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    Minhas Duas Estrelas -

    Pery Ribeiro, Ana Duarte

    Editora Globo
    2009
    360 páginas
    12h 0m
    ISBN-13: 9788525047816
    Português Brasileiro
    4.2
    68 avaliações
    Leram96Lendo8Querem54Relendo0Abandonos1Resenhas9
    Favoritos7Desejados54Avaliaram68

    Minhas duas estrelas é um extenso depoimento do cantor Pery Ribeiro sobre a vida e a relação turbulenta de seus pais, o genial compositor e também cantor Herivelto Martins e uma das maiores cantoras brasileiras Dalva de Oliveira, personalidades definitivas da época de ouro da música popular brasileira que, durante décadas, imperaram nos palcos, nos discos e no rádio. Com a ajuda de sua esposa, Ana Duarte, Pery compartilha um testemunho desafiador ao revelar “detalhes quase inconfessáveis” – como repara Ruy Castro no prefácio – da vida e obra de Herivelto e Dalva. Nascido na pobreza do cortiço em 1937 e filho mais velho do casal, Pery descreve a trajetória de suas duas estrelas, da ascensão à glória até a traumática separação do casal. Mesclando o decorrer de sua vida com a transformação da de seus pais, Pery fala sobre os seus primeiros trabalhos para ganhar a vida, o início da carreira como cantor, a sua visão crítica sobre a união de Herivelto e Lurdes, a terceira mulher de seu pai, e o alcoolismo e os casamentos desfeitos de Dalva.

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    Charles Nascimento picture
    Charles Nascimento21/03/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    DALVA E HERIVELTO | um resumo detalhado

