Cândido Rolim põe em movimento um poema cujo ritmo (mais próximo a uma performance da enunciação vocal do que a uma forma impressa acabada) joga com a indeterminação dada pelos cortes (marcações) dos versos e pela sintaxe elusiva. É por isso que me refiro ao verso do Rolim como uma frase fraturada, como um enunciado que parece se situar a meio caminho do subjetivo ao objetivo. Para Cândido Rolim, cada poema inaugura e ao mesmo tempo exaure uma chance de linguagem: um verdadeiro e jubiloso acabar-começar textual. (Ronald Augusto)
pedra habitada -
Cândido Rolim
O grande pequeno livro
Se os aforismos não devem ser entendidos como verdades irrefutáveis, é inegável também que em determinados contextos, eles são metáforas perfeitas, o que ocorre com este livro: os melhores perfumes estão nos menores frascos. o livro cabe na palma da mão; as orelhas não têm texto; os trinta e seis poemas, dos quais, o maior tem quatro estrofes, são em letras minúsculas e estão nas páginas ímpares; há alguns monósticos, outros com uma única palavra em cada verso e só um pontuado; nenhum tem título, exigindo assim, uma capacidade maior de concentração, concatenação de ideias e decodificação por parte de quem o lê. todos os poemas são em versos livres, dentre os quais, há lacunares; polimétricos; lexicais; metafóricos; com pausas marcadas por espaços, resultando em uma mescla de poesia discursiva e visual; metalinguísticos - meu recurso literário favorito - e em um deles, a palavra é materializada; a antítese está presente não apenas como figura de estilo, mas também em elementos aparentemente incompatíveis. as páginas pares funcionam como um respiro na leitura, visto que há muitos poemas com questões densas como a morte, embora ela seja abordada com naturalidade. entre as várias temáticas estão: desejo, contemplação do ser amado, lágrima, água e mar. quando eu lia um poema, criava um nome para ele e foi um exercício interessante descobrir que há um índice no fim do livro, reler cada um e perceber que muitas escolhas do autor dialogavam com as minhas e quando isso não acontecia, me entendi cocriadora do livro, vivenciando a aliança escritor/leitora de uma das maneiras de que mais gosto. esta construção é genial: obra pedra nasceu breve [...] o que mais me chamou atenção foi a multiplicidade de formas dos poemas e destaco o que mais me impressionou: graça deus lhe dê uma morte sem janela plano perigo morte sem norte sem o rumor de sempre o posfácio, do ronald augusto, poeta, filósofo e crítico gaúcho, é um livro à parte, pela sua análise aprofundada. o autor é também ensaísta, crítico, advogado e fotógrafo amador; ele tem publicações em jornais e revistas do país e do exterior e escreveu ainda 'fragma'; 'rios de mim'; 'arauto'; 'camisa qual'; 'exemplos alados' e 'sutur'. recomendo muito.
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