Esse livro me levou de um lado pra outro, de zero a dez, de amar e odiar, tudo ao mesmo tempo. Minha primeira aventura em francês (pra além dos livros infantis e de Harry Potter, claro) já foi logo com um soco no estômago. Irmãos de alma conta, a partir da perspectiva de um soldado senegalês recrutado para lutar pela França na Primeira Guerra, os horrores de algo tão inumano e ao mesmo tempo, exclusivamente humano. O personagem principal vai ao front junto com seu melhor amigo, seu "irmão de alma". Após presenciar o maior dos horrores da guerra, tão próximo de si, ele passa a refletir comportamentos anti naturais contra os "inimigos de olhos azuis" ou os "inimigos de lá" (já que, de certa forma a França também era um inimigo, que, cabe pontuar, foi fortemente combatido após esse contato próximo entre colonizados e colonizadores, essa também é uma das histórias pouco contadas que Diop vai resgatando ao longo do livro). O envolvimento do continente africano na Primeira Guerra quase sempre foge aos livros de história, mas o autor apresenta nesse livro de forma muito poética, às vezes sutil, às vezes cruel, como esse contato se deu, entre colonos que mal falavam, no caso, francês, tidos como a força bruta e selvagem e a sua verdadeira face diante dos horrores da guerra nos moldes europeus. A linguagem desenvolvida por Diop se pauta em muitas repetições, a todo tempo o fluxo de pensamento do personagem se repete, "pela verdade de Deus" ou "eu soube, eu entendi" não usadas quase como uma oração, uma forma de expressar através desse sistemático retorno a um só ponto, os impactos de ter sido retirado de seu lar, para experimentar os piores horrores imagináveis em nome de algo que, verdadeiramente, nem se sabia o quê. Quando saímos das trincheiras, o fluxo de pensamento se torna menos sombrio e sanguinário, passa a refletir com saudosismo e certa distorção sobre o passado e a partir daqui eu já não sei o que é realidade ou apenas a imaginação do personagem. As últimas cenas narram um abuso cometido pelo personagem contra umas das enfermeiras que o assiste, mas, de novo, não se sabe se é ato factível ou apenas fantasia imaginária. De qualquer forma, é duro de ler... Finalmente, para mim, esse é um livro sobre os horrores da guerra, sobre a história não contada do envolvimento forçado do continente africano numa guerra europeia, mas principalmente sobre uma questão que perpassou todos os soldados (claro que aos africanos não restou nenhum apoio ou glória, e isso diferencia muito esse aspecto), que foi a perda de uma possibilidade de futuro. Para a personagem principal, tantas coisas ficaram no passado após a guerra, um amor, uma família, uma amizade... Tanto se perdeu por conta da guerra que uma geração nunca mais será a mesma.