"O povo está do nosso lado. Ninguém quer saber dessa história de comunismo. As famílias não querem. Alguém precisava fazer alguma coisa. Foi o povo que pediu a Revolução. E o exército apenas protege a vontade do povo."
Marcos Vinícius Rodrigues, natural de Ilhéus-Ba e nascido em 1968, é escritor e professor da UFBA. Em sua obra, absolutamente impecável, 'A Eternidade da Maçã', o autor narra um dos momentos mais importantes da história nacional: a ditadura militar.
"Eles já tinham prendido todos, em todos os esconderijos, em todas as fugas."
O livro é uma coletânea de conto, em que cada um deles tem uma data antes do título, desde de 1964 até 1978. Os títulos são, geralmente, frases de música de Caetano ou de Caetano e Gil, assim como a citação antes de cada história.
Apesar de independentes, cada narrativa se cruza. Seja pela luta contra os militares, ou apenas pelas referências geográficas das ruas e lugares de Salvador. A leitura flui, pois cada narrativa prende o leitor de forma louca. O autor não foca na crítica contra esse período conturbado, mas ela está ali, quase sutil, transparecendo em cada personagem.
"Agora era preciso calar e sobreviver."
Ao falar do particular, o autor conseguiu expor divinamente o coletivo. Traição, vingança, medo, tortura e luta. Em meio a sua narrativa quase inofensiva, de jovens apaixonados ou de um homem no hospital, o autor consegue abarcar todas essas temáticas, e representar tão bem esse período que não deve jamais ser esquecido.
Cada conto deixa o final em aberto, prendendo o leitor em seu mistério. Sem nunca saber o que vem a seguir. Sem saber se ao virar a próxima página encontrará uma fuga e final feliz ou o fusca verde, quase imperceptível, de um militar, prontinho para te pegar.
"Era preciso mentir, fingir que estava tudo bem, que o país ia dar certo, que não tinha tanta gente sumindo."