Uma das vencedoras do II Concurso Nacional de Dramaturgia: ‘Seleção Brasil EmCena”, cuja Leitura Dramática aconteceu no CCBB-Rio, sob a direção de Ivan Sugahara. No elenco: Daniel Kristensen e Sylvia Oliveira. Ele, um simples trabalhador, homem comum como qualquer outro. Da labuta do corrido dia para o seio da família, aos braços da sua esposa que, aparentemente, era tudo para ele. Sem contar o encanto pelo casal de filhos. Um dia, acorda num porão, acorrentado e prisioneiro de uma linda mulher que ele nunca havia visto antes. Será mesmo que ela não estava entalada no passado dele? Tratava-se de um seqüestro? Ele não tinha dinheiro para pagar resgate. Seria submetido a alguma pesquisa científica? Estava ali como cobaia? Então, por que ela se saciava sexualmente no seu vigor? Prisioneiro de uma psicopata sexual? Não era uma espécie de homem sarado para despertar desejos femininos. Vítima de uma vingança perversa, cuidadosamente planejada, instintivamente selvagem? Por quê? Será que o seu passado respondia ou ele não passava de uma vítima de um erro humano? Talvez, o drama mais forte de Avanilton Carneiro. Prende o público da primeira a última palavra.
O Porão
Às vezes, um texto tende a ter o mesmo destino do seu personagem principal: esquecido num porão ou deixado de propósito numa gaveta para um dia ser o ator, juntamente com sua esposa: responsáveis pela estréia da peça. A gente pensa uma coisa, o destino nos oferece outra. Quantas vezes o autor tentou montar esse espetáculo? Quantas leituras iniciadas? - Incontáveis. Nunca deu certo. Devido o estado de saúde abalado, definitivamente, o autor desistiu de atuar, viver Pã, contracenar com a sua esposa, a atriz Célia Santos, no papel de Erínea, nesse que poderão não considerá-lo como o seu melhor texto teatral, mas é o que o autor mais estima, mais gosta, mais leu, mais desejou montá-lo e se esbarrou na luta pela sobrevivência, na falta de apoio financeiro para impor a sua dramaturgia. Resolveu disponibilizá-lo na Internet e torcer que algum outro colega o descubra e alcance o sucesso que ele sempre quis vivendo essa situação agonizante do personagem central. O texto é forte, quem o ler não consegue tirá-lo da mente, quem assistir à peça não vai conseguir esquecê-la. De repente, logo de início, percebe-se que o personagem está perdido: acorrentado, preso num porão, sem saber qual o seu destino, o porquê de estar ali. Pensa ter sido confundido com algum artista famoso, empresário rico ou político. E vêm à mente duas questões: ser solto ao perceberem o engano ou, irados pelo erro, acabarem com a sua vida como forma de autopunição ou de puni-lo por ser a pessoa errada. Nesse conflito se desespera e pede socorro, mas a platéia não pode acudi-lo, passiva, alheia a sua tormenta, fica curiosa em saber o porquê também. E uma mascarada chega, desce os degraus do porão e só pelo fato de portar uma máscara levanta desconfianças. Ele ainda não sabia o nome dela: Erínea, uma deusa que perseguia os criminosos na mitologia grega. O autor lhe reserva esse arrepio inicial, porque o seu nome: Pã, significava crime, perseguição as ninfas. Como duas pessoas de nomes tão correlatos poderiam se deparar num porão? Como o destino permite que dois nomes desses se cruzem no decorrer de suas existências? Nem a própria ficção será capaz de explicar, pelo contrário, vai deixar as mentes aguçadas em justificar, oferecer caminhos para as divergências, jamais apresentar o porquê de, no meio de bilhões de habitantes no mundo, esses dois nomes tão significativos deixarem marcas tão profundas nos seus respectivos donos em momentos diferentes da vida de cada um. “O Porão”, de Avanilton Carneiro, torna-se uma peça importante porque inverte a situação rotineira da violência no país. É comum e as estatísticas comprovam o alto índice de violência contra a mulher, mas a peça mostra o contrário, o autor busca inspiração na minoria: a violência da mulher contra o homem. É rotina as manchetes estamparem abusos e violências sexuais contra as mulheres, mas raríssimas vezes se vêem o contrário. E quando acontece, a mulher que se propõe a fazer executa com perfeição. Todo homem sabe disso. Por isso, o personagem central percebe