    O Pery conseguiu nessa biografia algo que eu acho que seria impossível ou desafiador para a maioria dos filhos de pais famosos e com uma relação tumultuada como foi Dalva e Herivelto: ser imparcial. Falar do pai mulherengo, viciado em jogo, machista, e também do pai provedor, generoso, honesto... E a gente tão acostumado com filmes, novelas em que mocinho é mocinho e vilão é vilão, ficamos bobos quando vemos pessoas como eles dois, caminhando sobre erros e acertos. Pery coloca o amor pelos pais "sem críticas ou condenação". O capítulo 16 "Abandono" é o que ele mais retrata isso. Pery narra a alienação parental que sofria tanto de Dalva, que fingia desmaios quando os filhos tinham que deixá-la para ir à casa de Herivelto, como do pai que assim que os filhos chegavam eram recebidos com perguntas como "Sua mãe ainda está dando pra fulano? Ela é uma p#ta" imagina a cabeça de duas crianças no meio disso tudo? Mas Pery manteve a coerência, não cabia a ele descobrir quem era o mais culpado. Ele diz que na vida não existe culpado, existe a vida. O capítulo 17 Pery conta sobre a guerra musical que houve após a separação do casal, é um capítulo ótimo para conhecer os grandes sucessos de Dalva (muitos regravados por duas das maiores intérpretes da MPB: Maria Bethânia e Gal Costa), mas a real motivação das canções era revidar os ataques de Herivelto Martins que em matérias de jornais e usando seu talento como compositor compunha músicas para atacar a ex esposa. Diversos compositores se uniram então para compor para Dalva e dar respostas a Herivelto. Ela conquistou a simpatia, carinho e o sucesso (estrondoso) do público, enquanto ele era descreditado e viu o declínio de seu Trio de Ouro, agora sem sua grande estrela, Dalva de Oliveira. Em um dos capítulos finais, a minha surpresa foi descobrir que uma das últimas composições de Herivelto, "Fracassamos" de 1970, foi dada para Dalva cantar. Pery conta que a letra era uma síntese do que viveram em suas vidas (um conselho meu: ouça a música que é belíssima). Parecia que Herivelto sabia o pouco tempo de vida que Dalva tinha e queria fechar aquele ciclo, tinha quase vinte anos sem falar com a ex esposa, depois da tumultuada separação. No livro, Pery fala sem pudor sobre o egocentrismo de Herivelto, como ele não deixava que ninguém se sobressaísse perto dele. Acho que essa coragem de Pery em falar com certo distanciamento dos pais é o que faz esse livro ser tão bom, afinal estamos falando do filho, o primeiro filho de Dalva e Herivelto. Enquanto corria o final dos anos 40 e início dos anos 50, numa sociedade patriarcal, machista em que as mulheres eram obrigadas a estar em casamentos falidos, submissas a maridos agressores, violentos, Dalva virou inspiração para muitas com seu desquite, seu grito de liberdade. Ela continuava fazer sucesso, ser mãe e mulher longe da figura do marido. "Minha mãe se tornou a imagem da reação feminina contra o homem que fere, maltrata e impõe suas convicções" - Pery Ribeiro Mas não só Dalva foi pioneira e inspiração. Herivelto, foi um dos grandes responsáveis pela Regulamentação do Direito Autoral no Brasil, quando compositores e intérpretes não recebiam direitos autorais e de execução respectivamente. Foi sindicalista, presidente por dois mandatos no sindicato dos Compositores. Não tinha um lado político, fosse ao lado de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek ou Ademar de Barros, a ele só importava angariar ajuda e incentivos para compositores e artistas. No capítulo 38, Pery fala sobre A OBRA DE HERIVELTO como ele enquanto compositor escreveu sobre tudo e usava seu talento para chamar atenção sobre o que se passava na cidade. Cantou sobre o fim da Praça Onze, o morro da Mangueira, homenageou a beleza triste da favela em sua Ave Maria, cantou do bondinho de Santa Teresa. Sem estudo e com uma informação literária que se restringia a poemas caipiras, ele foi um dos maiores cronistas do Rio de Janeiro. "Pery, quando a música brasileira parecer mais decaída, quando a má qualidade quase matar a nossa cultura e o lixo estrangeiro mais estiver dominando a nossa música, há de sempre surgir um samba-canção pra salvar a nossa dignidade cultural" - Herivelto Martins  Pelos relatos de Pery no livro, acredito que Dalva tenha sido a primeira "diva gay" do Brasil. Cauby Peixoto disse que ela era a pessoa que mais sabia compreender e aceitar a difícil condição do homossexual, fosse homem ou mulher. Pery narra na página 293 que ela era endeusada pelos gays e considerada, tanto que ganhou o título de A Rainha das bichas e guardava com orgulho a faixa com essa frase. O capítulo 41 é um dos mais tristes de todo o livro. É quando Pery decide contar sobre o final da vida e carreira de Dalva, destruída pelo alcoolismo. Dalva desenvolveu cirrose. Antes tão bonita e de olhos vibrantes, ficara "desfigurada" é assim que narra o filho. Todos os infortúnios de uma vida de sucesso solo repentino, traições, separações e dores eram descontados em um copo de conhaque por ela.  "Tentou, ao achar que o conhaque poderia apagar as dores  decepções que o amor por aquele homem estavam causando. A partir daí, a bebida foi tendo um papel fortíssimo em sua vida, a ponto de ser a razão maior de sua destruição". Os capítulos finais Pery faz um balanço muito honesto do que foi sua vida ao lado dessas duas grandes personalidades, é um balanço bonito de um homem que amadureceu e buscou amparo tanto emocional quanto espiritual para carregar o fardo de uma existência difícil, mas ele não se coloca como vítima ou indefeso em nenhum momento, como não coloca os pais como vilões. "A vida não tira nem oferece absolutamente nada: a vida é o que é. Nós é que devemos tomá-la como a maior razão de tudo. O mundo são as pessoas. A vida é Deus". ▫️ Não tenho vontade alguma em ler a biografia do próprio Herivelto, que pelas memórias de Pery, pinta uma Dalva bem diferente do que amigos, familiares e os próprios filhos falavam. Dentro de seu egocentrismo, limitava o escritor a falar sobre a ex-esposa. Mas como falar dele sem falar sobre a grande mulher, a grande cantora que foi Dalva de Oliveira? Por isso prefiro ficar com a memória de Dalva escrita pelo filho nesse livro que recomendo grandemente.

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