Quase uma releitura de Jane Eyre
Wide sargasso sea é um sucesso incontestável de Jean Rhys e seus méritos são hoje reconhecidos muito pelo debate que ajudou a impulsionar e pelo qual também foi impulsionado: a reescritura do cânone a partir da visão e da reivindicação pós-colonial. Rhys escolhe nos oferecer a perspectiva de uma das personagens presentes em Jane Eyre que é apresentada por Charlotte Bronte como uma mulher louca: Bertha. A esposa trancafiada de Sr. Rochester é assim vista e compreendida nunca de seu ponto de vista ou a partir de sua própria narrativa, mas sempre através do "discurso" do outro. Ou seja: há aí uma violência naturalizada; tanto Rochester entende seu "feito" como algo digno e honroso, quanto a sociedade ao redor não se dispõe a contestar a versão do homem sobre o ocorrido. E a própria Jane recebe, embora com um espanto inicial, com muita tranquilidade o fato do encarceramento de Bertha. É partindo desse mote principal que Rhys busca trazer ao centro de seu romance uma releitura: mostrar como uma série de vivências desafortunadas e injustiças de uma vida trágica levaram "Bertha" ao estado de aprisionamento e legaram a ela a alcunha de "louca". O ponto forte do romance é sua mistura de linguagens ou vozes, já que somos apresentado a um contexto colonial, temos aí o flerte com a mistura de raças e a ideia nociva de que essa "melange" genética ocasionaria com o tempo uma deterioração psicológica em seus herdeiros. Essa é a primeira das acusações que pesam contra Bertha. Mas assim como em Jane Eyre, também em Wide Sargasso Sea, pouco ouvimos da voz da própria personagem, o que é um ponto positivo para a proposta de Jean Ryhs: amplia o sentimento de impotência e encarceramento inescapável que parece rondar a personalidade de Antoniette (verdadeiro nome de Bertha). O conflito colonial x metropole está por toda parte: língua (as próprias variações e apropriações do inglês já são um mérito da escrita de Rhys), cultura, saberes, valores e assim por diante. O ponto alto da narrativa é sem dúvidas a sua parte final em que Antoniette (Bertha) assume a voz narradora e, já como prisioneira na mansão do sr. Rochester, nos conduz com seu modo próprio de pensar e sentir, de enxergar sua própria história e situação. Tudo isso, claro, mais amplia nosso sentimento de injustiçamento no qual a personagem está enredada do que nos fornece algum sentimento de reparação. O romance vale como forma de conhecer não só a escrita de Rhys, mas também como meio de entender a tendência metaficcional da literatura que vigora a partir do século XX e olha para essas lacunas e injustiças contidas no cânone ocidental. Vale lembrar também que não é preciso ter odiado ou passar a odiar Charlotte Brontë, Jane Eyre ou qualquer romance vitoriano. Não se trata de amar ou odiar o cânone, aceitá-lo integralmente ou rejeitá-lo de maneira dogmática, mas antes de compreender a literatura de cada tempo e suas demandas específicas e ser capaz de apreciá-las pelo que são, não pelo que deveriam ser ou deixaram de ser.

