Os reis taumaturgos -

    Marc Bloch

    antoniofontoura
    2018
    512 páginas
    17h 4m
    ISBN-10: B07D1D99F1
    Português Brasileiro

    Durante a Idade Média europeia, o caráter sagrado da realeza era considerado um fato conhecido por todos. Os reis não eram simplesmente identificados como os mais altos funcionários do Estado: em torno de suas pessoas havia uma ideia de sacralidade, reconhecida por seus súditos. Seu poder, acreditava-se, advinha de antigas linhagens, e era sinal de sua própria relação especial com o divino. Na França e na Inglaterra, essa realeza mágica desenvolveu um caráter específico: acreditava-se que os reis eram taumaturgos, ou seja, curandeiros, e que o simples toque de sua mão seria suficiente para restaurar a saúde aos doentes. Mas não se tratava de qualquer doença: por razões que o historiador francês Marc Bloch procura explicar em sua obra, esses reis eram considerados capazes, por meio da influência divina, de curar especificamente a escrófula. Os Reis Taumaturgos é uma das obras mais significativas da historiografia contemporânea. Representa a adoção de uma nova perspectiva culturalista para o estudo da história, e marca a abordagem adotada pela escola histórica dos Annales em relação aos temas históricos. O poder e a realeza deixavam de ser temas exclusivamente políticos, para serem analisados a partir de representações, crenças, hábitos socialmente compartilhados. Partindo da Idade Média e alcançando finais do período moderno, Marc Bloch procura traçar as origens da crença na taumaturgia dos reis, as complexas relações que essa crença estabeleceu com os diferentes panoramas políticos da França e da Inglaterra, chegando ao momento de seu desaparecimento. Por que surgiu a crença no poder taumatúrgico dos reis franceses e ingleses? Por que essa crença acabou dirigida especificamente à cura das escrófulas? Como essa crença foi adotada pelos soberanos como representação de seu poder político? E, por fim, por que tal crença, que durou tanto séculos, acabou desaparecendo? Essas são algumas das questões de Marc Bloch procura responder em Os Reis Taumaturgos.

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    Bruno Godinho09/03/2020Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Uma obra-prima do ofício do historiador

    Marc Bloch foi um historiador de pensamento agudo, como poucos outros ao longo do último século. Sua erudição era pareada à sua incrível sensibilidade para os assuntos humanos. Esse livro é, sem dúvida, resultado dessa junção e, por isso, realiza o grande feito de inaugurar uma nova forma de exercer a pesquisa histórica. O autor decidiu partir de uma pergunta que é corriqueira aos leigos da pesquisa histórica: "como as pessoas acreditavam <i>nisso</i> ou <i>naquilo</i>?" A capacidade de crer do ser humano está intimamente associada a uma outra pergunta, quase sempre inaudita, mas que assombra: "como as pessoas conseguiam <i>pensar</i> dessa forma?" A história das mentalidades — esse termo ambíguo e mal definido, cuja discussão historiográfica se estendeu por décadas — deu novo lastro, ainda que tardiamente percebido, a uma série de outras histórias: intelectual, cultural, do pensamento, das ideais, etc. O que <i>Os reis taumaturgos</i> apresenta ao leitor é a minuciosa análise da documentação histórica, a reconstrução dos fatos segundo hipóteses ora arriscadas, ora comedidas, segundo sua organização e arranjo de acordo com os métodos exteriores da antropologia britânica, da sociologia durkheimiana e da psicologia social. O resultado é, enfim, um novo olhar e a habilitação de um novo sujeito histórico: o coletivo. O povo, a massa, os camponeses, como se queira definir, adquire um estatuto de agente histórico que legitima, em alguma medida, o poder dos monarcas ingleses e franceses. O subtítulo pode enganar, "O caráter sobrenatural do poder régio", e fazer pensar: "trata-se de um livro de história política". Sim, trata-se; mas isso não é tudo. <i>Os reis taumaturgos</i> é um livro, também, de história cultural. Talvez o primeiro grande exemplo, longamente ignorado nesse aspecto. Ao fim das contas, Bloch executa um trabalho primoroso no que diz respeito ao rigor de sua pesquisa. Não faz suposições exageradas, que excedam aquilo que seus documentos lhe permitem dizer; corrige suas concepções ao longo do caminho, admite os auxílios de outros naquilo que não sabia resolver ou desconhecia; exibe uma escrita elegante, direta ao ponto, ainda que razoavelmente prolixa (essa prolixidade, inclusive, não é ajudada pelo padrão adotado pela Companhia das Letras, que move as notas para o final do texto, fato de grande incômodo para livros como esse). No todo, é um livro-mestre, um ao qual todo historiador deveria voltar periodicamente (assim como sua inacabada <i>A apologia da história</i>). Vida longa a <i>Os reis taumaturgos</i>, vida longa a Marc Bloch.

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