"Moralista", esse nosso (des)conhecido
Trata-se de um livro - ou mais especificamente de uma apologia, como anuncia o título - que enfoca a riqueza que se esconde sob um desses vocábulos que, hoje em dia, chega a ser utilizado como xingamento. Louis Van Delft apresenta o frescor que as reflexões de autores como La Rochefoucauld, Montaigne e La Bruyère têm para nos apresentar e de que modo esses "moralistas" são figuras essenciais na história das ideias sobre o próprio homem. O autor chama a atenção para o fato da própria palavra utilizada para descrevê-los (e que carrega uma carga tão negativa nos dias de hoje) somente se fez constar em dicionários no final do século XVII - quando aqueles autores já haviam dado sua contribuição. Ademais, o sentido de "moralista" deve ser mais detidamente analisado e, para isso, nada melhor do que recorrermos às obras mesmas do que escamotear essa palavra sem mais nem menos. De acordo com Van Delft, figuras como Sócrates e Sêneca, cada um a sua maneira, já haviam posto na ordem do dia a reflexão sobre o homem e sua condição (cabe lembrar que o próprio Cícero escreveu que, com Sócrates, a filosofia desceu do céu para a Terra). Para os autores modernos acima citados, não apenas esse tema continua pulsante, mas também o modo de escrever sobre ele reveste-se de capital importância: em vez de longos tratados e de uma postura dogmática, o texto é marcado pela brevidade, fluidez e mesmo inconclusão... é uma postura de "deixar aberto" aquilo que não consegue ser encerrado em fórmulas prontas e acabadas - o próprio homem. O autor ressalta, ainda, a atenção que outros escritores daquela época dirigiram aos estudos dos caracteres (sobretudo autores ingleses), que lhes conferiam importância capital, como se se tratasse de uma anatomia. A esse respeito, cabe ressaltar a investigação que Van Delft leva a cabo sobre o uso dessa palavra (anatomia) não apenas no âmbito propriamente médico. Outra curiosidade, nessa mesma linha de investigação, diz respeito a "teatro": se hoje utilizamos essa palavra com um sentido bastante estrito (relacionado às artes cênicas), o autor ressalta que, séculos atrás, era empregada num sentido mais amplo, como se se tratasse de uma visão de conjunto sobre qualquer assunto que fosse investigado numa obra (até mesmo cosmologia). Essa verdadeira apologia dos moralistas, enfim, é uma obra magnífica. Traz para a superfície o frescor de autores há séculos falecidos e que nos soam bastante atuais - tanto por sua reflexão bem como por seu estilo.