o perigo que ele começa a correr. Melhor seria se fossem marginal de carreira, porque lhe restaria uma esperança de sair com vida. Mas nas mãos de uma psicopata sexual era incerto o seu presente mais ainda o seu futuro. A agressão física já havia sido cometida quando ele é neutralizado com gás paralisante e inala uma droga que o desacorda. Essa ação se passa quando ele praticava sua corrida. Ela se aproxima, o domina e ele nem tomou conhecimento de como foi, não viu, não sentiu, não percebeu. Sabe apenas que se encontra prisioneiro dela e ele não veio com as próprias pernas. Por quê? Não só ele, mas o público vai questionar quando a personagem subir os degraus, desligar as luzes e fechar a porta do porão encerrando-se o primeiro quadro, porque além de não ter dinheiro, possuía débitos, deixa que o autor use para criticar o sistema empresarial do país em punir os trabalhadores inadimplentes. Questionamentos ficarão. Todos perceberão o quanto ela foi eficiente na captura da sua vítima. E ele descobre que não foi confundido com ninguém. Era ele mesmo o alvo. O que ninguém esperava era ter a confissão de que ela não pretendia matá-lo, mas conquistá-lo, fazer com que ele esquecesse a mulher e filhos e a amasse, a fizesse feliz. Boquiaberto, pois não se trata de um tipo galã, apenas um homem comum, porém nota que o perigo é bem maior do que aquele corpo lindo e atraente podia demonstrar. Ele, ao vê-la, não transparece o desejo que todo homem tem ao ver um corpo tentador, procura passar a impossibilidade de um dia vir a amá-la porque seu coração já tinha dona: era de outra mulher. Ela não se incomoda, sabe que dentro de poucos dias ele vai morrer de desejo sexual, capaz de tudo para satisfazer o seu apetite, saciar a sua fome. Louco de desejo, ela sabe que terá um homem frágil pela frente e vulnerável aos sentimentos. Se ele esquece a mulher e vem a amá-la só o tempo poderá responder. E em busca dessa resposta, o público se comportará pacientemente, pois sabe da incógnita que o autor ofereceu para ser decifrada. Mesmo sendo homem, vai suportar ficar preso para poder amar alguém? E o pior: esquecer uma mulher? Erínea se sentiria bem com a situação: ser capaz de conquistar um homem tão somente pela força? Era apenas conquistá-lo, ter o seu amor ou algo mais ainda estava oculto? A peça acabava de começar. A primeira queda de luz somente encerava o primeiro quadro: as primeiras dúvidas, os questionamentos iniciais. O segundo quadro é marcado pela tortura sexual e psicológica. Sabe-se que já há algum tempo em que ele está prisioneiro. A imprensa já divulga o seu desaparecimento. A polícia o procura, fato que só acontece ao passar quarenta e oito horas do desaparecimento de uma pessoa. Ele sofre e sabe que seus familiares sofrem também. Preocupa-se com o bem estar dos filhos e sente que está sendo vítima de algum tipo de vingança, mas não consegue se lembrar. Erínea responde a curiosidade do público: “Quer uma dica, seu leviano, miserável? Eu não era a única mulher da sua vida. Você saía do meu regaço e ia se envolver entre outras pernas”. O que para Pã não passava de um prazer sexual, uma orgia, para ela foi uma experiência única: “O que pra você não passava de uma sacanagem, para mim, era uma pureza de amor, esperança da eterna felicidade”. Mesmo nesse sexo leviano, ela foi capaz de amá-lo e resumir sua vida num único desejo: um dia reconquistá-lo. Como entender a mente humana? O próprio ser humano? Poucos dias não significam que um homem possa se sentir dominado pelo desejo sexual. Ela sabia disso, mas tinha ciência que nunca é cedo para começar uma tortura, para aguçar o instinto sexual de um homem. Na primeira tentativa, ela falha. Ele tenta agredi-la, mas preparada para se não desse certo, ela o rende com uma arma e usa o seu segundo plano: o psicológico. Começa o jogo onde o objetivo é deixá-lo preocupado, tentar adivinhar que mal ele cometera, fazer um profundo exame de consciência e buscar no seu passado o deslize que a levou a loucura, a resumir sua existência numa vingança. Foram tantas orgias, tantas mulheres, tantas camas com mais de uma mulher, uma juventude sexualmente ativa. Jamais iria imaginar que um dia pagaria pelos prazeres