Rico em referências, o poeta Gilvair Messias mostra que bebeu de muitas fontes para construir seu próprio estilo, que é rico daqueles elementos próprios ao texto poético – como a polissemia, as aliterações, o ritmo. Mas além da forma, há um ser perplexo diante do mundo, quando se pergunta “O que direi do que não senti? Não sou dado ao raciocínio exato” (Ignorância); e totalmente absorvido pela recriação desse mesmo mundo incompreensível, através da arte poética que, na minha apreciação, tem seu ponto alto nos versos “Havia um grão de menino no meio da praia/ E dentro do menino havia a praia/ E na praia, o vazio do mundo/ E, no mundo, a miudeza de um menino" (O mundo num grão de areia). [...] Gilvair Messias é teólogo e o sagrado se lhe revela em tudo à volta. [...] Livro de estreia, sim, mas que nasce maduro. Ou seria melhor dizer, que nasce pronto a se desfazer, a ser refeito por outros olhares poéticos. [Por Marco Túlio Costa]
A fábrica das desfeituras -
Gilvair Messias
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Ver maisEntre o literário e o sagrado em A fábrica das desfeituras, de Gilvair Messias
Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ) Neste livro de poemas do padre Gilvair Messias, A fábrica das desfeituras (Penalux, 2018), o poeta aqui em questão busca apontar as semelhanças e não as diferenças entre os discursos religioso e literário. A fábrica é o que cria algo novo, dá vida a um objeto para que ele circule entre nós. Messias quer fazer circular nossa essência humana para que ela frutifique e encontre outras raízes no solo divino. De forma contrastante esta fábrica desfaz a aparência, desconstrói as coisas e seu peso ilusório para nos trazer a chama da alma. Ao desimaginar as coisas supérfluas, o eu-lírico atinge o estado real das coisas, desmembrando as cascas entorpecentes de nossos olhos que são ávidos por tocar o véu dos objetoss mundanos. A fábrica das desfeituras destrói a palavra externa para que uma viagem interior, dentro do ser original, em estado de permanência se amolde na face de Deus. Ele desfaz tudo que é superficial e nos entrega à verdade da palavra inaugural, feita verbo divino a costurar um mosaico de experiências verdadeiras e sagradas. No poema que abre o livro, “Vida de poeta”, temos a intertextualidade e seu poder de formar uma teia elementar com outros, criando-se assim uma diferença com relação ao modelo para que o novo texto desfaça as palavras originais em novos sentidos e objetivos para que se atinja um estado de sacralidade do poético e sua força persuasiva. No poema, temos um diálogo com Drummond, desconstruindo-se assim uma fábrica de outros para que o novo aconteça: “Quando nasci um anjo estranho/Sussurrou aos meus ouvidos:/Você nunca saberá o que quer da vida/Amará muito e não se sentirá suficientemente amado”. O poeta é sempre um buscador insatisfeito, procurando o mais, o que vai além do mediano e do cotidiano. O itinerário do desconhecido aponta outras bússolas, diferentes da massa enganadora do mundo com seus objetos de satisfação e prazer intermináveis. A desfeitura é buscar algo que transcenda o meramente factual, para que o poder do imaginário e do pensamento aconteça. No poema “Cio”, encontramos: “Desperta-me a fertilidade/E eu que sou homem de ressalvas/Descubro-me no útero dos pensamentos/Tudo fumega na acidez/E quer o sexo das palavras/O que nascerá desta gravidez/Chamar-se-á poema”. Aqui temos as imagens do fundo e da superfície. O que faz emergir da profundeza física algo intelectual. O erotismo do verbo explode em chamas. A origem da palavra, do poema está na vida pulsante em torno de nós. A carne das palavras está nos pensamentos. O pensamento é feito de substância, carne e não está num espaço longínquo, inalcançável. Octavio Paz, o grande poeta e ensaísta, dizia que a poesia é “erotização da linguagem”. Neste sentido, a palavra se solidifica na força erótica do mundo a criar as mais belas imagens e metáforas que une o corpo à linguagem. A poesia de Messias também é feita de outros. A outridade é o espaço em que o diálogo é possível. E mais uma vez comparece em sua poesia a intertextualidade com outros autores, produzindo-se assim uma curva barroca, espiralada, onde a diferença do novo poema desfaz a fábrica anterior com olhares inusitados e também criativos. Desta vez, o entretexto é com Fernando Pessoa e a nova poesia capta uma atual leitura com relação ao outro. Em “Solidariedade poética”, temos: “O poeta é um sentidor/Sente a dor sua/Tão sua que é de outro/E no sentimento sentido/Sem medo/Põe o dedo na ferida do mundo”. Neste sentido, aqui, encontramos uma relação entre o poético e a essência do cristianismo que é a caridade. O que é fraterno é este abarcar o outro numa mesma teia existencial. Uma malha é tecida pelo verbo em que eu posso inserir o meu irmão. A reflexão não é pura. Ela também é feita de sentimento. Como Fernando Pessoa, Gilvair Messias une o pensar e o sentir, a dupla face do poético, que é feita da lança pontiaguda