EntreMeios -

    Cássia Penteado

    Editora Reformatório
    2018
    128 páginas
    4h 16m
    ISBN-13: 9788566887464
    Português Brasileiro

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    Krishnamurti Góes dos Anjos02/02/2019Resenhou um livro
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    Os entreMeios da loucura humana.

    Em literatura há, em realidade, uma rotina de temas que se repetem de escritor para escritor, retomados, reabertos e/ou redimensionados, segundo a visão-de-mundo de quem os versa. Indagações, perplexidades, desequilíbrios e desesperos estão sempre a convocar e atualizar os temas básicos do amor, da morte, da loucura, vingança, etc. Qualquer escritor pode habilitar-se e deles lançar mão, sem pudor: porque mais importante que o tema a ser desenvolvido, será a maneira de explorá-lo. Um ficcionista que se preze há de ter o que dizer, e precisa fazê-lo, do contrário malogra e nos frustra. O certo, e verdadeiramente mais importante que a temática ou tema, será o meio de expressão, ou o que se denomina estilo. O como dizer aliado à visão de mundo é que dará à obra, em instância final, foros de legitimidade e originalidade. Falamos acima em loucura? Sim, falamos. Dentre suas inúmeras derivações está catalogada a loucura ‘refinada’ dos serial killeres (assassinos em série), aqueles tomados por transtornos de personalidade, os ditos psicopatas. O serial killer é um tipo de criminoso de perfil psicopatológico que comete crimes com certa freqüência, geralmente seguindo um modus operandi. A literatura policial – de entretenimento superficial – já brindou os seus aficionados com serial-killers de tirar o fôlego. Obras que rapidamente dado ao sucesso que tiveram, foram transformadas em películas cinematográficas; algumas delas de fato antológicas. Quem não se lembra do polêmico “A sangue frio” de Trumam Capote, ou do refinado Hannibal Lecter, de “O Silêncio dos Inocentes” ou ainda do enigmático Jean-Baptiste Grenouille, de “O Perfume”? Lembremos ainda outros desequilibrados (ou malucos se preferirem), compostos aqui mesmo na Brunzundanga, e com maiores densidades psicológicas, a exemplo do Luís da Silva de Graciliano Ramos (em Angústia), ou do romance “As esganadas” de Jô Soares e, mais contundente ainda, Lima Barreto em “O cemitério dos vivos”. Deste último reproduzimos um pequeno trecho: "Vista assim de longe, a noção de horror que se tem da loucura não parte da verdadeira causa. O que todos julgam é que a coisa pior de um manicômio é o ruído, são os desatinos dos loucos, o seu delirar em voz alta. É um engano. Perto do louco, quem os observa bem, cuidadosamente, e une cada observação a outra, as associa num quadro geral. O horror misterioso da loucura é o silêncio, são as atitudes, as manias mudas dos doidos." Por certo; as “manias mudas dos doidos”, trazem ecos em suas rachaduras psicológicas, sussurros em suas fendas de dor e sofrimento que afloram sob certas circunstâncias, e rugidos nas brechas de suas personalidades. Ou seja, em um espaço, coisa, tempo ou alguém que se encontra entre dois pontos, dois extremos, dois limites num intervalo. No entremeio de suas existências é que se pode vislumbrar os abismos doentios e profundos dessas almas. “EntreMeios”, é romance de estreia na literatura da senhora Cássia Penteado. Narrada em primeira pessoa a obra apresenta uma protagonista que aparenta ser cidadã respeitável - atraente, bem sucedida, artista plástica renomada internacionalmente etc. Nesse etc. entra também, a mulher dócil, muito calma, calminha, incapaz de machucar uma mosca. Até que assiste a morte inexplicável (e a tiros), de um homem na porta de um hospital em São Paulo, onde ela fora fazer exames, e isto deflagra uma série de reações psicóticas incontroláveis. A transcrição da cena vale para que o leitor possa perceber inclusive a habilidade narrativa da autora que realmente surpreende: “Busco o horizonte possível no final da rua Dona Adma Jafet, para dar vazão ao sorriso; meus olhos cruzam-se com os de um estranho e se unem num magnetismo inevitável. Mandíbulas rígidas movimentam-se em câmara lenta. Testemunho o apogeu de tensão daquele rosto belo e jovem, alternando-se no tremor dos lábios, no sacudir das maçãs das faces avermelhadas, no desgrenhar dos cabelos negros e lisos cada vez que um de seus pés impacta alucinadamente o chão. Logo em seguida, um estalo, um solavanco; um urro surdo e o olhar estatelado ainda suplica pelo meu. O corpo cai aos meus pés. Inerte. No vácuo do mesmo instante, sucede-se uma rajada de ódio, três tiros desferidos à queima-roupa tingem a cena de sangue. Ele é massa quente e disforme escorrendo dos meus sapatos, respingada em minhas pernas, em meus braços, no meu rosto. Um aglomerado de coágulos deslizando pelo meio-fio da calçada. Vermelho.” Esse acontecimento escancara o portal que levava à dimensão oculta de sua personalidade. Ao lado da comoção que tal ocorrência causaria a qualquer pessoa, a protagonista entra em estado de choque, toma entorpecentes, mas livra-se deles logo. Todavia começa a dar sinais de evidente afetação psicológica em relação aos outros, a começar por seu companheiro de oito anos, Andrew um pianista que morava em Manhattan: “Andrew nunca esteve tão atraente e animado. Aguarda-me pacientemente. Diz coisas doces e excede gentilezas. Irrita-me! Meu estômago