de outrora. Ele sabe que sua adversária é fria. Preparou-se para o combate, adquiriu vantagens, dona da situação. Mas sabe também que a obsessão é por causa do amor que sente por ele. Ela ama e uma mulher quando ama torna-se vulnerável, frágil, capaz de ceder. Ele também analisou que é no amor que a mulher se concretiza numa fortaleza, capaz de tudo. Ela poderia ser do tipo: ou é dela ou de ninguém. Por isso, ele sabe o risco que corre. Chegar ao ponto fraco dela não seria impossível, mas a sua situação era limitada, carente de recursos, preso as correntes, sem condições de agir, dominá-la. A realidade era que ele era o dominado fisicamente, preocupado mentalmente e oprimido psicologicamente. Principalmente, quando ela fecha a cena dizendo-lhe que estava em contato com a família dele. Que jogo psicológico ela estaria fazendo em seu lar? Não teve chances de saber. Ela desliga as luzes, fecha a porta e o deixa torturado moralmente, fisicamente, sexualmente e psicologicamente.O terceiro quadro, ela começa com um novo tipo de jogo psicológico. Faz entender que a família não sente mais a falta dele. Mostra o quanto ele é insignificante para os filhos, que estes nem se lembram mais do pai devido à longa ausência do seio da família envolvido com o trabalho. A mulher nem chora mais a sua falta. Perdeu a função de chefe para um colega e com o salário sem o acréscimo da pasta que ocupava, em apenas dois meses, a mulher tira o nome dele dos órgãos de proteção empresarial. Por que ele não conseguiu com o salário melhor? Fica essa dúvida na mente do público. A pressão psicológica se ascende quando ela relata que está tendo um relacionamento homossexual com a mulher dele e que ambas estão gostando e se descobrindo, mas acentua-se mais quando ela informa da traição que sua esposa cometera com um garoto da rua em que eles moram. E de maneira perversa ela detalha a ação, falando das posições, sentimentos da mulher e ferindo-lhe o orgulho chamando-o de corno. Ele se irrita, perde o controle, a expulsa do porão. Ela finge que cedeu. Sobe os degraus e chega ao cúmulo da tortura ao relatar o relacionamento sexual que teve, num mesmo dia, com o filho dele de apenas quatro anos e a filha de sete. Mostra que a menina, mesmo tão nova, já havia tido outras experiências com a empregada doméstica. Ele vai ao extremo da perturbação psicológica. Viu que a sua família foi moralmente ferida. Ela não só o torturava como interferia no fator psicológico dos seus filhos para o resto da vida. Vem à torna a pedofilia tão debatida e evolutiva nesses dias, ou seja: divulgada as barbarias que vinha acontecendo, mas não ganhavam as manchetes. O que seria daquelas crianças nas mãos de um mente perversa como o daquela mulher? Quem era ela? Não conseguia lembrar. Como ela não conseguia decifrar o segredo que o dinheiro dele não sobrava para pagar os débitos corriqueiros da família. Ele se irritou. Será o que ela estava tentando alcançar. Fazer a pressão psicológica relatando que a mulher o traía era viável, porque podia fazê-lo odiá-la. Mas narrar o abuso sexual contra os seus filhos. Ele poderia detestá-la por isso. Ela jamais poderia conquistar o seu principal objetivo: o amor dele. Ou simplesmente era uma maneira para se excitarem, apagarem as luzes e se satisfazerem? Será que ela descobriu que ele precisava ouvir casos como os abusos contra seus filhos para não reagir ao sexo que de início ele se recusava? Aceitá-la passivamente? Será que ambos se mereciam? A peça chega ao clímax da tensão no quarto quadro, onde os segredos caem por terra. Quando Erínea descobre que mesmo o mantendo acorrentado numa cama, num porão, tendo-a apenas como mulher, ele jamais a amaria, porque mesmo naquela condição de total dominado ele a enganou, a traía, protegia quem ele realmente amava: a amante. Ela se sente arrasada e decreta a sentença de morte dele revelando-lhe quem era. Ele se espanta e percebe o porquê ela havia contando os abusos sexuais contra os seus filhos. Ele não era inocente para saber que não ficou em apenas um dia, mas devia ser uma rotina ao longo dos anos de convívio sob o mesmo teto. Provavelmente, o relacionamento entre ela e a sua mulher começara quando ele deixava