Esconderijo da nuvem -

    Carlos Nejar

    Bestiário
    2019
    134 páginas
    4h 28m
    ISBN-10: B07NZRZJG8
    Português Brasileiro

    Entre as águas da infância e o mar de Caronte navega o poeta, soberano de si e dos segredos do tempo. Temos em Esconderijo da Nuvem, um eu-lírico que retorna ileso de cada confronto com o mistério da morte. Se os anos pesam, a natureza redime. A Urca, este santuário do poeta, é recompensa pelas agruras do fazer literário e da vida. Michel Foucault dizia que ainda na Idade Média estabeleceu-se uma divisão entre os lugares. Surgem então lugares sagrados, como a igreja e o cemitério. A dessacralização dos lugares ocorreu ao longo da história, porém a sacralização faz parte do ser humano. A Urca é o lugar sagrado do eu-lírico, um lugar que integra passado, presente e futuro, futuro este que às vezes surge pintado em tons sombrios, mas que se dilui nas cores exuberantes da paisagem. É somente na Urca que o eu-lírico passa por um processo de transcendência, onde ele assiste à passagem do tempo, intercalando receio e certezas. Se por um lado, o tempo ido é perdido, o poeta se sabe vencedor: é o legado da escrita na vida, como diz no primeiro verso do poema “Coisas Poucas”: “O que perdi, ganhei”. A paisagem da Urca se engatilha de sentimentos. No poema “Acórdão do Rochedo”, quando o eu-lírico nos diz que “de encantado o mar jamais se acorda/ quando a saudade é mar dentro da onda”, ele revela o que não cabe mais dentro do peito. No poema “Escrevo sobre a água”, o eu-lirico que escreve “sobre a água o chão do mundo”, nos fala da fugacidade do instante e da vulnerabilidade dos sentimentos. A brevidade das coisas é um tema recorrente entre os poemas que compõem a obra. Carlos Nejar, com seus versos carregados de humanidade, nos mostra o quanto o instante é frágil. Em poemas como “Leme” e “Sobre as ondas” temos anunciada a chegada do fim, que pode ser o final de um ciclo ou o fim da vida. A morte, um outro elemento constante em Esconderijo da nuvem, surge como o destino inexorável de todos nós, em poemas como “Enredo” quando o eu-lírico reflete sobre “Quem pode ousar com tal ousar da morte/ Ninguém escolhe a sorte que recolhe/ o fim que está chegando com seu golpe”. Em poemas como “Penúria”, quando o eu-lírico revela que “A morte não me encontra, mesmo quando/ quiser me fitar, em sombra, doído/ Porque de morte a cura tem-me sido/ cada vez na palavra de ir sonhando” e “Nem para esquecer”, quando ele afirma que “Pode me levar a morte tudo/ Pode me levar a morte nada” , a morte é um templo em ruínas, assim como o tempo. Podemos concluir que a morte pode ser vencida pela escrita. A poesia, como a de Carlos Nejar, é imune ao tempo. Imortal.

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