções psicológicas interconectadas: auto-observação, processos de julgamento e auto-reação. A auto-observação constitui o primeiro passo nesse processo, envolvendo o monitoramento do próprio comportamento, das circunstâncias em que ele ocorre e dos seus efeitos. Essa observação não é passiva; as pessoas atendem seletivamente a certos aspectos de suas ações, influenciadas por suas metas e pelo significado da atividade. A qualidade da auto-observação sua precisão, regularidade e a obtenção de feedback afeta diretamente a capacidade de promover mudanças autodirigidas. Informações claras e imediatas sobre o desempenho oferecem uma melhor oportunidade para influenciar o curso da ação. Em seguida, os processos de julgamento entram em ação, nos quais o comportamento observado é avaliado em relação a padrões pessoais. Esses padrões são construídos a partir de experiências diretas e vicárias, da persuasão social e da observação de modelos. Além dos padrões internos, essa avaliação é também influenciada por informações comparativas, como normas sociais, o comportamento de outras pessoas e as realizações de grupos de referência. A forma como interpretamos e julgamos nossas ações determinará nossas reações subsequentes. Finalmente, a auto-reação engloba as respostas auto-avaliativas que temos ao nosso próprio comportamento. Essas reações podem ser positivas (satisfação pessoal, orgulho) ou negativas (insatisfação, autocrítica) e atuam como reforços ou punições internas, influenciando a probabilidade de comportamentos futuros. Além das avaliações emocionais, a auto-reação pode envolver a administração de incentivos tangíveis para si mesmo ao atingir determinados padrões. A antecipação dessas auto-reações motiva e regula o curso das ações. A capacidade de auto-regulação não é meramente um conceito teórico; ela possui ampla aplicação em diversos domínios da vida humana. Na área da saúde, a auto-regulação é fundamental para promover a adesão a tratamentos médicos e para a adoção e manutenção de um estilo de vida saudável, incluindo a prática regular de atividade física. Programas de saúde pública frequentemente incorporam estratégias de auto-monitoramento, estabelecimento de metas e auto-reforçamento para facilitar essas mudanças comportamentais. No campo da educação, a auto-regulação desempenha um papel crucial na aprendizagem acadêmica. Alunos auto-regulados são capazes de gerenciar seus próprios processos de pensamento, sentimentos e ações para atingir objetivos educacionais específicos. É importante ressaltar que a eficácia da auto-regulação pode variar significativamente entre diferentes domínios da vida. Uma pessoa pode ser altamente auto-regulada em seus estudos, por exemplo, mas ter dificuldades em manter hábitos alimentares saudáveis. Essa especificidade de domínio reflete as diferentes habilidades, conhecimentos e crenças de autoeficácia que os indivíduos possuem em diferentes áreas. Em suma, a auto-regulação oferece uma estrutura poderosa para entender como as pessoas exercem controle sobre suas próprias vidas. Ao reconhecer a capacidade humana de se auto-observar, julgar suas ações e reagir a elas, a TSC não apenas explica o comportamento, mas também oferece um caminho para promover mudanças positivas no funcionamento humano. A aplicação dos princípios da auto-regulação em áreas como saúde e educação demonstra o valor prático da teoria para auxiliar indivíduos a alcançar seus objetivos e melhorar seu bem-estar. Desengajamento Moral e Implicações da Teoria Social Cognitiva Bandura (1977) propôs o conceito de desengajamento moral para mostrar como as pessoas podem encontrar justificativas para cometer atos anti-sociais sem se sentirem culpadas ou censuradas por isso. A ideia do desengajamento só faz sentido em uma abordagem científica que admita a capacidade humana de exercer um certo controle sobre seus próprios processos de pensamento, motivação, afeto e ações; em resumo, uma capacidade de auto-influência. A necessidade que as pessoas têm de preservar uma auto-imagem positiva e estável é um dos determinantes mais poderosos do comportamento humano, constituindo-se em um dos grandes pressupostos da psicologia social. Como é praticamente impossível negar para si mesmo o cometimento de um ato já realizado, torna-se mais fácil mudar o pensamento sobre esse ato, de modo a distorcê-lo e torná-lo menos negativo. Nesse sentido, o desengajamento moral pode ser entendido como uma forma de redução da dissonância cognitiva. Os oito mecanismos de desengajamento moral propostos por Bandura: O primeiro esquema de mecanismos funciona como uma forma de reconstrução da conduta e envolve os mecanismos de justificação moral, linguagem eufemística e comparação vantajosa. Ele se caracteriza basicamente pela transformação de uma conduta prejudicial em uma boa conduta, e mostra-se o mais efetivo no desengajamento moral. Justificação moral. Este mecanismo opera quando o que é culpável pode se tornar