sua esposa sem sexo por mais de vinte dias. Agora, de dia, ela se envolvia com as crianças e a mulher; de noite, era a vez dele. Uma doente sexual. Só que ferida, decepcionada e derrotada. Todos os seus argumentos foram em vão. Ela os descartou. Havia revelado sua identidade. Era do convívio dele. Não confiava que ele iria embora com a amante e a deixava impune. Tinha a prática da pedofilia. Ela podia adivinhar que ele não era tão monstro para saber que seus filhos estavam sendo molestados, usados sexualmente e partiria com uma amante deixando-a impune e seus filhos a mercê da sorte. A própria mulher dele só aceitava a convivência a duas porque não sabia de nada. Nunca desconfiou. Também era enganada. Ele sabia que lhe restava pouco tempo de vida, mas não podia se entregar. Apareceu como última chance o fato dela não querer matá-lo sob a força da emoção, mas se acalmar e agir friamente para poder destruí-lo com consciência como fizera com os padrastos. Confessando essas mortes, ela anuncia de que não era uma amadora. Já tinha experiência em ceifar vidas. Ela sai e deixa as luzes ligadas para que ele olhasse tudo ao seu redor pela última vez. Era um anúncio de que quando voltasse seria para liquidá-lo. Seria a última esperança para ele que pensa não ser possível torna-se vítima de uma psicopata só por tê-la provocando ao tentar conquistá-la para a cama. Será que a tentativa de uma simples orgia havia despertado um monstro que ele estava conhecendo a sua fúria? Erínea chega fria e calma para dar o desfecho. Ele percebe que ela havia tomado a decisão fatal. Ao longo do mês cuidou dele, o barbeou, levava ao banheiro, trocava-lhe as roupas. Dava todo o cuidado que um prisioneiro podia ter. Só não falava mais com ele. Também não respondia aos inúmeros questionamentos. Não mais o procurava sexualmente. Aceitou a derrota. Sabia que era impossível fazer alguém amar alguém pela força. No fundo, ela acabava de descobrir que tudo não passou de uma obsessão. Estava louca, cometera loucuras perversas por causa de um homem a ponto de matar duas criancinhas inocentes e indefesas só para se vingar. Será que o fato dela descobrir que ele não amava a sua mulher, que casara só por causa de um emprego dado pelo tio dela e que seu verdadeiro amor era a secretária a fez cometer tamanha perversidade contra os filhos de Pã? Será que quando cometeu os crimes veio à tona que tudo não passava de uma loucura e que não tinha mais o caminho de volta? Eis que ela, antes de confessar a morte dos filhos, revela quem realmente era ela. Boquiaberto com a surpresa, o homem toma ciência de que só um milagre o salvaria. Ele nem se lembrava mais. Jamais iria imaginar que um dia podia ser vítima de uma ex-vítima sua. Um ato de pedofilia na sua juventude deixou marcas na mente de uma criança que, realmente, antes de matá-lo ela só queria amá-lo, retomar a paixão de infância, pois ela se envolveu sentimentalmente sem saber que era usada por um aproveitador de crianças. Ela não sabia que era vítima, pensava que fosse o motivo, que ele só mantinha um relacionamento com a sua mãe para poder ter acesso a sua casa e lhe ter nos braços. Era isso que a sua mente achava. Ele só sumiu no mundo com medo do seu pai o matar. Seu pai o procurava não por causa do verdadeiro relacionamento entre os dois, mas por descobrir às falsas promessas que fazia a sua mãe. Por isso ela resumiu a sua vida em procurá-lo. Durante toda a sua existência, pensou que aquelas eram as juras verdadeiras de amor. Talvez, curada do clímax da obsessão. Descobriu que ele significaria o fim da sua liberdade e que sua felicidade estava nos braços de outra mulher: Roseli, a mulher de Pã. Realmente, ele não podia ser libertado, mas também não merecia morrer instantaneamente. Tinha que ser lento, sofrer o mesmo que seu pai sofreu. Por outro lado, era tudo o que ele queria, pois tinha a esperança que se fosse deixado para morrer lentamente restava-lhe a dádiva de um milagre. É mais uma batalha que o autor, Avanilton Carneiro, empenha-se a vencer ao longo dos seus trinta anos de existência no Teatro Conquistense e esquecido nesse interior do Nordeste Brasileiro.
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