Uma peça que Shakespeare rasgaria e a sociedade da sua época a repudiaria. O Grupo Avante Época-Teatro não conseguiu, em Vitória da Conquista, uma atriz que tivesse coragem de interpretar a personagem Julieta Silva. Há uma coreografia “Lésbosos”, criada por Célia Santos, de uma sensualidade tão artística que chega a se confundir com a mais pura expressão de dois corpos ardendo em desejos e finaliza num beijo cheio de amor. Em 93, seria a quebra de um tabu. Só anos depois, Débora Seco desvenda o mistério de duas mulheres se beijarem num palco brasileiro. O ponto forte é a pedofilia praticada pelo próprio pai. Na fuga do abuso sexual familiar, as duas Julietas se encontram. Uma busca proteção; outra, o amor. Acabam se amando ou a ambição pela riqueza e fama falam mais forte que o amor?
Julieta Julieta
A Produção de textos para o teatro brasileiro é tão evolutiva e volumosa que não tem como sabermos da existência de parte dessa criação. Às vezes muitos desses autores ficam esquecidos nesse imenso interior do país e só com uma oportunidade dessa, através da Internet é que desponta a esperança de não passar toda uma existência lutando pelo o teatro e ter o reconhecimento apenas de uma cidade, uma região ou interior de um estado que já se situa à margem do país. Muitos desses textos trazem tamanha força no seu todo que são capazes de fazer indivíduos pensar diferente após manter contato com eles, seja na leitura, como literatura, seja assistindo sua montagem, principalmente quando é um texto que enfoca um tema presente dentro da comunidade em que se vive. No caso, “JULIETA JULIETA”, de Avanilton Carneiro, peça que pela importância literária, situa um tema muito forte (principalmente em nosso país): a violência contra a mulher, escondido num outro tema que se confunde e luta para não ser um subtema, mas tem a mesma importância num contexto de debate, no referente a marginalização: o homossexualismo feminino. No fundo destes dois temas da obra de Avanilton Carneiro destampa uma realidade viva em nossa sociedade: o abuso sexual. Quer familiar, através do pai e da tia, quer fora do seio do lar, através das demais personagens que surgem no caminho da nossa Julieta Soares Silva, personagem que já nasce num lar trágico e perturbado. Filha de pais viciados, após perder a mãe, vítima de uma overdose, ainda criança, é bolinada e estuprada pelo pai que toda noite cheirava cocaína ao lado dela, na cama. A tia que fica com a guarda a envolve sexualmente dando-lhe as primeiras lições de um relacionamento entre duas mulheres. Após uma tragédia finalizadora da vida de sua tia e a suposta morte do pai, a garota foge e, em outra cidade, não só é amparada, mas abusada por uma outra Julieta. A Julieta Maltek. Desse aproveitamento mutuo: uma buscando proteção; outra querendo satisfazer o seu desejo carnal; desponta um lindo relacionamento envolto de amor, mas que pode ser questionado: até que ponto é sentimento até que ponto é busca de proteção? Dúvida quase sempre estabelecida numa vida entre duas pessoas do mesmo sexo onde uma é definida profissionalmente e a outra não. Por ser atraente e bonita, Julieta Silva torna-se vítima do desejo sexual, principalmente, pelos homens que quase sempre não sabem conter seus impulsos fisiológicos e partem para a agressão e o desrespeito quanto ao processo de ser mulher e ser-humano e merecer o respeito como pessoa. A sua beleza física e o seu modo ousado de vestir-se levam toda uma gangue a violentá-la sexualmente em pleno ônibus coletivo rodeada de cidadãos de bem e ninguém tem a coragem de enfrentar o perigo e salvá-la das garras dos abutres. Ela é vista como uma carne apodrecida, sem nenhum valor, tão somente para alimentar o desejo daqueles urubus ardendo em fome. Esta visão só é estampada porque todos se colocaram nas condições de fracos e impotentes, incapazes de reagirem ante a bruta violência que emana dentro da própria sociedade. Realidade tão presente no nosso cotidiano. Alguns, de tão