De Arquimedes a Einstein - A face oculta da invenção científica

    Pierre Thuillier

    Jorge Zahar
    1994
    257 páginas
    8h 34m
    ISBN-10: 8571102724
    Português Brasileiro

    Afinal, o que é ciência? Como nasceu? Como os cientistas engendram suas teorias? Será que dispõe de um "método" definido que garanta a "verdade" de seu saber? Seria a atividade dos físicos e biólogos "objetiva" e "racional" do início ao fim? Pode-se saber com segurança se uma nova teoria deve ser aceita ou rejeitada? Para os que adotam uma visão "mística", a ciência seria um conhecimento sagrado e protegido por rígidos tabus. Uma longa tradição, aliás, convida a profanos a venerá-la como uma atividade superior. Atualmente, se o estilo evoluiu, a prosa continua a mesma. Já para os empiristas, o homem de ciência, dispondo do Método Experimental, garantiria automaticamente o valor dos resultados obtidos: ele seria simplesmente um observador paciente e atento, uma humilde abelha que busca, laboriosa, sua imensa provisão no campo da experiência. As duas abordagens, contudo, estão de acordo com este postulado: o verdadeiro cientista não tem subjetividade, sendo iluminado e movido pelo Amor ao Saber. O homem de ciência se comporta como se não tivesse afetividade, paixões, cultura, convicções pessoais herdadas de seu meio e de sua educação, como se não tivesse história nem tampouco, é claro, inconsciente. Para adeptos desse purismo cognitivo, como Pascal, "o eu é execrável". É o exame dessas questões (e de outras do mesmo gênero) que são consagrados os ensaios deste livro. Trata-se de estudos de caso destinados a "complicar" a imagem de diversos manuais e obras de vulgarização apresentam das atividades científicas. Para isso, Pierre Thuillier aborda desde a noção de espaço e perspectiva no Quatrocento até a teoria atômica, de da Vinci a Newton, de Galileu a Darwin, de Arquimedes a Einstein. Na ciência, a objetividade constitui um ideal. Quem não sonha com a ciência perfeita, que mostre a natureza como ela é? Mas entre sonhos e as realizações, a distância é grande.

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    Celso Zenaro10/07/2025Resenhou um livro
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    Rupturas, Vaidades e Poder: O Outro Lado da Invenção Científica

