Conta-se que alguém certa vez teve suas palavras tolhidas por um deus ciente do poder da palavra e o corpo desfeito como o de Mársias temerário desafiando Apolo, que o esfolou; dizem que a biblioteca de Alexandria ardeu numa pira sacrificial como Roma, certa vez, sob a lira de Nero; diz-se que um poeta russo foi proscrito e preso por comparar o bigode do ditador a uma barata, e que os nazistas tiveram o mesmo fervor piromaníaco contra os livros que o observado nas inquisições; contam que as recentes máquinas maravilhosas do nosso mundo são um modo talvez discreto de repetir a mesma antiga tortura de banimento da linguagem, a que o Brasil, braseiro de rosas, subflor e mais flor, nunca foi estranho. Um livro ainda, de olhos abertos na escuridão. Por escuridão, talvez não seja tão claro; talvez claríssimo, ofusque por obra da luz: difícil saber ao certo. Quem consegue rir ainda está vivo, quem não evita chorar ainda entende. Speechless tribes – três séries de poemas incompreensíveis é um livro de seu tempo e de sua sombra. As incertezas se coroam seguras, agora, mas são as cinzas das tumbas dos tiranos. Tempo presente, tempo futuro e tempo passado. Embaralhe as cartas, consulte os cegos, sacrifique os cervos. Os deuses permitem, mas cobram. Caminhar de olhos abertos, dia e noite. Fechar os olhos para o grande passo.