covardes, aderem à violência imposta pelos brutos e chegam a pagar para também abusarem sexualmente da indefesa Julieta Silva. Avanilton baseia-se em fatos reais, de tão comuns, deixaram de ser isolados e ao longo do dia a dia são noticiados em cidades diversas, de maneiras diferentes, cenários reais, personagens diversificados, mas o resultado é o mesmo: filha abusada pelo pai, jovem estuprada ou assassinada. Poderia ser só trágico se não houvesse um tempero cômico para quebrar o lado dramático verificado em qualquer ambiente onde haja almas submissas a desejos fortes que conduz cada personagem a agir rigorosamente dentro da lógica peculiar a sua força interior de conter ou não os seus impulsos.Julieta Maltek, além da sua vida profissional, produtora de modas, não conhece outro dever além daquele de correr em auxílio a Julieta Silva. Pára num sinal e, à margem da calçada, estava aquela menina loirinha e linda, teme ser uma garota de rua, mas, por causa do vestir-se diferente e ser bem tratada, percebe ser apenas alguém com um problema. A leva para casa e começa uma vida a duas. Amor e proteção. Sempre buscando o melhor: Bons estudos, dança, desfile, carinho e amor. Discreta, mas isenta de qualquer preconceito moral, assume o papel de mulher amante de outra mulher sem questionar o porquê e recusa-se a responder quando interrogada. O importante não era ser questionada, mas dar-se, amar e ser amada. Para ela, sua vida particular não interessava a ninguém. Queria era ser feliz e fazer feliz. Não obedecia às exigências do bom senso impostas pela sociedade e religião: heterogeneidade num relacionamento a dois. Ela entrega-se à torrente da própria paixão. No dueto que as levam à aproximação carnal cada uma extravasa o seu tumulto íntimo sem lograr comunicá-la a interlocutora e sem compenetra-se das razões irracionais que cada uma arrasta. Maltek quer privar Silva de envolver-se no esporte, pois sabe que é um campo extra seu domínio. Sua amada estaria propícia a outras mulheres que pensam, agem e vivem como elas, sobretudo, bem próxima do outro sexo, quer como torcedores quer como envolvedores com a prática esportiva. Julieta Soares demonstra aceitar o assedio de outras colegas e chega ao ponto alto da sua dúvida quanto à maneira de ser ao revelar a vontade de ser tocada por um homem. Mas, este desejo, não seria a única coisa a esconder. A sua origem não passou de uma história inventada ao se conhecerem. E durante anos sustentou tal mentira. Embora, o público questione se o amor da moça não seria também uma farsa só para ter a proteção: casa, estudo, comida, dormida, amor, sexo, vida boa. Julieta Maltek, sequer questiona, contraria seus espectadores e sai mais uma vez em defesa da companheira quando descobre que o pai estava vivo e parte para definir o que tinha começado: o abuso sexual, que não significava nada para ele em relação aos oitocentos mil dólares em poder da sua filha, escondidos em algum lugar e a defensora nada sabia. Enganada até o fim. Quais seriam as pretensões de Julieta Silva ao concluir seu curso de medicina com todo aquele dinheiro? O público percebe que o relacionamento, embora bonito e cheio de palavras de amor, há segredos, desconfianças, mentiras, armações e traições. A religiosidade, tão respeitada em nossa sociedade, não exerce influência na trajetória das personagens. Maltek renega uma figura suprema, mas apela para este Ser Supremo quando não pode ter mais a sua amante nos braços e Julieta Silva se faz verbo e conjuga-se ante a sua amada que ao saber da existência dos oitocentos mil dólares ignora estar diante de um fato tão importante que só Cristo conseguiu: a ressurreição. Abandona aquela que ela sempre amou e a protegeu e parte em busca do dinheiro sem dar a mínima se o autor, naquela cena, satirizava ou não o filme Ghost. E o público fica à mercê de uma lógica para o relacionamento das duas. Havia amor? Quem realmente amou? O dinheiro corrompe uma vida a dois? Leva uma ou as duas