uma conduta pessoal e socialmente aceitável, por meio de uma reconstrução cognitiva que representa a conduta anti-social como serviço de propostas morais ou sociais valorizadas. Exemplo: Caso de Hiroshima e Nagasaki. Estou fazendo o melhor pela humanidade Existe algo pior do que a guerra? Se você tem nas mãos o poder de acabar com ela, não o faria? Linguagem eufemística. Como na figura de linguagem chamada eufemismo, esse mecanismo opera quando há um mascaramento de atividades repreensivas na forma como são nomeadas, para diminuir a gravidade da ação ou conferir-lhe um status mais respeitável. Exemplo: Caso de bullying. É só uma brincadeira Comparação vantajosa. Opera quando condutas prejudiciais parecem ter uma pequena consequência se comparadas com atividades mais repreensíveis do que elas. Quanto maior o contraste entre essas atividades, mais a conduta parecerá insignificante ou até benevolente. Exemplo: Ainda é o caso de Hiroshima e Nagasaki. O segundo esquema funciona como uma distorção do agente da ação e envolve os mecanismos de difusão da responsabilidade e deslocamento da responsabilidade. Difusão da responsabilidade. O controle moral pode ser enfraquecido recorrendo à ideia de que outras pessoas estão agindo na mesma intenção. Quando todo mundo é responsável, ninguém se sente realmente responsável. Se subdividida, a ação perde seu caráter nocivo, que só é mais claro em sua totalidade, e assim as pessoas podem se comportar de maneira muito mais cruel do que quando são individualmente responsáveis. Exemplo do caso da mulher que assassinou a bebê e todo mundo queria matá-la. Em resumo, linchamentos. Deslocamento da responsabilidade. Este mecanismo é usado quando as pessoas podem ver suas ações como emergindo de pressões sociais ou imposições de outros, muito mais do que algo pelo que são pessoalmente responsáveis. Exemplo: Fraudar empresa a mando do superior. O terceiro esquema é identificado pelo mecanismo de distorção das consequências, desconsiderando ou diminuindo os efeitos das ações anti-sociais. Distorção das consequências. Este mecanismo opera quando as pessoas acreditam fazer o mal pelo bem ou que os fins justificam os meios, minimizando o mal que causam, evitando encará-lo ou negligenciando seus efeitos nocivos. Ainda no caso de Hiroshima e Nagasaki. Um esquema final de desengajamento moral envolve os mecanismos de desumanização e atribuição da culpa. Desumanização. Este mecanismo é utilizado quando se retira das pessoas suas qualidades humanas ou atribui-se a elas qualidades bestiais. Uma vez desumanizadas elas não mais são vistas como pessoas que têm sentimentos, esperanças e interesses, mas como objetos ou animais, diminuindo a censura e o respeito humano por elas. Exemplo: Escravidão e colonização. Atribuição da culpa. Este último mecanismo opera quando as pessoas veem a si mesmas como vítimas sem culpa, pressionadas a agir de forma prejudicial por uma provocação forçada, ou então a ver suas vítimas como culpadas e merecedoras de seu prejuízo. Assim, retira-se o peso da decisão pessoal e enfatiza-se as circunstâncias ou as pessoas que a compelem a agir dessa maneira. Em uma cadeia de ações e reações sempre é possível selecionar um comportamento defensivo no outro e tomá-lo como a provocação original. Exemplo: Juliana do The Noite. A teoria social cognitiva prevê que o desengajamento moral influencia a conduta transgressiva tanto diretamente quanto pela manipulação de reações antecipadas de culpa, de orientações pró-sociais e de reações cognitivas e afetivas que conduzem à agressão (Bandura et al., 1996). É importante ressaltar que a internalização de padrões morais é totalmente dependente da interação social e que, como no ditado popular, "a oportunidade faz o ladrão". Diante desse quadro, Bandura (1986) adota uma postura otimista, argumentando que a condição humana pode ser melhorada se puderem ser mudadas as próprias circunstâncias e perspectivas que motivam comportamentos nocivos, em vez de se tentar modificar as características pessoais. É preciso então potencializar o uso de recursos a favor de um maior engajamento moral, por meio da humanização, do compromisso e da responsabilidade (Bandura, 1999). A teoria social cognitiva prevê que o desengajamento moral influencia a conduta transgressiva tanto diretamente quanto pela manipulação de reações antecipadas de culpa, de orientações pró-sociais e de reações cognitivas e afetivas que conduzem à agressão (Bandura et al., 1996). A busca pelo conhecimento em si traz benefícios humanos imprevistos. As pessoas vivem em ambientes psíquicos que, antes de tudo, são sua própria criação. - Bandura. São capazes aqueles que pensam que são capazes - Virgílio. Quando as pessoas duvidam de si mesmas, elas garantem o próprio fracasso, sendo as primeiras a se convencer dele - Alexandre Dumas. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses - Sócrates.
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