    Em D’Archimède à Einstein: Les faces cachées de l’invention scientifique (1988), Pierre Thuillier oferece uma análise incisiva e multifacetada da ciência, desafiando as narrativas tradicionais que a consagram como um empreendimento puramente racional, objetivo e desinteressado. Thuillier desconstrói o mito da ciência como uma marcha linear e inevitável rumo à verdade, expondo o que ele chama de “faces ocultas” da invenção científica: os fatores humanos, sociais, políticos, ideológicos e contingentes que moldam decisivamente a produção do conhecimento. A tese central do livro é que a ciência não pode ser compreendida como uma atividade asséptica, neutra ou desvinculada de contextos históricos. Ao contrário, Thuillier argumenta que ela é uma prática profundamente enraizada em tempos, espaços e redes de interesses, paixões, rivalidades e estratégias de poder. Ele rejeita a historiografia heroica e linear que canoniza cientistas como Arquimedes, Galileu, Newton e Einstein como gênios isolados, movidos exclusivamente pela busca desinteressada da verdade. Em vez disso, o autor revela como suas descobertas foram condicionadas por circunstâncias extrateóricas, incluindo ambições pessoais, disputas institucionais, pressões políticas e até erros interpretativos. Para ilustrar essa perspectiva, Thuillier analisa casos emblemáticos que desconstroem a imagem consagrada da ciência como empreendimento puramente racional e desinteressado. Arquimedes, comumente exaltado como o arquétipo do gênio matemático, é retratado como um engenheiro militar a serviço de Siracusa, cujas invenções — como catapultas, guindastes e espelhos incendiários — foram concebidas em um contexto de guerra contra os romanos. Esse exemplo subverte a imagem idealizada do cientista alheio aos interesses terrenos, mostrando como o saber técnico frequentemente se entrelaça com fins utilitários e bélicos. Galileu Galilei, por sua vez, é apresentado não apenas como o mártir da razão frente à Igreja, mas como um hábil estrategista político e retórico. Diversas ações concretas reforçam essa leitura. Em 1610, ao publicar Sidereus Nuncius, Galileu dedicou a obra aos Médici e nomeou os satélites de Júpiter como "estrelas mediceanas", numa clara tentativa de obter patronato político e prestígio institucional. No mesmo movimento, abandonou o latim acadêmico em algumas obras e escreveu em italiano, buscando atingir um público mais amplo e conquistar apoio fora dos círculos eruditos. Em Diálogo sobre os Dois Máximos Sistemas do Mundo (1632), obra fundamental para a defesa do heliocentrismo, Galileu recorreu a um recurso polêmico: colocou na boca de Simplicio — personagem que defendia a visão geocêntrica aristotélica e que se tornava o alvo de ridículo — os argumentos que haviam sido utilizados pelo próprio papa Urbano VIII, que até então era seu aliado. A publicação foi interpretada como uma afronta direta à autoridade papal, e a escolha do nome "Simplicio", com conotação de ingenuidade ou estupidez, ampliou o tom de provocação. Esse gesto, mais do que científico, foi percebido como político e retórico, e teve consequências graves: resultou no julgamento do Santo Ofício e na abjuração forçada de Galileu. Além disso, Galileu insistiu em apresentar os resultados de suas experiências de maneira mais convincente do que transparente. Por exemplo, ele frequentemente omitia erros ou dificuldades nos experimentos com planos inclinados e com o pêndulo, dando a impressão de que as leis que propunha derivavam diretamente da observação, quando, na verdade, havia nelas grande grau de idealização matemática. Essas omissões tinham o intuito de reforçar sua autoridade científica diante dos rivais. Assim, Galileu se revela como um cientista inteiramente inserido nas disputas culturais e institucionais do seu tempo, um homem que aliava talento científico a uma notável capacidade de autopromoção, manipulação simbólica e construção de alianças estratégicas. Sua ciência era, como mostra Thuillier, inseparável do jogo de forças e convenções que moldavam o campo do saber na Itália do século XVII. Juntando-se a outros exemplos — como Isaac Newton, cuja reputação foi marcada por intensas rivalidades, especialmente com Robert Hooke e Gottfried Wilhelm Leibniz. Com Hooke, Newton disputou o mérito por descobertas sobre a óptica e a gravitação: quando publicou seus trabalhos sobre a luz, minimizou as contribuições de Hooke e chegou a apagar suas menções nas edições posteriores dos Principia, após a morte do rival. A disputa com Leibniz, por sua vez, envolveu a invenção do cálculo diferencial. Embora hoje se reconheça que ambos desenvolveram o cálculo de forma independente, Newton — que era presidente da Royal Society — usou sua posição para influenciar o comitê que julgou a disputa, garantindo o reconhecimento oficial de sua primazia e lançando dúvidas sobre a honestidade de Leibniz, em um episódio que combinou vaidade, poder institucional e manipulação retórica. Outro exemplo revelador é o de Louis Pasteur, frequentemente retratado como herói da microbiologia e da higiene moderna. Thuillier expõe como Pasteur manipulava a apresentação de seus experimentos, omitindo dificuldades, ajustando cronologias e, em alguns casos, apresentando