a traírem? E o público pode questionar, questionar e questionar. Colocar-se no lugar de cada uma das personagens e não saber como agir diante do fato. As duas figuras da peça surgem como arquétipos humanos, representam ao mesmo tempo tipos vivos da realidade brasileira que não se entregam às normas estabelecidas pelo sistema ou pela religião. Estabelecem suas maneiras de ser e amar, mas não conseguem ser diferentes quanto às atitudes e o caráter. Avanilton Carneiro sabe fazer esse jogo de personalidades das duas personagens e permite as duas mostrarem onde são mocinhas, onde são bandidas, onde são vítimas e como esconderem o próprio lado indesejado de cada uma. Retrato vivo do ser brasileiro. Além de tudo isso e não só pela grande função que há na criação literária junto à elaboração cênica, a compatibilidade entre o linguajar e a condição de montagem, mas também para servir como ponto de partida para debates com a comunidade sobre essa praga quase incurável: a violência contra a mulher. Quer pelo homem quer pela própria mulher, porque não entra em pauta apenas a violência sexual, corporal, mas a psicológica. O homossexualismo não pode ser encarado como uma praga porque muita gente o tem como uma opção de vida e aceita com todo prazer, mas é tema para se debater e nunca chegar a uma conclusão concreta. Como se pode ancorar no referente à violência? Leis para punir os agressores? Provavelmente, mas jamais uma fórmula para evitar a agressão. E ambos temas estão espalhados nas grandes e pequenas cidades do país, aonde a montagem chegar terá respaldo para se falar que ali também já houve uma violência parecida ou quando acontecer lembrarão da peça. Só não haverá o mesmo tempero cômico, porque na nossa realidade a violência nunca tem o seu lado divertido. Nem mesmo para quem a pratica. Acreditamos que a montagem desta peça, que traz temas e subtemas tão vivos, no nosso país, só irá enaltecer as encenações cênicas deste nosso teatro. O texto e o contexto da própria obra, JULIETA JULIETA, ditam as propostas a serem atingidas pelas montagens.Violência versus lirismo domina o texto e aponta duas atitudes tomadas pelas personagens, pois enquanto uma, mesmo mais avançada na idade, se entrega ao relacionamento em busca do ser correspondida, fugindo do real papel que a sociedade impõe a uma mulher; a outra tem a convivência como um esteio para se sustentar nas suas aspirações, quer fugir mas as suas pernas não têm passos próprios. Além destes temas tão polêmicos, propomos mostrar a força da mulher no teatro, onde as duas personagens se confundem na força do papel que desempenham e torna-se difícil estabelecer quem é a principal protagonista. Desconhecemos o todo da produção literária teatral, no Brasil, mas sabemos que se o texto não é o único é um dos poucos que traz duas mulheres homossexuais e com tamanha força no contexto. Em Vitória da Conquista, cidade onde a obra foi concebida é o único no gênero. Propomos também, analisar os diversos tipos que participam na comunidade social, como o pai viciado, estuprador, capaz de renegar o fruto de um amor em favor do desejo carnal e do dinheiro tornando-se um assassino; a tia que livra a sobrinha das brutalidades do pai, mas foge as normas estabelecidas pela própria Justiça e a usa sexualmente também praticando a pedofilia; o Negrão, figura que surge para se analisar o quanto a nossa sociedade é preconceituosa e camufla o racismo, é fruto do sistema selvagem do país que sem oportunidade cai nas drogas, furtos e estupros, mas redime-se quando acha uma proposta de trabalho honesto, mesmo com uma ex-vítima; a repórter sempre em busca de um furo: o que é tragédia para uns é prazer de informar para outros; plantonista de uma delegacia pública, retrato de um sistema que quase sempre não respeita os sentimentos de quem busca informação ou auxílio em momentos difíceis. A peça é misturista por trazer mais de um tema, diversos subtemas e gêneros. Além dos temas enfocados, podemos