dos pensamentos que pode tocar as águas das emoções a produzirem movimentos múltiplos em seus enredos. No espelho múltiplo que reflete o outro, podemos encontrar a simplicidade da vida que é capturada pelos tons complexos do intelecto. Neste sentimento do mundo, como diria Drummond, encontramos uma clareira aberta para os enigmas da existência. Sua poesia tem muito de corporal, de visceral, mas que não deixa o plano abissal dos pensamentos e seus fantasmas. Messias tem fome de vida. Temos assim uma poética da vida e de tudo o que ela representa para o eu-lírico. Esta vivência se queima no fogo do sagrado. No poema “O mundo num grão de areia”, podemos perceber o jogo entre as palavras, onde encontramos o paradoxo da arte, ou seja, a delicadeza da imensidão se encontra nos pequenos detalhes: “Havia um grão de menino no meio da praia/E dentro do menino havia a praia/E na praia, o vazio do mundo/E no mundo, a miudeza de um menino”. Assim, encontramos a identidade das coisas a partir das palavras, onde os pares opostos se intercalam através da vida. Temos o cruzamento de ideias bem elaboradas, trabalhando com os conceitos. A infância é vivida com profundidade, alcançando uma lembrança arquetípica. O arquétipo do menino pode recolher tudo o que há no mundo. E este pode atrair para si a gota pequenina do oceano. O menino funciona como metonímia do mundo. Ele abarca tudo, até as vidas adultas, pois a plenitude da criança é feita de todos os seres do mundo. A infância é a busca do elo perdido, da totalidade e da visão do paraíso. A unidade de tudo e de todos é possível, assim como a unidade entre palavra e ato, poesia e experiência religiosa. No poema “Deverás”, dedicado a Adélia Prado, temos a relação fonte – influência na vida do poeta Gilvair, pois a poesia mística desta excelente poeta fazia uma ponte entre o feminino e o sagrado que Messias enaltece muito bem: “Com o dedo feminino de Deus/Que harmoniosamente me ordenava:/Deverás!”. Na sua poesia religiosa, há várias referências bíblicas como Sansão, por exemplo, entre outras. Em Gilvair há uma vivência poética/estética do sagrado. Se os homens são feitos à semelhança de Deus, Este se assemelha aos homens em suas cotidianidades. Deus é feito carne, no antropomorfismo inserido na vida, na terra: “Os anjos se lambuzam na barba de Deus”. Assim, é possível a ponte, a via de comunicação entre o celestial e o terreno, entre Deus e os homens. Aqui temos a presença de Deus e não sua ausência e incomunicabilidade. Não é o Deus que se esconde, mas o que se revela como numa “sarça ardente”. Temos, dessa forma, o Deus da revelação. Alimentos como café, mel, açúcar são inseridos na face de Deus. Ele revela sua face carnal, viva. Gilvair Messias sabe jogar com as palavras, trabalhando com palavras parecidas em sonoridade. O homem querendo ultrapassar o meramente humano é possível até rasgar “o céu aos avessos”. No poema “Encarnação, temos mais uma vez a aproximação Deus/homem. Aqui, a hiperbolização do real flui com naturalidade, fazendo nos aproximar do divino em sua essência: “E choro até a última gota do verão”. O prazer, o sensório, o vinho também aparecem. O poeta persa e místico Rûmi do século XIII nos falava do poder do vinho e do acesso ao sagrado. Saindo do plano terreno para alcançar o céu, encontramos as facetas duplas do mundano e do espiritual. “No sexual embate de ser Deus e gente ao mesmo tempo”. Deus se solidifica na vida, nas entranhas da terra. No poema “Desfeitura”, nos deparamos com a concepção socrática do não saber e de várias correntes místicas. A desfeitura das palavras se encontra antes e depois do que vêm delas, o alfa e o ômega do silêncio e seus intervalos. Messias, por outro lado, aqui, desfaz os véus do engodo linguístico: “Eu quero um lugar onde eu não precise de palavras”. Finalizando, no poema que fecha o livro, “Poema para quem ainda vai nascer”, encontramos a vida e a morte do silêncio, pois a linguagem retorna com seu poder de nomeação, onde cada coisa e pessoa adquirem sua identidade em meio à multiplicidade da criação, para que se descubra a potência essencial de cada um. Portanto, nesse livro excepcional, Gilvair Messias une o sagrado e o literário numa via de mão única, percebendo seus matizes e analogias. É como se ele atravessasse com a flecha do divino o coração dos versos sempre renovados, traduzindo um mundo de possibilidades. A criação de desfeituras dialoga com outros poetas e tradições, elevando no meio literário uma nova voz que ressignifica o passado com os saberes do presente. A atualidade de sua poesia se casa com o antigo, produzindo um hibridismo dilacerante e sutil, ao mesmo tempo. Sua voz polariza ambiguidades e corta o limite entre os conhecimentos que poderiam parecer díspares pelo véu da razão. Messias consegue fazer esse elo e revelar que pela força do poético de pode traduzir a experiência subjetiva de Deus pelo eu-lírico que demonstra muitas facetas, como o literário requer.
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