abriga redemoinhos. Fecho a porta do banheiro atrás das costas. Arfando, molho o rosto, pescoço e nuca e, no frescor da água corrente, descanso os pulsos. Uma tentação sonda-me e eu a repudio fechando os olhos e baixando a cabeça.” ... “Andrew chega para me resgatar daquela cena bizarra. Da cascata de flashes aterrorizantes arrastando situações e épocas de minha vida para um encontro tortuoso nas águas mais profundas de meus pesadelos. Volto a vomitar”. Os dias se sucedem e algo nela peleja para vir à tona, não importa nada, o pesadelo sobe à tona com ímpeto: “No entanto, as imagens das visões e dos sonhos detinham beleza aterradora. Preciso traduzir em matéria as obras que já moram em mim; forjá-las, trazê-las à vida. Imediatamente um sorriso coxeia em meu rosto escapando, sorrateiro, do fundo do poço borbulhante da alma”. Todavia a inspiração da arte não lhe brotou. Sua situação psicológica se agrava surdamente, até que em uma bela noite em que Andrew esta dormindo, quase ela comete uma loucura. Está realmente tomada por uma espécie de dupla personalidade que dela se apossa. Interessante notar que a protagonista-narradora se exime de responsabilidades (justamente como os psicopatas agem), cria o artifício da terceira pessoa como se outra pessoa a tomasse de fato: “Sinto que não estou mais só. Seria ela que volta a acordar em mim?” Sim a personalidade doentia que leva-a a sentir prazer com a morte de um igual comete seu primeiro crime em uma viagem à Bahia para onde vai com o fito de rever uma amiga e espairecer. Não adianta. Em uma bela manhã, numa praia do litoral baiano conhece um dinamarquês, parece encantar-se por ele, bebem e caminham juntos. Vão até a cabana onde ele vive. E... comete o primeiro crime de frieza calculada, com requintes de crueldade. E eis que aterrissa de volta em São Paulo sem uma pontinha de remorso do que acabara de fazer. Sente-se no seu próprio depoimento: renovada! Mas a (sub)consciência humana tem meios de vomitar traumas e culpas, nada fica impune ou oculto para sempre. De suas elucubrações e lembranças, vão surgindo os traumas de um passado distante que vão se misturando à existência louca que assume. Das lembranças da garotinha carente de atenção e amor de sua própria mãe indiferente, à memória da perda de um grande amor/amigo, Ygor, morto de forma misteriosa. A morte ainda a atinge quando ceifa a vida da mãe em um ‘acidente’ envolvendo o pai dominador, e tudo a se misturar com os crimes que ela mesma pratica sem nenhuma piedade. A cada dia a personagem se afunda mais e mais em sua própria lama existencial que cheira a sangue coagulado. A proporção que a trama se desenvolve e os assassinatos vão se sucedendo a autora vai levantando as pontas dos véus que encobrem a história de dor e sofrimento da protagonista. Entretanto a senhora Cássia Penteado mostra-se ficcionista de apuro, não devassa todos os mistérios. Há um, talvez o mais importante, que envolve Ygor,( talvez, o único ser humano que lhe deu amor, carinho e ensinamentos), o pai e a mãe da personagem. Um mistério entregue à perspicácia do leitor. Muito bom! O leitor há de fazer algum esforço especulativo também, claro. Muito bom. Trecho no qual a personagem está prestes a cometer mais um de seus assassinatos, sempre relacionados implícita ou explicitamente ao desejo sexual. Observe-se a mudança da personalidade que se opera na protagonista. “O vinho colore, também, o limite da taça. Brindam. Com uma faca de lâmina larga, ele parte cogumelos frescos. Despeja-os nas borbulhas avermelhadas. Convida-a para sentir de perto o aroma, contornado-lhe a cintura com o braço. Forte. Os rebentos aromáticos escapam da massa semi-sólida fervendo vermelha. Coágulos. A faca descansa sobre a pia. Logo adiante, a espiral de metal do saca-rolhas recentemente usado. Ele diz algo, não ouço, ela sorri. Continuo sem ouvi-lo. Seu olhar denuncia a intenção de aproximar-se, desvio-me; ela completa a taça de vinho. O meu olhar retorna ao dele. Fujo para o outro lado dos azulejos suados. Os olhos dela escalam a parede onde há um suporte plástico. Há uma tesoura de aço, com pontas, pendurada nele. Outro gole de vinho. Minhas mãos na taça. Os olhos dela em direção ao brilho da tesoura. Ele vai para a sala trocar a música. “Supertramp. Gosta? Fique aqui, ouvindo, vou montar nossos pratos. Quero servi-la.”. Minhas mãos queimavam. Minha boca travara-se, tão seca. Sentia-me na interrupção abrupta de um sonambular. Seria fácil ligá-lo a mim! Galerista. Também tem o porteiro, as câmeras. Imploro por dentro a ela que não. Não dessa vez. Com esforço os dedos desvencilham-se das alças insistentes da tesoura. Deixei-a sobre a mesa. Abro a porta. Parti, ofegante.” A senhora Cássia Penteado, positivamente elabora uma prosa ágil, concisa e inteligente na qual entrelaça fios de um psicologismo plasmado na compreensão das obscuridades que habitam a alma humana. Verdadeiramente uma estréia promissora que há de provocar nos leitores o desejo de encontrar novas produções suas. Em nós, fica a torcida para que em breve isto venha a se concretizar. Livro: “EntreMeios”, Romance de Cássia Penteado. Editora Reformatório, São Paulo-SP, 2018, 128p. ISBN 978-85-66887-46-4 - Link para compra e pronto envio: http://www.tanlup.com/entremeios-de-cassia-penteado-1201891

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