destacar o circo da moda, sonho de muitas Julietas por este mundo afora, e quem sempre se dar bem são os agentes; o futebol, paixão nacional, onde as mulheres a cada ano buscam conquistas de novos espaços e só não evoluíram em muito porque as Federações e Ligas ainda são dominadas pelos homens; a traição num relacionamento cheio de momentos bonitos, sinceros e cercado de prazeres; a ganância pelo dinheiro, onde os personagens não respeitam amor de pai para filha, de cunhado ou de verdadeiras amantes: o dinheiro conduz o sistema e quem vive nele, no texto, não há a bondade esperada por todos e tão comum como lição de moral, o pai não se arrepende do que fez, quer é mais, o máximo para satisfazer o seu prazer, com a filha e com o dinheiro em poder dela, os psiquiatras que se justifiquem, a amante não quer saber se o seu amor voltará encarnada em outra pessoa ou não, não importa se é branca ou negra a análise vai de acordo a cultura de cada um: o dinheiro era mais importante, poderia realizar todos os sonhos até então inibidos, quantas outras Julietas ela poderia conquistar com toda aquela grana; o confronto de dois grandes temas: a ressurreição versus a reencarnação. A primeira explícita no ato de Julieta Silva voltar antes de subir ao céu, onde ela própria explica que teve uma nova oportunidade para falar onde estavam os dólares que seriam destinados a uma operação que provocaria a sua própria reencarnação na pele do Cherebronildo contradizendo toda a filosofia do catolicismo e do espiritismo; a questão do vício desponta no enfoque de que as drogas podem mudar toda a trajetória normal de uma família, vidas de pessoas normais podem ser destruídas socialmente ou até mesmo ceifadas; a problemática sexual se faz presente nas suas diversas formas e gostos apresentados pelas personagens onde abre um leque para se debaterem essa temática ainda tabu para muitos. O misturissmo dar-se também quanto ao gênero. O público desconhecedor dos estilos dramáticos nem perceberá, mas quem conhece as escolas literárias viajará ao longo de muitas delas, como: tragédia, comédia, tragicomédia, drama social, policial, beisterol, clássica, romântica, moderna, pós-moderna, modernidade, fantástica... Por isso é capaz de agradar a gostos diversificados. Nosso trabalho não se limita a um público elitizado, mas a todo indivíduo que queira raciocinar sobre o mundo. Todo grupo que propõe montar uma peça sabe que tem pela frente um desafio porque a arte exige cuidados sutis para a sua elaboração. O cenário é a sala da casa de uma agente de modelo numa cidade do interior nordestino e esse ambiente vem como símbolo de quebra da normalidade estabelecida pela sociedade brasileira, porque o comum é viver um casal heterogêneo, mas esse espaço é destinado ao relacionamento de duas pessoas do mesmo sexo. Aí defronta um sistema inovador e diferente do tradicional que não se entrega, luta pelo seu reconhecimento, embora sabe onde e quando tem que recuar para não ser engolido pelo sistema sistematizado. O relacionamento extrapola o espaço cênico e confunde-se com o público, mostrando que ele está conquistando o seu lugar, além de quebrar a distância entre elenco e platéia estabelecida em outros gêneros. Atores e cenário formam uma perfeita distribuição do espaço, a fim de notabilizar e visualizar o conjunto para o espectador, sem que a ilusão se desfaça. Assim a concepção cênica se esforçará para criar um ambiente interno dando condições do público sentir que o externo existe e parte para interferir no interno. Por outro lado, a concepção cênica procurará eliminar, do palco, artifícios desnecessários, utilizando apenas elementos de cena, que valorizem o desempenho do elenco e levem a platéia a uma comunhão de sentimentos.É mais uma batalha que o autor, Avanilton Carneiro, empenha-se a vencer ao longo dos seus vinte e nove anos de existência no Teatro Conquistense e esquecido nesse interior do Nordeste.
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