Paradeiro -

    Luís Bueno

    Ateliê
    2018
    304 páginas
    10h 8m
    ISBN-13: 9788574808192
    Português Brasileiro

    São José dos Campos é uma cidade do interior de São Paulo que em poucas décadas cresceu demais. Outrora famosa por seus sanatórios para tratamento da tuberculose, sua posição estratégica entre Rio de Janeiro e São Paulo a coloca na rota da via Dutra, rapidamente se industrializa e recebe gente de todo o Brasil e também imigrantes estrangeiros. Ela é o cenário deste romance de estreia de Luís Bueno, que investiga suas origens através dos personagens que aí encontram seu destino em diferentes épocas. Num exercício literário habilidoso, a cada capítulo percebemos estilos distintos de narrativa que permitem ao leitor a imersão no enredo quase sempre em primeira pessoa. A precisão histórica dos fatos e personagens reais se mistura muito naturalmente à ficção, criando um ambiente bastante real. Se não foi bem assim, poderia bem ter sido… André Braga

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    CristineB08/09/2019Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Verdades variáveis

    Um livro sobre um lugar é sempre um livro sobre afluências, a plataforma de interseções de diferentes caminhos e épocas. Assim, o livro sobre um lugar revela-se também um relato sobre o tempo, que pode ser lido nas marcas que deixa nas ruas e nas pessoas. "Paradeiro", de Luís Bueno, cujo pano de fundo é São José dos Campos, no interior de São Paulo, é, sobretudo, o rastreamento das biografias das personagens que por ali passaram, suas idas e vindas, mudanças e assentamentos. Na superfície, o romance traça o panorama de uma época específica, os anos de 1930 e 40, sobretudo da perspectiva política e literária. Olhando-se mais a fundo, porém, a narrativa levanta questões humanas universais e atemporais que nos são apresentadas através das reflexões das três personagens centrais. Elas se veem, em tempos diferentes e por motivos distintos, confrontadas com a doença e com a morte. É que São José dos Campos abrigava, neste período, sanatórios para tratamento da tuberculose e, mais tarde, com a rápida industrialização, passou a atrair,todo tipo de imigrantes. Aqui se entrelaçam as histórias dos três protagonistas, que, no entanto, nunca se encontram. E quando digo “entrelaçam”, não se trata de uma metáfora. Os relatos curtos em primeira pessoa alternam-se num ritmo estonteante, alinhavando os retalhos de uma narrativa polifônica e híbrida, através da qual o autor costura a sua história, lançando mão de diferentes estilos, nomeadamente: a escrita epistolar, o monólogo interior e o fluxo de consciência. E é essa esperança quase inútil que funde gradativamente as três personagens no imaginário do leitor, de tal forma que, a partir de determinado ponto, tem-se a impressão de que, apesar de viverem em tempos diferentes e não se conhecerem, os três são a mesma pessoa, ângulos diferentes dos mesmos medos, questionamentos e da mesma severa autoanálise. Luís Bueno estabelece essa fusão dos protagonistas não só no emparelhamento temático, mas também no plano formal, com o enredamento dos monólogos, que parecem espelhar-se, perseguir-se e fugir uns dos outros num crescendo, como numa fuga bachiana. Os monólogos alternam-se num ritmo cada vez mais ágil e de notável dramaticidade, produzindo enorme força de tração. O vaivém de vozes e tempos é levado ao ponto de tensão máxima numa passagem marcante lá pelo meio do livro, no capítulo intitulado sintomaticamente “Mote”, no qual se torna quase impossível distinguir quem fala, a que corpo pertence qual dor. Diante da morte, todos os tempos e todas as vozes parecem fundir-se na mesma voz que levanta as questões primevas do humano: quem sou? De onde venho? Para onde vou?

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