"A vida flui dentro de um ritmo encontrado de cada um. Porém, ora ali e ora aqui, as coisas saem do trilho, quase deliram e retornam ao eixo ritmado de novidade. Somos complexos e complexados, mas coisas simples podem nos salvar. Uma informação precisa, colocada pontualmente no tempo e no lugar certo, pode ocasionar um ato salva-vida. Pois bem, foi deste modo que ontem fui salvo pelas formigas. O real se encaixa aos bons observadores, àqueles que escutam com os olhos e presença." Reconheci imediatamente Eduardo, me esperando na Rodoviária da pequena cidade do interior de Minas. Ele me pareceu menor e mais magrinho do que nas fotos estampadas no Facebook. Nos conhecemos pelo jeito, que aqueles que se tornam conhecidos dele pelo mesmo jeito que eu, sabem como é: de repente, você recebe um pedido de amizade de um cara com cara de menino, sorridente e de quem você nunca ouviu falar. Mas, que nas primeiras palavras escritas/trocadas por um desses aplicativos de mensagens, parece que é um velho conhecido. Mesmo que eu tenha idade para ser seu avô. Naquela época – já se vão quase 3 anos – ele terminava ainda seu curso de Psicologia, mas falava tantas coisas ao mesmo tempo, que parecia que o mundo, debaixo daquele solzão, caía na minha cabeça numa torrente de palavras. As palavras, para o Eduardo, são mesmo a marca do humano. Não por acaso, ele encontrou na psicanálise – no seu estudo, na sua prática como analista, na sua disposição para deitar-se no divã – um ancoradouro. Mesmo sabendo que os barcos – como a pulsão – nunca estão definitivamente amarrados e que, balançando ao sabor da maré, eles podem se soltar e pairar, sem destino pré-fixado, sobre as águas. Mas, por isso e, mesmo assim, ele escreve. Eduardo é escritor, é poeta, é artista. Agora, estamos diante de formigas. Mas, não se espere a mera repetição da famosa fábula eternizada por La Fontaine. Nesse novo livro do Eduardo, as formigas não são apenas aquelas que, operárias diligentes, representam a contraposição apolínea do êxtase dionisíaco das cigarras. Elas aqui, trazidas pelo relato da irmã, são as mensageiras de uma notícia nada alvissareira. Elas sinalizam, alegoricamente, que o açúcar é o excesso – ou a falta- que transforma o seu corpo, que o torna frágil e exposto a tantos riscos, riscos que o acompanharão pelo resto de sua vida. Eduardo, entretanto, transforma essa notícia num pretexto para continuar escrevendo. A (má) notícia opera sobre ele uma transformação, da qual a escrita é testemunha. Pequenos textos, pequenos poemas, alguns maiores, quase crônicas, quase relatos autobiográficos, quase experiências extremas e radicais com a linguagem, tão próprias da literatura que vem das Gerais. Reunindo essa disparidade de estilos nesse livro, imediatamente após esses dias passados num hospital, Eduardo devolve ao seu corpo, pelo rumor da língua, a força que as pequenas formigas têm ao carregarem toneladas de açúcar. Pessoalmente, não nos vimos mais desde aqueles dois dias, entre palestra, conversa, lançamento de livro e noite com música, comida e muitas histórias. No céu, eu procurava aqueles céus, com os quais Riobaldo parecia entretecer uma infinita conversa. Mas, distantes, ao mesmo tempo estamos sempre juntos, mesmo que o Eduardo esteja numa tribo quase perdida em Mato Grosso e eu, perambulando pelo mundo. Entre nós, como um laço indissolúvel, esse mesmo amor pelas palavras, sem as quais a vida não só fica mais entediante, como também mais banal. Não que a banalidade da vida, do cotidiano, não tenha a sua complexidade e a sua beleza. É que nos tempos em que vivemos, mesmo a banalidade pode, a qualquer momento, perder sua complexidade e sua beleza. Mas, contra isso, esse antídoto poderoso: a escrita. Mas, esse antídoto não é um consolo, uma reconciliação com as promessas da eterna felicidade, de um mundo sem dor, sem sofrimento, sem finitude, porque como escreve Eduardo, “a psicanálise não é um conto de fadas”. Que os leitores desse livro, se deixem encantar pelo que ele diz e que cada um procure, do seu jeito, da sua maneira, se assim quiser, o que ele não-diz dizendo. Ernani Chaves, Professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará. Tradutor de Freud, Nietzsche e Walter Benjamin.

