Os moradores de Cumberland Valley, no Tennessee, estão envoltos com os estragos das fortes enchentes que acabaram atingindo a região. Ou pelo menos, assim deveriam estar. O falso moralismo religioso (latente num estado americano conservador) não vê problema algum em deixar dois moradores desabrigados só por serem um casal gay.
Esses acontecimentos são testemunhados por Asher, um pastor evangélico, dentro de sua própria casa, já que é ele quem discute com sua esposa. Lydia acredita que o pernoite de dois rapazes em sua casa seria uma influência negativa para o seu filho Justin.
Esse é o estopim para uma relação conjugal que já demonstrava certos desgastes. Apesar de ser líder de uma associação pentecostal e, por isso, durante muito tempo, porta-voz dos preconceitos mais absurdos baseados em palavras ditas sagradas, Asher ainda não foi totalmente cego para um dos principais pilares de qualquer religião minimamente séria: a ajuda ao próximo. Esse incômodo com o presente (as atitudes e pensamentos preconceituosos da esposa - uma personagem unidimensional que representa fielmente 99% dos evangélicos) vai impactar o futuro de Asher, exigindo dele ações drásticas movido pelo desespero e pelo amor que tem pelo filho. E, ao mesmo tempo, ele aproveitará a ocasião para tentar se redimir com o seu passado e retomar uma relação fraternal interrompida pelo mesmos motivos pelos quais está saindo de casa agora.
Confesso que me falta paciência pra ver, ler ou simplesmente ter contato com qualquer coisa que um crente faça. Cada linha descrevendo algo relacionado a eles, a virada de olho para cima (🙄) é certa. Mas, mesmo com esse impulso narrativo necessário, o autor Silas House desperdiça a chance de explorar personagens com grande potencial. Luke, o irmão do protagonista, por exemplo.
A metade final da história acompanha Asher e Justin após a medida drástica optada pelo pai que se vê preso numa espiral de pressão exercida pela igreja que o condena veementemente apesar de todas as suas defesas. A partir desse momento, a narrativa cai num looping de situações que pouco agregam à trama principal. São páginas que poderiam ser bem melhor aproveitadas se houvesse um investimento maior na reconciliação dos irmãos. É algo para o qual se cria uma grande expectativa (são informações que constam na sinopse de capa/contracapa inclusive) e que é atendida de forma pífia. Para se ter uma ideia, não há uma linha de diálogo quando Asher e Luke se encontram pela primeira vez, embora eles estivessem anos sem falar um com o outro. As boas intenções da obra para com a comunidade LGBTQIA+ se fariam ainda mais presentes se esse reencontro fosse bem mais explorado.