conclusões como se fossem resultados de testes conclusivos, quando na verdade eram baseadas em hipóteses ainda em aberto. No célebre caso da vacina contra o antraz, por exemplo, Pasteur atribuiu publicamente o êxito do experimento ao uso da atenuação por calor — sua teoria preferida —, quando na prática a preparação da vacina foi feita por seu colaborador Charles Chamberland por outro método. Da mesma forma, na disputa contra a teoria da geração espontânea, Pasteur omitiu falhas metodológicas e silenciou objeções relevantes, reforçando a impressão de vitória científica absoluta e incontestável. A proposta do livro visa desafiar a concepção positivista e iluminista da ciência como uma atividade universal, descontextualizada e baseada em verdades objetivas que transcendem culturas e valores. Para Thuillier, até os critérios de validação científica — o que é considerado “científico” ou “não científico” — são historicamente condicionados, resultando de consensos institucionais que podem marginalizar outras formas legítimas de conhecimento. O autor também contesta a ideia de progresso científico como um processo cumulativo e irreversível. Em vez de uma escada linear rumo à verdade, ele propõe uma trajetória não linear, marcada por rupturas, crises, regressões e escolhas arbitrárias. Essa perspectiva alinha-se à noção de paradigmas de Kuhn, mas Thuillier vai além, enfatizando os aspectos políticos e culturais que as narrativas positivistas tendem a ocultar. Ele argumenta que a racionalidade científica não é uma forma pura de pensamento, mas uma construção histórica permeada por exclusões e estratégias, o que exige uma abordagem crítica para compreender seus limites e pressupostos. Um dos pontos mais contundentes da obra é a crítica ao cientificismo, entendido como a crença na ciência como a única forma legítima de conhecimento, dotada de autoridade absoluta para explicar o mundo e a condição humana. Thuillier vê o cientificismo como uma ideologia moderna que transforma a ciência em um mito secularizado, herdado do Iluminismo, com a promessa de emancipação universal por meio da racionalidade técnica. Ele alerta que essa visão idealizada obscurece os vínculos da ciência com interesses econômicos, políticos e militares, e pode levar a um novo dogmatismo, no qual a autoridade científica substitui a religiosa. Embora reconheça as conquistas da ciência, Thuillier rejeita sua pretensa neutralidade ou superioridade moral. Ele mostra que muitos avanços científicos foram impulsionados por guerras, ambições coloniais, rivalidades pessoais ou interesses econômicos — elementos que as narrativas oficiais frequentemente apagam. Sua crítica ecoa em pensadores como Feyerabend, que questionam a linearidade do progresso científico, mas se distingue por sua ênfase nas ilusões de pureza cultivadas pelas elites científicas. Thuillier não busca deslegitimar a ciência, mas libertá-la do pedestal mitológico, tornando-a objeto de reflexão filosófica, histórica e ética. Thuillier não nega a eficácia da ciência nem questiona a existência de critérios legítimos de validação, como a experimentação controlada, a coerência lógica ou a revisão intersubjetiva entre pares. Sua crítica não se dirige à prática científica em si, mas sim ao cientificismo, entendido como a ideologia que absolutiza o saber científico, convertendo-o em critério exclusivo de verdade e modelo único de racionalidade. Nesse sentido, ele combate aquilo que poderíamos chamar de absolutismo epistêmico moderno — a crença dogmática de que a ciência é intrinsecamente neutra, cumulativa, objetiva e autossuficiente. Essa mitificação da ciência, longe de ser apenas um erro filosófico, possui efeitos profundamente perversos. O cientificismo atua como uma máquina simbólica que deslegitima outros modos de saber — filosófico, ético, religioso, estético ou popular — reduzindo a complexidade da experiência humana àquilo que é mensurável, previsível e tecnicamente manipulável. Além disso, ao dissimular as determinações históricas, políticas e econômicas que atravessam a prática científica, o cientificismo encobre os mecanismos de poder que operam sob a aparência de neutralidade, legitimando tecnocracias, biopolíticas e formas sutis de dominação cultural. A abordagem de Thuillier possui implicações pedagógicas decisivas para o ensino das ciências, sobretudo ao distinguir entre formação crítica e aprendizado técnico. Enquanto o aprendizado técnico foca na aquisição de habilidades operacionais, no domínio de fórmulas, protocolos e procedimentos, a formação crítica envolve a compreensão dos fundamentos epistemológicos, históricos e sociais que sustentam a prática científica. Trata-se de educar não apenas para o “como fazer”, mas para o “por que fazer”, “para quem” e “com que implicações”. Ao enfatizar a historicidade do conhecimento, Thuillier propõe que o ensino científico vá além da transmissão de conteúdos e passe a incluir a reflexão sobre quem produz o saber, em quais contextos, com que motivações e a serviço de quais interesses. Essa perspectiva permite questionar o suposto caráter neutro da ciência e desmascarar sua instrumentalização ideológica por projetos de poder.

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